Lenta retomada

A recuperação da demanda pós-crise vai demorar. Mercado estima que ainda vai levar anos para o consumo voltar aos níveis de 2014

Com a economia brasileira em processo de recuperação lenta e gradual, depois de três anos de recessão, o setor industrial começa a recuperar o ânimo, com a elevação paulatina da atividade produtiva. As indústrias, um dos segmentos que mais se ressentiram da crise, começou a recuperar o ânimo, com uma elevação paulatina da atividade produtiva.

Na mesma linha, os índices de consumo de gás natural pelas indústrias nos últimos meses estão acompanhando o ritmo e já começam a mostrar que há uma luz no fim do túnel, com a recuperação paulatina desse setor, já que os volumes consumidos pelo segmento vêm crescendo pouco a pouco. No começo do ano, o volume voltado para o consumo industrial estava na casa de 24 milhões de m³/dia, superando a marca de 27 milhões de m³/dia em março, chegando a pouco mais de 28 milhões de m³/dia em agosto. Até setembro, o acumulado do ano está em 27,034 milhões de m³/dia, em média, de acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás).

Obviamente, tudo dependerá do ritmo da atividade industrial, entretanto um crescimento robusto, para além da média histórica, de fato, ainda é um horizonte ainda distante, visto que a crise derrubou os níveis para os patamares de uma década atrás.

Depois do segmento termelétrico, o industrial é o setor mais preponderante para o gás. No entanto, diferentemente da geração térmica, onde a demanda é diretamente relacionada às ordens de despacho do ONS, o comportamento do consumidor industrial é mais estável, menos volátil.

Sinais de mudança

Um exemplo de que o sinal mudou está nos dados nacionais de consumo da Abegás, segundo os quais em setembro a demanda cresceu 5,34% na comparação com o mesmo mês do ano passado – 27,7 milhões de m³/dia, em média, contra 26,3 milhões de m³/dia.

O gerente de Planejamento Estratégico e Competitividade da Abegás, Marcelo Mendonça confirma que esse é, sim, um processo paulatino, acompanhando o ritmo da retomada industrial. A previsão dele é que o setor possa melhorar ao longo do ano que vem, com taxas de crescimento superiores ante 2017, mas não arrisca projetar qual o nível de retomada que virá pela frente.

“É difícil saber a estimativa de volume a ser consumido porque tem a questão econômica. Então depende desse fator externo que não dá para prever”, comenta Moreira.

O nível de utilização da capacidade instalada, medida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que em agosto deste ano chegou a 74,2%, abaixo do patamar de 81,2% referente à média de 2014, antes da crise que começou em 2015.

“Com a expectativa de maior crescimento do PIB e incremento da atividade econômica, a Petrobras acredita e vem se planejando para o crescimento do consumo industrial”, disse a companhia em nota à Brasil Energia.

Ou seja, tudo depende dos indicadores da atividade industrial e ainda assim, não deverá ocorrer crescimento expressivo pelos próximos três anos. O diretor técnico da Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto, avalia que, mesmo com a retomada industrial, a possibilidade é que, em 2020, o consumo do segmento industrial retorne aos patamares pré-crise. Para o consultor, ainda falta muito para que as indústrias ampliem suas compras de gás de fato, uma vez que os patamares de consumo voltaram aos níveis do biênio 2006/07. “Não estamos avançando nenhuma casa além nos últimos anos e a perspectiva é somente recuperar o espaço perdido”, destaca.

O executivo da GasEnergy salienta que antes mesmo da crise, os patamares de consumo de gás já não eram tão bons, mas a retração da indústria, acabou por colocar uma pá de cal nos planos de ampliação do consumo. Dados divulgados pelo consultor mostram que de 2001 a 2009, as indústrias vinham apresentando crescimento constante, saindo de 15 milhões de m³/dia para 26 milhões de m³/dia. Quando veio a crise global de 2008, o mercado como um todo sentiu os efeitos e aí houve uma retração para 22 milhões de m³/dia.

A recuperação só veio em 2011 e, desde então, não houve ampliação significativa, mantendo-se apenas um ritmo praticamente estável. Então, quando chegou a 2016, o consumo voltou para a casa de 25 milhões de m³/dia.

A diretora de Energia da Associação Brasileira de Grande Consumidores Industriais de Energia (Abrace), Camila Schoti, confirma que no período pré-crise o horizonte era muito mais otimista levando os industriais a projetarem que, em 15 anos, o consumo gasífero poderia triplicar, caso o preço caísse pela metade. Mas como a atividade econômica estagnou, esse otimismo acabou se perdendo.

 “Com preços competitivos havia espaço para crescimento da demanda, decorrente da substituição do combustível”, avaliou ela.

Para ela, o aumento do consumo passa ainda pela competitividade do preço do gás no futuro. Nos últimos anos, com o descolamento do valor do insumo produzido no país em relação ao gás importado, houve um desestímulo por parte dos empresários a pensarem em uma substituição do combustível nos processos produtivos.

Renegociação de contratos

Há um outro complicador. O cenário que começa a se desenhar para os grandes consumidores é nebuloso, diante da renegociação dos contratos de fornecimento. Schoti aponta que os agentes vêm falando em um aumento de 30% no valor da molécula de gás com esse reposicionamento, o que pode afetar a indústria.

Além disso, há ainda a questão da flexibilidade do uso, no qual os agentes podem ter de arcar com uma penalidade de 70% do preço do gás caso haja uma ultrapassagem do volume contratado, de acordo com a executiva.

Por exemplo: se uma empresa contrata 100 mil m³/dia de gás mas acaba usando 104 mil m³/dia, incidiria essa penalidade de 70%.  “Para alguns processos produtivos, acaba ficando inviável. Existem necessidades que precisam dessa flexibilidade”, ressaltou.

A Associação Técnica Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro) é uma das entidades que também agrega consumidores de gás em larga escala. O superintendente Lucien Belmonte vê outro problema: falta de perspectiva de oferta, embora seja esperado um volume maior, principalmente com a exploração do pré-sal. A elevação da disponibilidade, neste caso, precisa estar bem definida, a fim de garantir previsibilidade para os produtores industriais. “Esse aumento esperado da oferta é de suma importância para o barateamento da molécula”, sublinhou.

O executivo explicou que permaneceriam incógnitas a transparência sobre as tarifas de distribuidoras estatais estaduais – São Paulo e Rio de Janeiro são exceções, pois as companhias já são privadas e com a atuação de uma agência reguladora.

 “Outros entes sequer têm agência reguladora. Então vemos um mercado que anda de lado e não vemos uma rápida recuperação a curto prazo e ainda com ocorrência de inseguranças econômicas e regulatórias”, analisou Belmonte. A oportunidade se deu com o programa Gás para Crescer, enquanto tentativa governamental de fomentar um mercado mais competitivo e promover a entrada de novos agentes supridores, segundo Belmonte. Mas o projeto ainda é tímido ao desatar o nó das incertezas relativas aos estados e à atuação da Petrobras, com seu novo papel.

Para os industriais, a questão será mais clara se o projeto de privatização das distribuidoras – que é a tendência esperada – deixar transparente quais as tarifas que serão praticadas e se haverá um processo de revisão tarifária consistente que dê previsibilidade aos consumidores.

A Petrobras explicou que a revisão dos contratos com as distribuidoras ocorre a pedido dela próprias devido a dificuldades apresentadas pelas companhias em virtude da queda do consumo provocada pela crise.

Uma das saídas para tornar o cenário melhor é o novo projeto de lei baseado no Gás para Crescer. Mas o consultor José Roberto Faveret, do escritório de advocacia Faveret Lampert, avalia que o programa poderia ter sido mais ousado no sentido de dar mais liberdade aos grandes consumidores em suprirem suas necessidades. Para ele, a nova proposta deveria oferecer chance para que as indústrias não só possam comprar gás das comercializadoras, mas consigam viabilizar sua própria estrutura para suprirem a si mesmas.

Ele explica, por exemplo, que os grandes consumidores industriais poderiam ser autorizados a construírem seus próprios dutos de transferência de gás para movimentar a molécula ou então obter autorização para construir terminais de regaseificação de gás natural liquefeito (GNL).

“A intermediação da distribuidora agrega pouco valor ao consumidor e gera muito custo”, avaliou.

Distribuidoras tentam expandir

A importância do segmento pode ser exemplificada no plano de expansão da Gas Brasiliano, distribuidora que atua no interior do estado de São Paulo. Nos próximos cinco anos, a empresa pretende aportar recursos de R$ 250 milhões na expansão em sua área de concessão e o diretor presidente da companhia, Walter Fernando Piazza Junior, explicou que os planos serão ancorados na indústria.

A companhia realizou um estudo para verificar a viabilidade dessa expansão e percebeu que o gás é capaz de atender aos pólos produtivos do interior paulista, como a canavieira, implementos agrícolas, fabricantes de alimentos e de calçados. Até o fim deste ano, a Gas Brasiliano pretende levar o insumo até o município de Jaú, onde existe o pólo calçadista.

“Esse é um setor que estava se perdendo em função da falta do gás. Com a chegada, pode retomar seu vigor e tende a crescer”, afirmou Piazza.

No setor alimentício, o gás pode substituir o gás liquefeito do petróleo (GLP) em fritadeiras, fornos e assadeiras.

Já o setor de calçados pode usar o gás natural em processos como nas injetoras de soldas dos sapatos, no forno de conformação, no forno de secagem e também como geração de energia, sendo este último por meio de turbinas de cogeração, dando a possibilidade de diminuição de gastos com a conta de luz.

Fonte: Brasil Energia Online