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Ameaça de tarifa preocupa setor de GNL

A tensão comercial entre Washington e a Pequim ameaça uma área promissora da energia nos Estados Unidos: as exportações de gás natural.

A disputa ainda não afetou os preços no curto prazo, mas alguns analistas acreditam que ela poderá perturbar as exportações e desacelerar os novos investimentos em infraestrutura. Isso poderá ainda afetar os preços do gás natural no longo prazo porque os produtores americanos estão rapidamente ficando sem lugar para desovar uma oferta que não para de crescer.

Neste mês, em resposta às tarifas dos EUA, a China propôs outra rodada de retaliação, que inclui uma taxa de 25% sobre o gás natural liquefeito (GNL) americano.

Se os dois lados não chegarem a um acordo, a tarifa chinesa sobre o gás natural americano poderá abrir espaço para outros grandes exportadores de GNL, como a Austrália e o Qatar. A China também poderá recorrer a Rússia, via um grande gasoduto que está em construção, ou à sua própria produção doméstica nos próximos anos, segundo analistas.

“A China vai tentar comprar as commodities de que precisa em outras partes do mundo”, diz J. Alexander Blackman, executivo da Standard Delta, uma “trading” de Houston com operações na Ásia.

Já os exportadores americanos terão de vender GNL para outros países se forem cortados do mercado chinês, que cresce em ritmo acelerado. Como as importações não seriam afetadas imediatamente, analistas duvidam que as tarifas levem a um súbito inchaço da oferta ou a preços deprimidos.

A perspectiva mais desanimadora é que as empresas que estão investindo em infraestrutura de exportação nos EUA recuem em seus planos ou os coloquem em suspenso. “Não há como, no cenário atual, alguém firmar qualquer acordo”, acredita Neil Beveridge, analista de petróleo da Sanford C. Bernstein & Co. “Isso está provocando um grande impasse sobre o que pode ser feito.”

Isso poderá inibir a capacidade futura dos produtores de acessar o mercado internacional, limitando o crescimento do setor de gás natural dos EUA e uma via de escoamento do excesso de oferta.

Com o “boom” do xisto, as empresas americanas embarcaram em projetos para transformar o gás para estado líquido, o que facilita suas comercialização no mundo todo. A demanda crescente por GNL e o acelerado crescimento da China vêm sendo uma benção para os produtores americanos, que esperam vender gás natural no mercado internacional, escoando assim sua produção recorde. “A China poderá ter um papel central na sustentação desse crescimento do GNL americano”, diz Beveridge.

Desde 2011, empresas como a Cheniere Energy, de Houston, e a Dominion Energy, de Richmond (Virgínia), gastaram US$ 44 bilhões na construção de unidades e terminais necessários para a exportação de GNL, segundo a consultoria Wood Mackenzie.

O apetite voraz da China pelo combustível vem provocando uma transformação do setor. Graças à sua necessidade de combustíveis menos poluentes, o país deverá se tornar o maior importador de gás natural do mundo em 2019, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Pequim quer elevar o uso do gás natural para 15% do consumo de energia até 2030, número que foi de 6% em 2015.

Como resultado, “a política comercial é fundamental”, disse Patrick Pouyanné, executivo-chefe da francesa Total, na abertura da Conferência Mundial do Gás em Washington em junho.

A companhia francesa tem uma participação minoritária na unidade de exportação de GNL de US$ 10 bilhões em Hackberry (Louisiana). “Espero que os EUA não sejam privados do mercado chinês”, diz ele. Os EUA “têm uma posição muito boa no negócio de GNL. Mas o mercado é conduzido principalmente pela Ásia e pela China.”

Por enquanto, os negociadores estão mantendo a calma, enquanto esperam o desenrolar das ameaças. Na semana passada, os preços dos contratos futuros de gás natural para entrega em setembro subiram para o maior patamar em sete semanas, com a demanda relacionada ao clima mantendo o mercado aquecido.

“Há uma certa flexibilidade com o que está na lista e o que a China realmente faz”, observa Jason Gabelman, vice-presidente da Cowen & Co, que cobre o setor de energia.

Outros analistas não acreditam que a tensão comercial possa arruinar a tendência de longo prazo das exportações de GNL dos EUA, que deverão se tornar o segundo maior exportador do mundo até 2022, segundo projeção da AIE.

Mas, antes mesmo de a China ter anunciado a possibilidade de impor tarifas ao GNL, executivos do setor de energia estavam nervosos. A Conferência Mundial do Gás deste ano criou grandes expectativas por muitos negócios para o GNL americano, mas os resultados foram poucos.

Na noite de sexta-feira antes da conferência de junho, executivos da Liquefied Natural Gas, de Houston, que desenvolve projetos de exportação de gás, recebeu colegas de uma companhia de petróleo chinesa para concluir negociações de um ano para ajudar no financiamento de um projeto de 8 milhões de toneladas na Louisiana.

Mas no fim do jantar em Houston, os executivos chineses deixaram claro que não assinariam nenhum acordo enquanto os temores persistissem, disse Greg Vesey, executivo-chefe da LNG, em uma entrevista. “É o medo do desconhecido. Ele acaba retardando tudo.”

 

Fonte: Valor Econômico

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