Em artigo publicado no portal Poder 360, o sócio-fundador e diretor do CBIE, Adriano Pires, afirma que
A busca por soluções sustentáveis para o transporte no Brasil tem colocado os biocombustíveis tradicionais, etanol e biodiesel, no centro da transição energética. No entanto, para que o setor de transportes avance rumo à neutralidade de emissões, é necessário ampliar o leque de soluções. Nesse cenário, o gás natural surge como uma alternativa possível e importante –e já utilizada em muitos países com sucesso. Existem 2 formatos para utilização do gás natural em motores: o GNC (Gás Natural Comprimido) e o GNL (Gás Natural Liquefeito). O GNC é competitivo para curtas distâncias, de até 300 km, enquanto o GNL, para longas distâncias. Hoje, um caminhão a GNL tem uma autonomia superior a 1.000 km. O GNL também se apresenta como uma alternativa altamente competitiva em outros segmentos, como ferroviário e aquaviário, especialmente no transporte marítimo de cargas e passageiros. Grandes companhias, como Maersk MSC Cosco CMA e Hapag-Lloyd, ou já têm encomendas de navios movidos a GNL ou já têm embarcações do tipo atuando no mercado.
Em todos os usos, o desempenho do gás natural supera o do combustível original, seja o diesel marítimo ou o diesel tradicional. Estudos da Abegás, por exemplo, mostram que o uso de gás natural em veículos pesados pode reduzir em até 20% as emissões de CO2, além de quase eliminar material particulado e óxidos de enxofre, reduzindo tanto os danos ao motor quanto à saúde pública. Para o uso no transporte marítimo, os ganhos em renovabilidade também são notáveis, emitindo de 21% a 28% menos CO que o diesel marítimo, além de reduzir o desgaste de motores. Ao redor do mundo, o GNL já é amplamente utilizado como alternativa de baixo carbono na matriz de transporte, especialmente na Europa e na região da Ásia-Pacífico. O caso europeu é emblemático, de 2013 a 2017, a União Europeia implementou o projeto “LNG Blue Corridors” , visando a viabilização de 4 rotas principais de abastecimento de caminhões a GNL no continente, com 14 estações de abastecimento. Em outubro de 2023, meia década depois do fim do projeto, o número de postos de GNL na região já superava 700, uma evidência da rápida adoção da tecnologia no transporte rodoviário. O Brasil é um dos países com maior frota de carros de passeio –em particular, táxis e veículos de aplicativo– convertidos do mundo, com destaque para os Estados do Sudeste. A tecnologia é madura, o custo operacional é reduzido e, para motoristas de aplicativos ou profissionais que rodam muito, o retorno financeiro da conversão é bastante vantajoso. A vantagem ambiental do GNC também é conhecida. Até mesmo quando comparado ao etanol, a performance em carbono é semelhante, mas o gás leva vantagem na redução de poluentes locais e na previsibilidade de preços.
Mais do que uma alternativa isolada, o gás natural pode atuar também como ponte tecnológica para a entrada do biometano no transporte, uma versão renovável e de baixo carbono do combustível. A substituição gradual do gás fóssil pelo biometano pode reduzir ainda mais as emissões do transporte, sem necessidade de alterar a infraestrutura já existente. Ou seja, há uma sinergia virtuosa entre gás e biocombustíveis, aproximando ainda mais o setor de metas de descarbonização ambiciosas, mas viáveis. Esse movimento vem ganhando respaldo institucional. Um bom exemplo disso é a criação do Programa Nacional de Descarbonização do Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, descrito na Lei do Combustível do Futuro aprovada em 2024. A iniciativa busca reduzir a intensidade de carbono do uso do gás natural no Brasil por meio da introdução gradual de metas compulsórias, associadas a incentivos ao biometano e mecanismos de compensação de emissões. A proposta é permitir que o gás natural siga sendo um vetor de desenvolvimento energético, mas com progressiva incorporação de renovabilidade e rastreabilidade ambiental. O programa também determina a criação de certificados de desempenho ambiental do gás, além da integração com os mercados regulado e voluntário de carbono –um passo essencial para alinhar o setor aos compromissos climáticos do país. Outro avanço institucional substancial veio na sessão conjunta do Congresso realizada em 17 de junho. Na data, os congressistas derrubaram 2 vetos presidenciais, um no Paten (Programa de Aceleração da Transição Energética) e outro no Mover (Programa Mobilidade Verde e Inovação). No Paten, o Congresso retomou o artigo que incluía projetos de infraestrutura de abastecimento de GNC ou GNL na lista de empreendimentos elegíveis aos recursos do Fundo Clima. No caso do Mover, o dispositivo legal resgatado viabiliza a habilitação de projetos de postos de abastecimento de GNL no regime de incentivos à pesquisa e desenvolvimento e à produção tecnológica para as indústrias de mobilidade e logística.
Já a percepção pública sobre o uso de gás natural no transporte vem mudando conforme os resultados de testes práticos são divulgados no Brasil. Em São Paulo, o projeto-piloto da Scania com ônibus urbanos movidos 100% a GNC e biometano, em parceria com a Comgás e a SPTrans, mostrou reduções de até 90% nas emissões de material particulado e até 20% nas de CO2 em comparação com modelos a diesel, segundo dados da própria montadora e da distribuidora. Em Santa Catarina, testes realizados com caminhões pesados movidos a GNC, promovidos pela GásBrasiliano, apontaram economia de até 30% no custo do combustível, além de menores emissões. Esses resultados reforçam que, mesmo com uma infraestrutura ainda em expansão, o gás natural pode entregar benefícios reais, ambientais e econômicos, já no curto prazo. Apesar de seus benefícios, o gás ainda é visto como uma solução “pouco convencional” em muitos círculos da política energética. Parte disso se deve à percepção de que, por ser um combustível fóssil, não deveria ser considerado numa matriz em descarbonização. No entanto, a visão pragmática e gradual da transição energética mostra que a substituição parcial do diesel e da gasolina por gás representa um avanço relevante, e imediato, em termos de emissões, com vantagens operacionais que outras tecnologias ainda não conseguem entregar com escala e custo competitivo. No Brasil, onde o transporte rodoviário é dominante, o gás pode ter papel crucial na diversificação e na limpeza da matriz. A ampliação da rede de distribuição, a oferta regular de veículos adaptados e a construção de uma política de longo prazo para o biometano são os próximos passos para consolidar essa alternativa. Ao lado do etanol e do biodiesel, o gás natural pode formar uma base robusta, escalável e de baixo carbono para o transporte nacional. Uma base que combina segurança energética, redução de custos e ganhos ambientais.
Fonte: Poder 360 – Adriano Pires
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