Em um deserto empoeirado no noroeste da Patagônia, uma enorme plataforma está perfurando. Após mergulhar 3 km no subsolo, a broca gira e percorre horizontalmente a mesma distância novamente. Em Neuquén, a cidade mais próxima, os técnicos analisam os dados da sonda e mantêm a broca apontada para um pedaço de xisto rico em petróleo, com apenas cinco metros de espessura. Cerca de 40 dessas máquinas estão espalhadas por Vaca Muerta, uma vasta área de xisto na Argentina.
A formação se estende desde os Andes até os arredores de Neuquén, onde suas camadas escuras aparecem através da areia. A Argentina tem a quarta maior reserva mundial de óleo de xisto e mais gás de xisto. Os argentinos começaram a explorar Vaca Muerta há cerca de uma década. A produção cresceu de forma constante. Então, há alguns anos, ela explodiu. Em 2024, a Argentina exportou mais energia do que importou pela primeira vez em 14 anos.Este ano, a Argentina deverá ultrapassar a Colômbia, que produziu quase 800 mil barris por dia (b/d) no último outono (do Hemisfério Norte), como o terceiro maior produtor de petróleo bruto da América do Sul. Somente a Venezuela, que produz quase 1 milhão de b/d, e o Brasil, que produz mais de 3 milhões de b/d, bombearão mais. Javier Milei, o presidente libertário da Argentina, chama Vaca Muerta de “panaceia” e quer que os exportadores de energia do país prosperem. Se isso acontecer, eles poderão alimentar seus esforços para reverter décadas de declínio econômico.
O negócio de xisto da Argentina enfrentou grandes dificuldades. Os perfuradores se entusiasmam com a geologia de Vaca Muerta, comparando-a às formações mais ricas dos Estados Unidos. Mas, como explica Vinicius Moraes, da Wood Mackenzie, uma empresa de consultoria em energia, “a Argentina é diferente”. Os controles do preço do petróleo, os impostos de exportação e as restrições de capital dificultaram por muito tempo a realização de negócios. Essas políticas, aliadas ao envelhecimento dos poços convencionais, fizeram com que a produção de petróleo diminuísse durante os anos 2000. E, em 2012, a decisão de Cristina Fernández de Kirchner, então presidente da Argentina, de nacionalizar a YPF – empresa de energia da espanhola Repsol – assustou os investidores. Ainda assim, entrou dinheiro suficiente na Argentina para promover um negócio de xisto em expansão. Miguel Galuccio, que dirigiu a YPF de 2012 a 2016, persuadiu empresas estrangeiras – inclusive a Chevron, uma das maiores petrolíferas – a investir em joint ventures.
Em parte, isso pode ser devido às características da perfuração de xisto. Como aponta Francisco Monaldi, da Rice University, no Texas, a produção de xisto tem custos iniciais baixos (em comparação, por exemplo, com a criação de uma grande operação offshore), mas precisa de investimentos contínuos para perfurar novos poços e manter a produção em crescimento. Nacionalizar um projeto de xisto faz pouco sentido para um governo sem dinheiro. “É como desapropriar uma empresa de fabricação de automóveis”, diz Monaldi. “É ótimo no início, mas no dia seguinte você tem de descobrir como continuar fabricando carros”. Por esse motivo, os investidores conscientes do risco estavam dispostos a investir gradualmente. Na última década, a produção de óleo de xisto aumentou de cerca de 20 mil b/d para quase 450 mil b/d. A produção de gás também disparou. A YPF, com perfuradoras locais como a Vista Energy (que Galuccio agora dirige), estimulou o crescimento mais recente. “Quando dissemos que Vaca Muerta poderia dobrar a produção em cinco anos, as pessoas acharam que estávamos loucos”, diz Daniel Dreizzen, ex-secretário de planejamento energético. Atualmente, a maioria dos analistas calcula que Vaca Muerta pode produzir mais de 1 milhão de b/d até 2030.
O boom transformou Neuquén. Vaca Muerta já abrigava algumas perfurações convencionais desde 1918. Mas, em meados dos anos 2000, a produção estava caindo. O xisto deu aos petroleiros mais antigos de Neuquén uma segunda chance e ainda atrai novos trabalhadores para a cidade a cada semana. Gustavo Medele, ministro de energia da província de Neuquén, diz que um motorista de caminhão pode ganhar o equivalente a US$ 3 mil (R$ 17,1 mil) por mês. Mas nem todo mundo está feliz. Alguns moradores se preocupam com a água usada para quebrar as formações compactas de xisto. Um mural próximo ao centro da cidade, mostrando uma plataforma cuspindo fogo ao lado de um rio, declara: “A água vale mais do que o petróleo”. Essas críticas subestimam as recompensas do xisto. O boom pode transformar a economia da Argentina. As estimativas sugerem que o negócio do xisto poderia ajudar a criar entre 250 mil e 500 mil empregos até o início da década de 2030. A ampliação do superávit comercial do país reabasteceria suas escassas reservas de moeda estrangeira, ajudando-o a pagar suas dívidas. A Aleph Energy, uma consultoria que Dreizzen agora dirige, calcula que as exportações de hidrocarbonetos poderiam trazer mais de US$ 30 bilhões (R$ 171 bilhões) para a Argentina todos os anos a partir de 2030. Isso contribuiria muito para aumentar o superávit comercial total da Argentina. As exportações de energia ajudaram a elevá-lo para US$ 19 bilhões (R$ 108 bilhões) em 2024, valor mais alto em anos. As reformas de Milei já facilitaram os negócios.
Desde o ano passado, as empresas não são mais obrigadas a reservar um determinado nível de suprimento para as refinarias locais antes de poderem exportar. O governo também parou de intervir no mercado de petróleo, permitindo que o preço do petróleo vendido localmente se aproxime do preço do petróleo Brent, a referência global. Os empresários do setor anseiam pelo fim dos controles de capital da Argentina, o que facilitaria a importação de kits e atrairia mais investimentos estrangeiros. Mas a remoção desses controles é um trabalho mais lento. O dinheiro estrangeiro ajudará os exportadores argentinos a resolver seu problema mais urgente: a infraestrutura. O excedente de energia do ano passado foi obtido com a entrega de gás ao Chile, a operação de oleodutos a todo vapor e o envio dos barris restantes de Vaca Muerta por caminhão.
Um oleoduto adicional, que deverá ser inaugurado em breve, oferecerá mais capacidade para enviar exportações para Puerto Rosales, uma cidade no litoral. Os exportadores também estão aumentando o fornecimento de gás para o Brasil, usando antigos oleodutos via Bolívia. Mas os mercados dos países vizinhos continuam pequenos em comparação com os da Ásia e da Europa. Assim, para aumentar significativamente as exportações, a Argentina está buscando mais longe. Vários projetos estão em andamento, apoiados por isenções fiscais e outros incentivos que Milei criou para grandes investimentos em infraestrutura. A YPF, com outras empresas, está construindo um oleoduto para transportar 550 mil b/d até Punta Colorada, onde um porto de águas profundas receberá navios-tanque maiores. A empresa também quer enviar gás natural liquefeito (GNL) para a Ásia, onde se espera que a demanda continue crescendo até pelo menos a década de 2040. O custo da infraestrutura necessária é imenso, em torno de US$ 50 bilhões (R$ 285 bilhões). Mas a YPF, que assinou um acordo para desenvolvê-la com a Shell, u ma grande e mpr e s a britânico-holandesa, está determinada. Horacio Marín, executivo da empresa, tem percorrido a Ásia em busca de encomendas; em 21 de janeiro, três empresas indianas disseram que estavam interessadas em receber carregamentos.
Duas coisas podem inviabilizar o progresso da Argentina, adverte Dreizzen. Em primeiro lugar, a próxima onda de produção de petróleo e gás nos EUA pode pressionar os preços para baixo, tornando os projetos de GNL, em particular, menos lucrativos e deixando os produtores argentinos com pouco espaço para competir. Em segundo lugar, se o país entrar em outra crise econômica, os investidores estrangeiros poderão entrar em pânico. Isso tornaria a expansão da infraestrutura de exportação do país uma tarefa ainda mais difícil. Tirar todo o proveito da Vaca Muerta não será fácil. Mas ela já está transformando o país.
Fonte: O Estado de S.Paulo / The Economist
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