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Elas vieram para ficar?

Usadas como ‘back up” das hidrelétricas, as térmicas avançaram com a escassez de água – e pretendem se torar a base da matriz energética nacional

Em outubro do ano passado, Augusto Salomon, presidente executivo da Abegás, encontrou-se com o então candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, e o então deputado federal Onyx Lorenzoni (hoje ministro da Casa Civil). Na reunião, entregou um relatório de 52 páginas, intitulado “Uma indústria do Gás Natural Competitiva para o Brasil”, que havia escrito com outros membros da associação. O documento continha uma série de propostas para o país aproveitar todo o potencial de geração de renda e emprego da indústria de gás natural, possibilitando investimentos que podem superar US$ 32 bilhões”

“Na área de geração elétrica, defendemos a plena integração do planejamento da expansão dos setores elétrico e de gás natural por meio da compatibilização dos modelos de contrato de gás  com o s de geração, além dos leilões de longo prazo, incorporando externalidades, como custos na distribuição de infraestrutura, de restrições elétricas e de perdas”, afirma Salomon. “O planejamento da construção de novas térmicas a gás viabilizaria a expansão da mala de transporte – hoje, o despacho térmico corresponde a aproximadamente 40% do consumo total de o insumo. Também sugerimos a promoção de leilões locacionais para as térmicas de gás natural.”

Segundo Salomon, na última década o setor de distribuição dessa fonte cresceu 143% em número de clientes e 105% em rede de distribuição. “Nesse período, algumas regiões brasileiras enfrentaram uma grave crise hídrica, especialmente a Sudeste, e o gás natural teve importante papel para garantir a segurança energética do país com o acionamento das termelétricas” diz ele. “Há novas perspectivas de crescimento em toda a  cadeia do gás natural se observamos o contexto internacional, em que ele tem participação acima de 20% na matriz energética, com previsão de declínio apenas a partir de 2050. Por ter a condição de ser o único combustível fóssil capaz de fazer a transição para atriz mais limpa de baixo carbono, o gás natural tem potencial para contribuir com o crescimento do país, aproveitando o momento da produção nacional com as reservas do pré-sal”, completa.

Consideradas caras e poluentes, principalmente a de carvão, óleo e diesel, as térmicas são acionadas em períodos de estiagem ou nos horários de maior consumo. No governo Temer, a discussão pairou sobre a contratação de termelétricas a gás natural, com a primeira licitação prevista para o Nordeste. A ideia seria substituir usinas a óleo e diesel mais caras, cujos contratos vencem nos próximos anos, porém ainda mão se chegou a um consenso sobre essa proposta. Alguns especialistas indicam falta de argumentos técnicos para contratações nesse modelo, sugerindo aumento de custos para o consumidor.

Mas há os que defendam o incremento dessa fonte de energia em âmbito nacional. “O Acionamento mais regular das térmicas ajudaria a recuperar o nível e água nos reservatórios e contribuiria para dar retaguarda à expansão das fontes renováveis como eólica e solar, que são energias intermitentes e, portanto, de menor previsibilidade. Essa são tem um benefício adicional: permitiria a gradual substituição de termelétricas extremamente poluentes – movidas a óleo combustível, ainda em operação no país – por outras mais limpas, como as que funcionam  gás natural, com menor emissão de gases causadores de efeito estufa”, defende o presidente da Abegás. A ideia é ampliar a geração de energia elétrica em estabelecimentos industriais, comerciais e até residenciais, pelo sistema de geração distribuída e cogeração, contribuindo com o balanço de energia na rede de distribuição elétrica e também, como substituto o diesel, trazendo benefícios ambientais.

Leonardo Caio, diretor de tecnologia e regulação da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), afirma que o país ainda tem que avançar nesse segmento [GD e cogeração]. “Hoje, o Brasil tem 14,8 GW de biomassas (mais de 70% só de bagaço de cana-de-açúcar), 3,1GW de gás natural, 1,5GW de solar e 0,5GW de biogás. De acordo com a Cogen Europe, a cogeração —  ou seja, a geração conjunta de energia elétrica e térmica a partir de uma única fonte — fornece 11% da eletricidade da Europa e 15% de seu calor, contribuindo com até 21% da meta de redução de Co2 da União Europeia e 14% da meta de eficiência energética. Segundo estimativas do setor, até 2030 a cogeração poderá fornecer 20% da eletricidade e 25% do calor. E até 2050 o setor gostaria de duplicar a capacidade de cogeração no mix energético da UE”.

O CEO da Prumo Logística, José Magela, acredita que o país deve entrar com mais força na geração térmica gás. “O potencial para novas hidrelétricas é baixo, a demanda para mais energia é alta e as fontes renováveis têm limitações para o abastecimento contínuo”, afirma ele. “Acredito também que temos um aumento significativo da produção doméstica de gás natural nos próximos anos, resultados dos últimos leilões de Exploração realizados pela ANP. Termelétricas a gás natural representam uma das principais alterativas de monetização desse gás, que será produzido no ambiente offshore e precisará ser escoada para  costa.”

Entre outros projetos com os quais a prumo está envolvida, destaque para a criação de um hub de gás natural no complexo Porto do Açu, no Rio de Janeiro, que se dá através da subsidiária Gás Natural Açu (GNA). “O conceito coloca o Açu como principal interface entre oferta e demanda de gás natural no Brasil. Nosso projeto é que ele se transforme em um grande polo de soluções para o escoamento de gás natural. O primeiro passo foi a entrada no setor termelétrico. Atualmente, a GNA está implantando um Terminal de GNL e duas termelétricas, que vão gerar 3 GW de energia, formando o maior parque termelétrico da América Latina. Os próximos passos serão desenvolver conexões pelo Porto do Açu que integrará os campos de produção offshore à malha de transporte de gás. Magela destaca a necessidade de harmonização dos setores de gás natural e energia elétrica. “O tema está sendo discutido através do programa federal do MME Gás Para Crescer. Precisamos ter uma regulação moderna e racional, que permita a comercialização eficiente do gás, desde sua origem até o ponto de consumo”, diz ele.

O CEO da Eneva, Pedro Zinner, faz coro. “Sob a ótica da demanda, o maior mercado consumidor (50%) são as usinas termelétricas, volume que deve se intensificar nos próximos anos para suportar o crescimento das fontes renováveis na matriz”, afirma o executivo. “Nesse cenário, e motivado também pelo plano de desinvestimentos da Petrobras, começa-se a discutir a abertura do mercado de energia e o desenvolvimento de um mercado de gás natural independente, não apenas associado ou subordinado ao petróleo”, afirma, citando o plano de venda de ativos da estatal. A empresa que Zinner administra conta com um parque de geração térmica de 2,1 GW de capacidade instalada, sendo 1,4 GW a gás natural e 735 MW a carvão mineral. Terceira maior empresa em capacidade térmica do país, a Eneva é hoje responsável por 11% da capacidade térmica a gás instalada no território nacional

 

Fonte: Revista Forbes –  Edição Abril 019 – Especial Energia

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