Os resíduos que saem das casas dos moradores do Rio de Janeiro passarão a ter um novo papel antes mesmo de completar seu ciclo no aterro sanitário: o gás produzido por sua decomposição será usado para abastecer os caminhões que transportam mais lixo até Seropédica, na Região Metropolitana. A Regenera Rio — unidade de gestão e tratamento de resíduos sólidos do Grupo Aegea, companhia de saneamento — começa a colocar nas ruas neste mês uma frota de 60 veículos pesados movidos 100% a biometano, combustível renovável obtido após a purificação do biogás gerado pela decomposição dos resíduos. O investimento anual informado pela companhia é de R$ 28 milhões. A Aegea entrou nessa operação após concluir a aquisição de uma concessão preexistente. A Regenera Rio assumiu integralmente o contrato em 8 de dezembro de 2025 e ficará responsável pela operação até 2036, em contrato com a Comlurb.
A operação começa em cinco Estações de Transferência de Resíduos (ETRs), instalações que recebem o material coletado na cidade antes de seu transporte até o destino final. São cerca de 9 mil toneladas por dia. A partir das estações, os resíduos seguem em carretas até Seropédica. “Hoje, nós temos quase 120 carretas rodando diariamente na cidade do Rio de Janeiro. Com esse movimento que estamos fazendo e uma gestão mais eficiente da frota, vamos conseguir reduzir essa quantidade para, em média, pouco mais de 60 carretas”, diz Maurício Batista, diretor-presidente da Regenera Rio. A redução será possível porque a empresa não está mudando apenas o combustível. As atuais carretas de 65 metros cúbicos, que transportam em média entre 28 e 30 toneladas por viagem, serão substituídas por equipamentos de 87 metros cúbicos, capazes de levar aproximadamente 38 toneladas. “Estamos buscando uma quantidade maior de toneladas por viagem e, com isso, tiramos equipamentos da rua”, afirma Samuel Figueiredo, diretor-executivo da Regenera Rio. A escala da operação ajuda a dimensionar a decisão. Mais de 300 viagens são realizadas diariamente e os novos equipamentos funcionarão 24 horas por dia, sete dias por semana. “Quando falamos de 60 equipamentos, parece algo pequeno, mas, como são equipamentos que rodam 24 horas, sete dias por semana, a gente vai somando tudo isso ao longo do ano. Estamos falando de algo em torno de 14 milhões de quilômetros rodados”, diz Figueiredo.
Considerados também os resíduos de outros municípios atendidos na região, o CTR de Seropédica recebe mais de 10 mil toneladas por dia. O aterro foi concebido, desde seu projeto em 2011, para captar o biogás produzido pela decomposição desse material. A estrutura possui sistemas de drenagem que permitem retirar tanto os líquidos quanto os gases formados no maciço do aterro. Na drenagem vertical, os pontos de captação do biogás ficam distribuídos pelo terreno e são conectados a uma rede de tubulações que leva o gás até a usina. “À medida que vamos colocando resíduos e subindo camadas, vem subindo com esse dreno vertical. Chega um determinado momento, fechamos e fazemos uma captação e esse tubo vai sendo interligado na nossa rede, que vai até a usina de biogás”, explica Figueiredo. Na usina, motores trabalham continuamente para captar o gás do aterro. Depois, ele passa pela purificação. Segundo o executivo, o biogás possui em torno de 50% a 54% de metano. O processamento aumenta a concentração de metano até chegar ao biometano utilizado como combustível. Atualmente, a operação capta cerca de 25 mil metros cúbicos de biogás por hora e produz aproximadamente 130 mil metros cúbicos de biometano por dia após a purificação, segundo a empresa. Foi essa disponibilidade de combustível dentro do próprio CTR que levou a companhia a estudar a troca da frota. “Fez muito sentido transformar essa frota. Nós damos mais de 300 viagens por dia com essas carretas. Hoje, essa frota consome algo em torno de 600 mil litros de diesel por mês e nós vamos migrar isso para um consumo da ordem de 750 mil metros cúbicos de biometano”, disse Figueiredo. Na prática, a companhia pretende conectar duas pontas da mesma operação. O caminhão leva os resíduos até Seropédica e, ao chegar ao CTR, pode ser abastecido com o combustível produzido a partir da decomposição dos resíduos recebidos anteriormente. “Recebemos o resíduo no nosso aterro, damos a destinação e o tratamento, produzimos o biogás e usamos esse biometano para abastecer os caminhões e voltar a buscar mais resíduos. Assim, fechamos esse ciclo dentro da nossa cadeia”, afirma Figueiredo.
A decisão de converter toda a frota pesada não foi tomada apenas a partir da disponibilidade de biometano. Desde que entrou na operação, a Regenera Rio colocou alguns veículos movidos pelo combustível em circulação para testar seu desempenho. “A decisão também foi baseada em um período de testes que a gente fez com algumas carretas. Tão logo ingressamos, tivemos algumas carretas já movidas a biometano. Conseguimos transitar ao longo desses primeiros oito meses, coletando toda a experiência e entendendo o funcionamento, porque é um equipamento diferente”, diz Batista. Os novos caminhões já saem de fábrica preparados para receber biometano. Não são, portanto, veículos originalmente movidos a diesel que passam posteriormente por conversão. Para Figueiredo, a idade da Regenera Rio não tornou necessariamente a transição mais simples. “Não diria que foi fácil. A gente teve que estudar bastante o tema. Além da operação do aterro sanitário, essa é uma operação muito grande e pesada de logística. Estamos transportando algo em torno de 9 mil toneladas por dia dentro da cidade do Rio de Janeiro”, afirma. A empresa também decidiu alterar o modelo das carretas. Além da maior capacidade, os novos equipamentos utilizam piso móvel, sistema que permite retirar os resíduos sem levantar a caçamba. “Quando ela chega lá no aterro para fazer a descarga, não precisa mais bascular, já que conta com um sistema de réguas que vai tirando o resíduo. Além de ter um ganho de eficiência operacional, a gente tem um ganho de segurança, porque o maior risco de tombamento dessas carretas é justamente no momento da descarga”, diz Figueiredo.
A mudança também tem uma dimensão financeira. Ao usar o combustível produzido no próprio aterro, a Regenera Rio pretende reduzir a exposição da operação às oscilações de preço do diesel e a eventuais riscos de abastecimento. Isso não significa eliminar o combustível fóssil de toda a atividade. Equipamentos usados dentro do aterro, como pás-carregadeiras e escavadeiras, continuarão abastecidos com diesel, mas a mudança já garanto uma economia com os custos e uma redução no impacto ambiental. “Nós também ficamos sujeitos à variação dos preços dos insumos, em especial dos combustíveis. A alteração para o biometano passa a diminuir e a mitigar isso, porque obviamente ainda temos alguns equipamentos movidos a diesel”, afirma Batista. O executivo aponta ainda o abastecimento como uma questão operacional. Como o biometano é produzido no próprio CTR, a principal frota de transporte deixa de depender exclusivamente da chegada de combustível de fora. “Em um eventual desabastecimento no Brasil ou no Rio de Janeiro, naturalmente o serviço poderia ser comprometido. No momento em que fazemos essa substituição, garantimos o abastecimento considerando que captamos no aterro mais ou menos 25 mil metros cúbicos de biogás por hora”, diz Batista. Figueiredo acrescenta que a decisão foi tomada olhando o prazo restante da concessão, e não uma redução imediata de despesas. “Não é uma economia para hoje. Estamos pensando numa estruturação de longo prazo. Pensamos na nossa concessão, então temos que estar olhando não o ano zero, mas os próximos anos. Essa segurança de fluxo de caixa é algo muito importante na nossa avaliação”, afirma. Batista reconhece que os equipamentos movidos a biometano têm custo de aquisição maior devido à tecnologia embarcada. Segundo ele, a decisão considerou a operação como um todo, e não apenas o preço dos veículos. “Naturalmente, esses equipamentos têm uma tecnologia embarcada maior do que um equipamento a combustão, então acabam tendo um custo maior de aquisição. Mas, quando a gente olha o todo, em todas essas eficiências, faz sentido para a empresa avançar”, diz.
O destino dado ao gás produzido pelos resíduos também mudou ao longo dos anos. Segundo Figueiredo, a captura do biogás nos aterros esteve primeiro relacionada à geração de créditos de carbono e, posteriormente, ganhou espaço na produção de energia elétrica. Agora, o biometano abre uma terceira frente: a mobilidade. “Quando a gente começou a fazer captação de biogás nos aterros, o carro-chefe era justamente a venda de crédito de carbono. Essa matriz migrou para geração de energia, com motogeradores abastecidos a biogás, e agora a gente chegou nesse ponto do biometano”, afirma Figueiredo. Segundo Batista, a operação do aterro de Seropédica gera atualmente pouco mais de 1 milhão de créditos de carbono por ano por meio do processo de captação e aproveitamento do gás. O diretor-presidente também pondera o tamanho do impacto da nova frota quando colocado diante de uma cidade como o Rio. “Pouco mais de 60 veículos a biometano talvez, dentro do horizonte do Rio de Janeiro, não venham causar um impacto significativo em termos de melhoria na qualidade do ar. Mas, obviamente, aqui é o início de uma caminhada”, afirma Batista. Para a companhia, uma das possibilidades é que a experiência da frota própria seja replicada futuramente em outras operações ou por empresas que utilizem o biometano como combustível. Batista diz que a Regenera Rio observa transportadoras e iniciativas de transporte público que estudam o combustível, mas o movimento anunciado agora está concentrado na frota da própria empresa.
A mudança nos caminhões ocorre enquanto a companhia prepara uma nova etapa de expansão do CTR. A Regenera Rio recebeu autorização para operar uma área contígua ao aterro atual. O terreno completo possui mais de 300 hectares e a possibilidade de expansão já fazia parte do planejamento do aterro, segundo a empresa. A nova área passou por um processo adicional de licenciamento e deve começar a receber resíduos nos próximos dias. “O aterro funciona, gosto sempre de fazer o paralelo, como um bolo de noiva. A altura do bolo depende naturalmente da camada de base. A gente vai preenchendo essas camadas e chega um momento em que tem que ampliar um pouco para o lado”, diz Figueiredo. A S4 já conta com os sistemas de drenagem necessários para acompanhar a disposição das novas camadas de resíduos. Conforme o material se acumular, a estrutura vertical de captação do biogás também será elevada. A expansão aumenta a área disponível para uma operação que recebe mais de 10 mil toneladas diariamente e, ao mesmo tempo, alimenta a matéria-prima da nova matriz de transporte. Na lógica adotada pela Regenera Rio, parte do gás gerado pelo resíduo retorna ao início da cadeia: vira combustível para as carretas que saem de Seropédica e voltam às estações de transferência para buscar a carga seguinte.
Fonte: Exame
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