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Sem térmicas, Califórnia sofre com falta de planejamento e descoordenação interestadual

O estado mais populoso dos Estados Unidos, a Califórnia, está enfrentando uma onda de calor extremo que está desafiando o sistema elétrico na costa Oeste norte-americana. O California Independent System Operator (CAISO), equivalente ao Operador Nacional do Sistema (ONS), tem emitido comunicados há seis dias solicitando que a população reduza o consumo de energia nos finais de tarde para evitar um corte de carga. A resposta da demanda, aliás, tem sido fundamental para evitar um desabastecimento elétrico na região desde o início da semana.

“As interrupções esperadas na segunda (17) e terça-feira (18) foram evitadas em parte pelos consumidores que usam menos eletricidade no horário mais crítico da tarde e início da noite, quando as temperaturas permanecem altas e a produção solar cai. Os esforços de conservação durante esses tempos podem evitar medidas mais terríveis, como interrupções de energia rotativa ou falhas no equipamento gerador que podem levar a problemas mais graves perdas não planejadas de energia”, alerta o CAISO em nota divulgada nesta quarta-feira, 19 de agosto. “Cortes de energia rotativos ainda são possíveis se as condições do sistema não melhorarem”, alertou.

Para especialistas ouvidos pela Agência CanalEnergia, a Califórnia é o exemplo de falha de planejamento energético, onde se acelerou a transição para uma matriz renovável (Califórnia é um dos estados com a matriz mais verde dos EUA, com planos de descarbonização até 2045.), se chocando com um evento climático extremo. Cabe lembrar que o estado descomissionou 9 GW de térmicas nos últimos 5 anos, e estabeleceu planos de expansão da matriz composto unicamente por renováveis e baterias.

Embora a Califórnia tenha forte participação das chamadas “novas” renováveis (quase 60% do mix é de gás natural, hidro e nuclear), uma seca está limitando a geração hidrelétrica da região. Além disso, o estado só conta com baterias suficientes para atender 1% do pico de carga ocorrido. No último sábado (15), o sistema californiano perdeu 1 GW de geração eólica e uma térmica a gás natural.

O CAISO alega que não havia potência disponível para atender ao pico de carga, porém há críticas pois o pico de carga foi inferior a picos registrados no passado (46 GW na sexta, 45 GW no sábado; porém o pico recorde foi 50.2 GW em 2006, seguido de 50.1 GW em 2017).

“Na prática, houve algum descasamento no sistema. A desmobilização do parque térmico foi maior do que a capacidade que o sistema tem para lidar com as variações de sazonalidade de carga e oferta”, comentou Tiago de Barros, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e CEO da RegE Consultoria.

A PSR é a responsável pela ferramenta de planejamento e operação do sistema hidroelétrico do Noroeste do Pacífico (Oregon, Washington State, Idaho, Montana e British Columbia), que interage com a Califórnia, Nevada e Arizona. Todos são estados exportadores/importadores da Califórnia. Na opinião do presidente da PSR, os planos de confiabilidade da Califórnia são irrealistas. “Eles não estão dimensionando a reserva direito”, disse.

Barroso explicou que nos Estados Unidos existem “fricções regulatórias” que dificultam o intercâmbio de energia entre os estados. “Por exemplo, fazer a geração hidro do Noroeste do Pacífico chegar na Califórnia depende de alguns mecanismos, como permitir que a energia de um estado seja “ofertada” no outro, acesso ao sistema de transmissão etc. Os Estados Unidos como um todo pagam um preço por essa falta de harmonização regulatória entre estados, que não ocorre no Brasil e que tem sido muito perseguida lá”.

Para o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Barral, não se pode culpar as fontes renováveis (eólica e solar) por esse episódio. Ao que parece, a situação na Califórnia não pode ser atribuída a um único fator, na verdade envolve uma combinação de fatores, entre eles as altas temperaturas. “Eventos climáticos extremos precisam ser cada vez mais considerados no planejamento, tal como o percebido pela Califórnia. O Brasil também é suscetível a eventos climáticos extremos e temos avançado na representação disso nos nossos cenários, tanto pelo lado da geração quanto pelo lado da demanda”, disse Barral.

O consultor Tiago Barros lembrou que o clima na Califórnia é determinado pelas condições de temperatura no Oceano Pacífico. “E a gente sabe que tem uma relação muito grande entre o Pacífico Norte e Sul. Se está tendo esse evento climático na Califórnia a gente pode esperar algum repique no Brasil”.

Para Xisto Vieira, presidente da Associação Brasileira de Geradores Termelétricos (Abraget), está evidente que só as fontes renováveis não são suficientes para garantir a segurança que o sistema elétrico precisa.  “As renováveis são importantíssimas porque elas têm qualidades incomensuráveis em termos climáticos. Mas elas têm que vir acompanhadas de térmicas a gás, que são quem dão o equilíbrio para ter reserva de potência, reserva de energia, seguranças energética e elétrica. Esse é o misto que tem que ser feito”, disse o executivo.

Xisto lembra que o Brasil tem um conjunto de térmicas a óleo (10 GW) que estão com os contratos vencendo a partir de 2023. “Existem várias usinas térmicas que estão com contratos se encerrando no curto, médio e longo prazo, e como não está tendo leilão isso pode vir a ser um problema.”

O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, disse que a Califórnia criou uma série de medidas para incentivar a geração solar, mas fizeram uma transição muito rápida. “Eles não fizeram a transição energética adequada porque faltou hidrelétricas e térmicas para fazer a coordenação da segurança do sistema. Só energia solar não aguenta”, disse. “Esse é um alerta para nós, isso pode acontecer no Brasil se não tomarmos os cuidados adequados”, completou.

Barral garante que o Brasil tem tomado as medidas necessárias para evitar o que está acontecendo na Califórnia. “Parte do arcabouço necessário para evitar riscos para o Brasil tem sido implementado: novos critérios de segurança do suprimento, aprovados pelo CNPE em dezembro de 2019; melhoria nos sinais de preços e liquidez do mercado; mecanismos de adequabilidade do suprimento com a separação de lastro (confiabilidade) e energia. Essas são frentes fundamentais para prevenir problemas no futuro.”

Além disso, as renováveis no Brasil estão espalhadas por todo território e conectadas a um amplo e robusto sistema de transmissão, o que traz uma segurança grande para nosso sistema elétrico. “Com os estudos recentes da EPE sobre flexibilidade e atendimento de capacidade do sistema, temos tranquilidade para ter expansão das fontes eólica e solar”, disse Barral.

Outro ponto relevante: a resposta da demanda teve forte participação no atendimento da demanda na Califórnia nesses momentos críticos. Isso só reforça a importância de avançar nos estudos de modelagem e na implantação dos mecanismos de mercado.

“Um novo Caderno do PDE 2030 está saindo esta semana, com atualização do balanço no suprimento de potência. Os novos critérios de suprimento aprovados pelo CNPE em dezembro passado fornecem os indicadores adequados para essa nova realidade. E com a modernização do setor elétrico, teremos instrumentos de mercado mais adequados para prevenir situações como a vivida pela Califórnia”, finalizou Barral, responsável pelo planejamento do setor elétrico brasileiro.

Para Luiz Barroso, que também foi presidente da EPE durante o Governo de Michel Temer, o que está acontecendo na Califórnia, a rigor, pode acontecer em qualquer lugar. “Na minha opinião, a principal lição é a demonstração que o dimensionamento das reservas operativas será fundamental com tantas incertezas. Novas técnicas, como a reserva dinâmica e probabilística, já discutidas no Brasil e em implantação na Europa, serão necessárias para que os montantes suficientes de reserva sejam associados (vide a declaração do CAISO). Dimensionar bem as necessidades de reservas considerando as incertezas associadas, como variação da produção das renováveis e da demanda, é essencial para a confiabilidade”.

O especialista disse que em sistemas que buscam a descarbonização completa, as térmicas têm sido substituídas pelo armazenamento, mas ainda com participação muito pequena na Califórnia. O Brasil já possui um sistema hidroelétrico que atua como “bateria”, que em conjunto com o sistema de transmissão permite a integração de renováveis, com as térmicas complementando o mix.

“A última lição é a fundamental importância de permitir acesso uniforme e não discriminatório de recursos de estados vizinhos ao operador, que o Brasil está na frente com uma regulação federal mas que os EUA ainda precisam aperfeiçoar com a diversidade de regulações estaduais diferentes, que por sua vez demandam protocolos de atuação entre os estados e introduzem barreiras”, conclui Barroso.

 

Fonte: Canal Energia

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