Não há culpados, mas todos nós, que militamos na área de energia, somos responsáveis pelo que está aí. O fato é que o planejamento energético e o acompanhamento do desenvolvimento da matriz energética nacional estão desalinhados com as necessidades requeridas.
É responsável por essa situação quem planeja de forma equivocada, quem não planeja e também quem a aceita sem trazer à tona, de forma estritamente profissional, esse tema.
O que muita gente que milita no setor já sabia veio a público no último dia 30 de outubro, virou um problema de dimensão nacional, apesar da tentativa de minimizá-lo, podendo gerar impactos diretos ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal.
No início dos anos 90, na discussão sobre o GASBOL, os especialistas questionavam quem autorizaria verter água das hidrelétricas para manter as futuras térmicas a gás em operação para não pagar o "take or pay".
O quadro atual é totalmente diferente, porque além de não termos o problema do "take or pay", uma vez que a oferta de gás se apresenta aquém da demanda, tão pouco temos água para verter das hidrelétricas, dado que os níveis dos reservatórios encontram-se baixos.
O fato ocorrido no último dia 30 de outubro, data em que o mercado convencional transferiu parte significativa do seu volume para as térmicas a gás, apesar de restrito à região Sudeste, mostrou a todos que temos um grande problema a resolver.
O país precisa de energia elétrica para crescer e o mercado (1,5 milhão de veículos, 2,4 mil indústrias, 1,3 milhão de consumidores e 27 Concessionárias de Gás) não pode ser surpreendido pela falta de abastecimento de gás, nem tão pouco injustiçado por ter acreditado no plano de massificação do uso deste produto.
A par da necessidade da interligação das regiões Sudeste e Nordeste, através dos gasodutos de transporte Campinas-Japeri e GASENE, precisamos urgentemente de gás natural liquefeito (GNL) cujas informações nos trazem conforto ao saber que usinas de regaseificação na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro/RJ, e em Pecém no Ceará deverão estar operando dentro dos próximos 2 anos, segundo dados da Petrobras, com capacidade de regaseificar 14 milhões de m³/dia e 7 milhões de m³/dia respectivamente.
Adicionalmente, é necessário antecipar a produção dos campos nacionais, notadamente no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e na Bahia. Dessa forma, deveremos estar reequilibrando oferta e demanda após os próximos 3 anos.
Contudo, o problema relevante que precisa ser resolvido durante esses próximos 3 anos é a necessidade da geração de energia elétrica vis-à-vis o crescimento do mercado convencional.
Por que não incentivar a conversão das térmicas a gás para óleo combustível, óleo diesel e etc., ao invés de desestimular o mercado convencional?
O consumo médio mensal de uma térmica na região Sudeste é da ordem de 600.000 m³/dia de gás. Este volume é equivalente ao consumo de 120 postos de GNV ou 125 mil veículos a gás ou 55 indústrias, diariamente.
Do ponto de vista ambiental o mesmo óleo combustível que está se tentando recolocar no mercado industrial já convertido para gás natural, poluirá tanto quanto se estivesse sendo utilizado nas termelétricas, com a desvantagem de que as indústrias estão, via de regra, mais próximas dos centros urbanos do que as térmicas. O mesmo vale para os veículos que deixariam de utilizar GNV.
Cabe lembrar que muitas indústrias poderão ter problemas de licença ambiental e de existência de equipamentos para "backup".
O Governo Federal está correto ao sinalizar para o mercado que a geração de energia elétrica para o País crescer está garantida até 2012.
O ponto relevante que precisa ser avaliado é: como garantir esta geração de energia elétrica sem causar instabilidade sócio-econômica no mercado convencional?
A solução transcende a matemática e os modelos econômicos porque atinge o vetor sócio-econômico, dos pequenos investidores, inserido na questão.
É surpreendente o fato de que o gás natural (produto de atual oferta restrita) para o segmento termelétrico seja mais barato do que o óleo combustível (que poderia ser utilizado nas térmicas a gás) que não apresenta restrição de oferta. Falta planejamento!
Somente na região Sudeste, com as térmicas de Santa Cruz e Piratininga poderíamos substituir um volume equivalente de gás natural da ordem de 5 milhões de m³/dia. O custo adicional pela utilização do óleo combustível, rateado para todos os consumidores do setor elétrico certamente seria muito menos relevante do que a instabilidade no mercado convencional.
Consultemos os especialistas na matéria!
Acredito que esta alternativa deveria ser mais profundamente avaliada para tornar-se parte relevante da solução do problema do desequilíbrio atual entre oferta e demanda nos próximos 3 anos.
Participe e opine. Vamos em frente!
Armando Laudorio
Presidente