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Queda do gás nos EUA ajuda a abrir o mercado no Brasil

O cenário de baixa dos preços internacionais do gás natural, neste início de 2020, deve se estender pelos próximos anos. Especialistas consultados pelo Valor acreditam, no entanto, que a indústria brasileira em geral não deve se beneficiar de imediato da queda das cotações do gás natural liquefeito (GNL). Por outro lado, a desvalorização do combustível pode ajudar na abertura do mercado de gás no Brasil, estimulando o surgimento dos primeiros consumidores livres e de novos supridores, como alternativa ao domínio da Petrobras.

Na semana passada, os preços do gás nos Estados Unidos atingiram patamares mais baixos em quatro anos, para menos de US$ 2 o milhão de BTU no mercado spot. Isso em meio ao inverno no Hemisfério Norte, período em que a demanda, geralmente em alta, costuma puxar para cima os preços.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que, com a entrada de novas unidades de liquefação até 2021, no mundo, o cenário de baixa nos preços deve se estender, pelo menos, pelos dois próximos anos. A previsão da estatal é que a demanda global só deve voltar a ultrapassar a capacidade máxima de produção de GNL nos próximos quatro a cinco anos.

Em 2019, a Petrobras já vinha se beneficiando, de certa forma, de um cenário de baixa de preços e chegou a importar, entre setembro e outubro, cargas abaixo de US$ 4 o milhão de BTU (metade do preço do gás que ela vende para algumas distribuidoras), segundo o Ministério de Minas e Energia. Essa queda dos custos, contudo, não se traduzem, necessariamente, em ganhos para o consumidor final.

Os EUA são o principal fornecedor de GNL do Brasil e quedas nos preços do gás, lá, poderiam trazer ganhos aos consumidores brasileiros. O diretor-executivo da Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto, diz, no entanto, que a Petrobras é praticamente a única fornecedora de gás para as distribuidoras estaduais e reajusta preço com base na cotação do petróleo, e não do gás.

Para Moreira Neto, embora a queda dos preços do GNL não traga um impacto imediato para os consumidores no Brasil, há um “efeito psicológico muito relevante” sobre o momento de abertura do mercado. Ele destaca que há novos terminais de regaseificação privados sendo construídos no Brasil – pela Golar, no Sergipe, e pela Gás Natural Açu (GNA), no Rio de Janeiro – e que a Petrobras vai arrendar a sua unidade na Bahia. A entrada de novos supridores, num contexto de baixa dos preços internacionais, portanto, cria uma “janela de oportunidade” para que indústrias busquem oportunidades no mercado livre.

“Talvez estejamos entrando num cenário de sobreoferta como um novo normal no mercado internacional de GNL. E não estamos fechados ao mundo. A Petrobras mantém seus preços referenciados ao petróleo e não há um efeito imediato. Mas até 2021 podemos ter até três terminais de GNL privados no Brasil. Isso traz uma oportunidade de acesso a novos supridores de forma competitiva. O cenário de baixa dos preços dá tração para que novos competidores da Petrobras surjam”, comentou.

Para o consultor, o cenário é favorável tanto para potenciais consumidores livres, que poderão acessar contratos de curto prazo competitivos, quanto para o surgimento de novos fornecedores. “O cenário ajuda o supridor a acessar outras fontes de gás para montar seu portfólio. Além do pré-sal, por exemplo, esse fornecedor poderá contar com a importação de GNL a preços competitivos para compor um mix de fontes”, explica.

O diretor de estratégia e mercado da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Marcelo Mendonça, afirma que o ambiente externo mais favorável pode beneficiar também o mercado cativo. “O GNL, hoje, é um balizador de preços para o Brasil. Vai pressionar a Petrobras a ter preços mais competitivos. Se não, ela vai perder espaço para o GNL”, afirma.

O gerente de gás da Associação dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Adrianno Lorenzon, destaca que outra vantagem da queda dos preços internacionais é o reforço do mercado brasileiro como um destino para o gás do pré-sal. “As petroleiras multinacionais que produzem no pré-sal veriam uma vantagem maior de monetizar suas reservas aqui do que exportar o gás, num cenário de preços baixos”, explica.

Para que os benefícios do GNL mais barato cheguem ao país de fato, no entanto, há desafios pela frente. Mendonça acredita que ainda serão necessários cerca de cinco anos para que o mercado brasileiro de gás passe por mudanças mais estruturais. Ele destaca que o preço baixo do GNL e a ociosidade da infraestrutura de regaseificação do Brasil trazem excelentes oportunidades de desenvolvimento, mas que a abertura do setor passa pela necessidade de que as empresas assumam riscos. E que faltam muitas regulamentações ainda na indústria de gás no país.

“Ainda é preciso vencermos algumas barreiras. Não existem, por exemplo, regras estabelecidas para o compartilhamento de terminais de GNL. Precisamos resolver questões mais urgentes para haver competição na oferta. Sem isso [mais ofertantes], não haverá um gás mais competitivo”, disse.

Lorenzon lembra que os terminais de GNL do Sergipe e Açu começarão a operar, mas sem conexão à malha de gasodutos, o que limita a capacidade de internalização desse gás importado mais barato. Ele defende que as discussões legislativas sobre a revisão do modelo de outorga dos novos gasodutos podem inibir investimentos.

“No curto prazo o impacto do barateamento dos preços do GNL é zero para o Brasil. É frustrante. Quem ganha de imediato é a Petrobras, que importará gás mais barato e melhorará a sua margem. No médio prazo podemos vir a surfar essa onda, mas vai depender do quanto vai durar esse vale dos preços”, diz.

Fonte: Valor Econômico

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