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Sem térmicas para atrair investimentos, gás deve continuar a ser reinjetado

Se o Brasil não conseguir criar uma demanda para o gás natural do pré-sal, o insumo continuará a ser reinjetado nos poços por uma questão econômica, e não bastará a aprovação da chamada Lei do Gás (PL 6407) para atrair investimentos, considerada um texto tímido e não alinhado com a realidade econômica do pós-pandemia de covid-19.

Segundo debate online pelo Estadão com agentes do setor, a percepção é de que sem a criação de uma demanda firme, como termelétricas construídas ao longo de gasodutos funcionando como âncoras em shoppings para lojas menores, o consumo de gás no Brasil dificilmente será destravado.

De acordo com Fábio Abrahão, diretor de Infraestrutura, Concessões e PPPs do BNDES, “uma infraestrutura mal feita é um fardo para as gerações futuras”, e por isso é preciso planejar com muito cuidado a expansão da matriz do gás para que não sejam construídos gasodutos que não serão utilizados.

O banco publicou em maio o relatório “Gás para o Desenvolvimento”, que traz uma série de propostas para viabilizar a expansão do uso do insumo, e destaca que 40% de todo gás natural produzido no Brasil é reinjetado, ou cerca de 40 milhões de metros cúbicos por dia, que podem chegar a 60% em 2023 pelo aumento dos volumes de petróleo, já que a produção de gás é associada.

Se não houver mercado para este gás, ressaltou Abrahão no webinar,ele continuará indo para baixo da terra. “Tem campos que precisam tomar decisão agora se vão reinjetar ou não o gás, porque a partir disso, toda rota tecnológica é definida e é difícil reverter. No horizonte mais curto, de 2 a 4 anos, tem o BM-C-33, Caracará, Carcará Norte e talvez Gato do Mato. Qualquer intervenção nessa rotas tecnológicas é mudar a regra do jogo”, explica o executivo, ao mostrar a necessidade de se criar uma demanda que valha a pena para o investidor não decidir pela reinjeção do gás, uma técnica que além de aumentar pela pressão a produtividade do campo, evita a emissão de carbono na atmosfera, uma saída econômica para as petroleiras reduzirem suas emissões de gases efeito estufa (GEE).

Também o diretor do Cbie, Adriano Pires, um dos maiores especialistas de gás do Brasil, alertou para a necessidade de se fazer uma releitura da Lei do Gás sob a luz do “novo normal” da pandemia se o País quiser atrair investimentos.

“No Brasil estamos atrasados, o gás do pré sal vai dobrar em 10 anos e o projeto apresentado é muito tímido. Ele foi aprovado no ano passado e ninguém previa a pandemia, por isso merece releitura. Agora é mais difícil atrair investimentos, haverá mais disputa no mundo todo”, considerou.

Ele defende leilões locacionais de usinas termelétricas – o que já está sendo estudado há algum tempo pelo governo – para garantir a construção de gasodutos para o interior do País, atraindo assim também outras indústrias. Segundo ele, apenas 2% dos consumidores brasileiros são atendidos por gás encanado.

“Para garantir trazer o gás e não reinjetar, tem que criar mercado, construir gasodutos, térmicas funcionando na base do sistema elétrico brasileiro como lojas âncoras de shoppings que garantem a presença de outras lojas menores”, afirmou Pires. “Eu posso fazer um gasoduto de São Paulo a Goiás e fazer térmicas para sustentar esse gasoduto. O Peru fez assim e teve um payback antes do tempo planejado”, informou.

Pires lembrou que o País se baseou por muito tempo nas hidrelétricas, mas a água agora deve ser voltada mais para saneamento, e não geração de energia. As próprias hidrelétricas construídas mais recentemente são a fio d’água, por uma questão ambiental, e podem por isso ser classificadas de intermitentes. As térmicas a gás natural viriam para dar maior segurança ao sistema brasileiro no momento em que se fala da eletrificação da economia por meio da mobilidade elétrica.

Presente no evento, Gustavo de Marchi, presidente do Conselho de Energia da OAB, também criticou o texto que será votado sobre o novo mercado de gás (PL 6407), e ressaltou a importância de haver uma harmonia federativa para a lei avançar. “Desde a Lei do Gás começou um certo ativismo regulatório, é preciso ter harmonização de leis estaduais e federais. A Lei do Gás tem que ser mais moderna, tem que ser mais visionária, trazer o que está acontecendo no mundo. É um texto tímido que pode ser aprimorado”, afirmou.

Também no debate, o diretor da Aneel, Efraim Cruz, defendeu uma Lei do Gás mais forte e completa, e sugeriu que os gasodutos acompanhem as linhas de transmissão de energia elétrica do País, aproveitando as licenças ambientais das faixas de servidão já obtidas pelo setor elétrico.

“A competência da decisão de construir gasodutos não está na Aneel, mas se isso vier no escopo da legislação vira política pública. Mas se não vier na lei (do Gás), vamos trabalhar com o MME EPE para fazer os leilões locacionais de termelétricas a gás”, afirmou. Segundo ele, também estão sendo avaliados leilões locacionais para o carvão em Santa Catarina.

Fonte: Broadcast / Ag.Estado

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