Mais de um ano após a sanção do mandato de descarbonização de 1% do mercado de gás natural na lei do Combustível do Futuro, o governo aprovou, no início de abril, a regulamentação reduzindo a meta para 2026 para 0,5%. O cumprimento será por meio da participação de biometano no consumo, via molécula ou apenas certificados chamados CGOBs, que precificam o atributo ambiental. Apesar de ficar abaixo do que previa a lei, a meta fixada pelo CNPE trouxe algum alívio para os produtores, já que, no mercado de gás a pressão era por um percentual ainda menor. Agora, a preocupação desse setor que dá os primeiros passos no Brasil é garantir previsibilidade de curto e médio prazo, para que se possa planejar os investimentos em plantas que convertem resíduos em biocombustível. Marcello Weydt, diretor de Gás Natural do MME, conta que um dos desafios na regulamentação do mandato que culminou com a meta de 0,5% foi lidar com o volume e assimetria de informações sobre a disponibilidade do biometano. Outro ponto foi garantir que oferta e demanda de gás natural sigam expandindo, de forma a induzir o mercado do biocombustível. “Editamos não só a lei do Combustível do Futuro, como mecanismo de indução, mas também dentro do próprio Gás para Empregar, nós discutimos como conseguir aumentar a oferta, como dar competitividade ao biometano. Isso é um fato essencial para que a gente consiga ampliar cada vez mais as metas e com isso também tem o efeito de desenvolvimento dos negócios, de transformar passivos em ativos”. Pela lei, o mandato de descarbonização pode variar dentro de um intervalo de 1% a 10%. Do lado da oferta, a visão é que o mandato traz um sinal importante, mas é preciso garantir previsibilidade para os investimentos. “O maior desafio do setor este ano é que o primeiro CGOB saia e comece, de fato, a vigência do mandato para 2026. Mas também entendemos que, falando em previsibilidade, precisamos das metas plurianuais”, comenta Tayane Vieira, head ESG Gás Verde. Para Vieira, ter uma curva indicativa das metas de descarbonização pelos próximos três a cinco anos daria maior clareza para o planejamento da expansão das plantas. Presente em seis estados brasileiros, a Gás Verde produz 160 mil m³ de biometano por dia a partir do tratamento do biogás de aterros sanitários. Até 2028, o plano é ter 10 novas unidades e escalar a produção para 650 mil m³/dia.
De olho na distribuição
Caroline Pinho, gerente de Negócios da Orizon, empresa que também atua na transformação do biogás de aterro em biocombustível, observa que um dos desafios para ampliação da disponibilidade do biometano está na distribuição. Diferente da oferta do gás fóssil, concentrada no litoral do país, a produção de biometano é descentralizada e interiorizada, o que requer desenvolver também projetos que viabilizem a distribuição. “O biometano está em uma curva crescente e tem muito para acontecer. Na parte de infraestrutura e logística, tem tanto como desafio, como oportunidade”, pontuou durante o painel. “Desafio, quando a gente fala sobre uma produção um pouco distante da área de distribuição, é onde a gente entra com oportunidade, tanto na parte de substituição de diesel, na própria logística, como também a oportunidade de tecnologias de micro scale de GNL”. Ela explica, que o mínimo para colocar de pé uma planta de gás liquefeito é na escala de 100 mil metros cúbicos por dia, o que é muito grande para a realidade do biometano. “Então, a produção e amadurecimento dessa tecnologia de micro scale é fundamental para esse processo de distribuição da produção de biometano”, defende.
Substituindo diesel
A Ultragaz, que tem projetos para uso de biometano na transição da frota de caminhões a diesel, aposta no off-grid para distribuição do gás renovável. “Nossa proposta de mercado é trabalhar com a questão da infraestrutura com o que a gente chamou de off-grid. Porque o Brasil é muito grande. Temos uma rede grande de gasodutos de, 40-50 mil quilômetros, mas ainda mais de 4 mil cidades que não são atendidas por gasodutos”, comenta Aurélio Ferreira, diretor da Ultragaz. Na visão do executivo, o modelo ideal nesse contexto combina soluções: o caminhão faz uma parte, o gasoduto faz outra. E, se o objetivo é descarbonizar, esses caminhões precisam usar um combustível menos poluente. “Para levar o biometano para substituir o diesel em frota pesada, temos o desafio de renovar a frota, e para renovar a frota, as pessoas precisam confiar que vai ter infraestrutura de abastecimento, corredores verdes, para as transportadoras adquirirem os veículos já movidos a gás”, completa. Daniel Valle, CSO da Copersucar, lembra ainda que o biometano carrega uma agenda de segurança energética. “Infelizmente, com esse cenário de guerra, com o preço do diesel [disparando], o biometano entrou como um pilar-chave para que várias empresas parem e olhem dentro da sua conta e consigam descarbonizar, ao mesmo tempo, tendo economia de custo na logística”, pontua.
Fonte: Eixos
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