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Consumidor industrial já prepara migração para mercado livre de gás

Em meio à abertura da indústria de gás natural no Brasil, consumidores se mobilizam para migrar para o mercado livre e, assim, inaugurar esse tipo de ambiente de negócios no país. Ao menos três grandes clientes – Air Liquide, Gerdau e Yara Fertilizantes – monitoram de perto as oportunidades, e correm contra o tempo para tentar comprar gás diretamente da Bolívia, reduzindo os custos com o insumo.

O Valor apurou que outras dezenas de empresas se organizam e estudam formar um pool de indústrias para compra coletiva de gás. Representantes dos grandes consumidores, no entanto, ainda veem algumas incertezas regulatórias que elevam os riscos da empreitada e podem dificultar essa migração de imediato, embora haja consenso de que o caminho para o mercado livre no Brasil é irreversível.

Hoje, todas as indústrias compram gás no ambiente cativo, ou seja, com a distribuidora. A expectativa é que, com o aumento esperado no número de fornecedores no mercado, as indústrias tenham melhores condições para negociar contatos diretamente com os novos supridores.

A curto prazo a principal oportunidade para migração para o mercado livre gira em torno da possibilidade de importação do gás boliviano. A transportadora TBG abriu neste ano uma chamada pública para a contratação da capacidade do gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). O processo criou uma corrida de empresas ao país vizinho, para tentar negociar contratos de suprimento. Até então, não existia capacidade disponível no gasoduto para que acordos desse tipo fossem fechados, já que a Petrobras tinha contrato para uso de toda a capacidade do Gasbol.

Ao todo, 18 empresas se habilitaram para participar da chamada, dentre elas a Air Liquide, Gerdau e Yara Fertilizantes e quatro comercializadoras que tentam viabilizar um mercado livre no país (Comercializadora de Gás, Comerc, Gas Bridge e Ponte Nova Comercializadora de Gás), além de distribuidoras e produtoras do insumo. Desse universo, 13 empresas manifestaram interesse em avançar com o processo de contratação. O nome das empresas é mantido em sigilo, mas ao menos uma das grandes indústrias envolvidas – a Air liquide – confirmou que avançou na chamada pública.

“Nosso principal objetivo em contratar parte da capacidade do gasoduto é garantir o abastecimento de gás natural às plantas da empresa no Estado de São Paulo e, consequentemente, à nossa demanda interna pelo insumo”, afirmou o gerente de energia da Air Liquide Brasil, Flávio Kano. Ele, porém, ressalvou que a abertura exigirá ainda adequações em termos de legislação, “a fim de melhor atender à nova realidade do setor”.

O diretor da ANP, José Cesário Cecchi, vê como um bom sinal a diversidade de agentes que participam da chamada. Ele acredita que a Bolívia sai na frente, como principal candidata a suprir um futuro mercado livre no Brasil. Para Cesário, a criação desse ambiente de negócios, no país, é uma questão de tempo: na medida em que o primeiro consumidor livre conseguir se viabilizar, concorrentes seguirão a tendência. “Quem sair na frente vai marcar posição no mercado. É ótimo ver que elas [indústrias] estão participando. Acordaram. Nesse sentido, a YPFB [estatal boliviana] sai na frente, porque tem um custo de produção baixo [em relação ao Brasil]”, afirma.

Adrianno Lorenzon, coordenador de gás natural da Abrace, que representa os grandes consumidores de energia, destaca que a migração é complexa e há dificuldades em viabilizála ainda neste ano, mas que, ao mesmo tempo, existe uma predisposição das indústrias em “testar o modelo”.

“Há toda uma mudança de modelo. Os consumidores livres precisam fechar contratos com os supridores, transportadores e com as distribuidoras. Isso tem um nível de complexidade. Ao mesmo tempo, há empresas querendo fazer acontecer, mesmo que seja para contratar uma pequena fatia de seu consumo, para experimentar como funciona. É uma curva de aprendizado. Se não for agora, em 2020 haverá novas chamadas [para contratação da capacidade dos dutos do Centro Sul]. E no ano que vem o mercado estará num outro nível [de maturidade]”, disse.

O diretor de relações institucionais da Associação Paulista das Cerâmicas de Revestimento (Aspacer), Luís Fernando Quilici, afirma que o setor tem a expectativa de conseguir reduzir os preços de compra do gás para US$ 7 o milhão de BTU (unidade térmica britânica) no city gate (ponto de entrega para a rede das distribuidoras). Atualmente, esse valor oscila entre US$ 8,5 e US$ 10 o milhão de BTU, dependendo da região.

O gás é o principal insumo da indústria de cerâmica, sendo responsável por 30% do custo de produção do setor. Segundo Quilici, dezenas de empresas monitoram as oportunidades de migrar para o mercado livre e estudam com outros segmentos (como os de química e vidro) a possibilidade de formação de um consórcio para compra conjunta de gás no mercado livre no médio prazo. “Isso dá maior poder de negociação”, disse.

O superintendente da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, vê com certa cautela o otimismo sobre a criação do mercado livre no curto prazo. Segundo ele, ainda há incertezas regulatórias que trazem riscos à indústria. Belmonte cita que ainda não há regras definidas sobre como se dará o “swap” operacional (que permite a uma empresa injetar gás no gasoduto de um transportadora e retirá-lo na malha de outra transportadora).

Belmonte também destacou que ainda não está claro como será regulamentada a figura do supridor de ultima instância – responsável por garantir a oferta aos consumidores que por algum motivo não conseguirem ser supridos por um dos agentes em livre concorrência. “Esse é um elemento de risco alto”, afirmou.

A diretora de economia da Associação Brasileira da Industria Química (Abiquim), Fátima Giovanna Coviello, cita também a ausência de agências reguladoras em alguns Estados. “A situação futura [para o mercado livre] é promissora, mas temos que destravar gargalos para tentarmos viabilizar esse mercado livre já no curto prazo. Estamos confiantes.”

Procurada, a Gerdau informou que o seu objetivo, ao participar da chamada do Gasbol, é “entender e ajudar a desenvolver a nova dinâmica desse mercado”. A Yara preferiu não comentar.

 

Fonte: Valor Econômico

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