Os caminhões movidos a gás estão perdendo o caráter experimental que os caracterizavam nos idos de 2019, quando a Scania iniciou os primeiros testes. Com o avanço dos chamados corredores verdes (rotas com disponibilidade do combustível nos postos), esses veículos passaram a ter viabilidade comercial, com as frotas mais limpas ganhando volume no país. Quando as primeiras opções surgiram, a grande barreira para uma adoção em massa era similar ao que o segmento de automóveis elétricos enfrenta atualmente: o receio por parte dos motoristas devido à pouca oferta de pontos de abastecimento e o custo de aquisição. Mas as tecnologias ligadas ao gás avançaram. As fabricantes têm realizado melhorias no armazenamento do combustível de forma a aumentar o alcance dos caminhões por abastecimento. A própria Scania, em 2023, apresentou a linha X-Gás, cuja principal característica era uma autonomia maior possibilitada pela adição de mais cilindros de gás, além de arranjos logísticos que permitiram ir mais longe. Naquele momento, os veículos tiveram sua autonomia aumentada de 400 km para 900 km, o que passou a chamar a atenção dos frotistas que buscavam alternativas mais limpas às suas frotas.
O maior alcance também reduz o custo operacional do transporte, aproximando os gastos aos despendidos com o transporte feito com caminhões a diesel. Isso pavimentou o caminho para novos investimentos em frotas a gás e abriu espaço para a criação dos corredores verdes. Um exemplo de maturação desse tipo de veículo no mercado doméstico é o caso da Copersucar, que passou a escoar parte da sua produção de açúcar do interior de São Paulo ao Porto de Santos com caminhões alimentados pelo biometano que a própria empresa produz a partir dos restos da cana.
A operação, batizada de BioRota, transportou cerca de 600 mil toneladas do produto até o porto entre abril de 2024 e março de 2026. Pelos cálculos da companhia, deixaram de ser queimados nesse período 5 milhões de litros de diesel, os quais teriam gerado emissões de 8 mil toneladas de CO2 na atmosfera. “Nesta operação, todos ganham. Nós reduzimos as emissões e, com a produção própria do gás que é usado nos caminhões, reduzimos também o custo operacional do transportador”, diz Rodrigo Lima, diretor de logística e operações da companhia. “A produção do gás de alguma forma blinda o transportador das variações do diesel no mercado, algo importante se considerarmos que 20% do diesel consumido no país é importado”. O gás que é utilizado nos caminhões da Copersucar é produzido por uma de suas principais empresas cooperadas, a Cocal. A empresa tem duas usinas no interior de São Paulo: uma em Narandiba, com capacidade de produção de até 25 mil m3/dia de biometano, e outra em Paraguaçu Paulista, que pode produzir até 60 mil m3/dia do gás renovável durante a safra de cana. Nesse corredor verde até o Porto de Santos, quem transporta o açúcar são os caminhões de um operador parceiro, a ReiterLog. De acordo com Lima, a empresa pretende aumentar o número de caminhões movidos a gás em sua frota na esteira dessa redução de custo operacional. O transbordo da carga de açúcar e etanol da Copersucar é feito por meio de 500 caminhões. “Queremos que o nosso transporte rodoviário seja feito 100% por meio de caminhões movidos a biometano”, conta o executivo.
Esse potencial demonstra que os caminhões a gás aplicados em rotas específicas têm capacidade de proporcionar mais negócios às montadoras instaladas no país. A Scania já informou que pretende vender até o final do ano 500 unidades de caminhões a gás no país. De 2019 pra cá, já comercializou mais de 2 mil. A Iveco, por sua vez, vai investir R$ 510 milhões até 2028 no desenvolvimento local de veículos movidos a biometano. Na última edição da Fenatran, em 2024, a montadora apresentou uma versão do seu modelo pesado, o S-Way, que percorre até 700 quilômetros com o gás. Na Volkswagen Caminhões e Ônibus, a novidade é o Constellation Biometano integrado à frota da concessionária EcoUrbis na cidade de São Paulo. O modelo, que foi customizado para a coleta de resíduos sólidos, tem potencial para reduzir em 90% as emissões de CO2 quando comparado à opção a diesel, de acordo com a fabricante.
Fonte: Folha de SPaulo
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