Um movimento silencioso de mais de US$ 220 milhões, cerca de R$ 1,2 bilhão, passou pelos portos brasileiros em junho e revelou o novo xadrez do gás no país. Em meio à tensão no Oriente Médio e à disputa global por cargas de GNL, o Brasil ampliou em 400% as compras de gás natural liquefeito dos Estados Unidos em relação a maio. Foram 16,26 bilhões de pés cúbicos desembarcados no mês, segundo dados da S&P Global, em uma corrida que combinou três fatores: geopolítica, abertura do mercado nacional e segurança energética. O primeiro gatilho veio de fora. A escalada no Oriente Médio e o temor de gargalos logísticos no Estreito de Hormuz acenderam o alerta entre compradores globais. Com o risco de alta de preços e disputa por navios no segundo semestre, agentes brasileiros correram para travar cargas no Golfo do México.
Mas o salto não se explica apenas pela Petrobras. A abertura do mercado de gás começou a aparecer nos portos. Terminais privados, como Barcarena, no Pará, operado pela New Fortress Energy, e Sergipe, da Eneva, receberam cargas para abastecer térmicas e consumidores locais. O terceiro fator é doméstico: o período seco. Com o ONS calibrando o uso dos reservatórios, o gás virou seguro contra aperto hídrico. Ter combustível disponível significa deixar térmicas prontas para entrar em operação se o sistema exigir. O mapa de junho mostra a nova geografia do GNL no Brasil: duas cargas em Salvador, uma na Baía de Guanabara, uma em Sergipe, uma em Barcarena e ainda o navio Simsimah, fretado pela QatarEnergy, com destino indicado ao país. O preço FOB do gás americano fechou em US$ 13,60 por milhão de BTU. Mais do que uma compra pontual, o salto mostra que o Brasil passou a jogar de forma mais ativa no mercado spot global para evitar que a crise externa vire problema de energia dentro de casa.
Fonte: Veja / blog coluna Radar Econômico
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