O projeto Perspectivas 2021 desta segunda-feira (11) vai tratar de dois energéticos muitos importantes para o país: o gás natural e o gás liquefeito de petróleo (GLP ou gás de cozinha). Para isso, convidamos duas figuras muito conhecidas desses setores – o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigas), Sergio Bandeira de Mello (foto à esquerda), e o presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Augusto Salomon. Em relação ao GLP, a expectativa do setor é de crescimento da demanda em torno de 1,5% a 2% em 2021. O presidente do Sindigas defende ainda que o combustível seja usado para além da cozinha, abraçando também a geração de energia. “A crise do Amapá, em parte, nos mostrou o quanto o GLP é capaz de responder com eficiência a múltiplas possibilidades de uso, pois não faltou GLP em um único dia em meio ao apagão”, lembrou Bandeira de Mello. Enquanto isso, Salomon afirmou que o gás natural é visto como a energia de base para uma transição energética. Para ele, o uso de térmicas a gás na base são uma solução estruturada para o setor elétrico brasileiro. O presidente-executivo da Abegás também citou os grandes volumes do combustível no pré-sal e acredita que esse insumo só será aproveitado se houver demanda firme e infraestrutura suficiente para escoá-lo, processá-lo e transportá-lo até indústrias, comércios e residências. Vamos começar ouvindo as opiniões de Sergio Bandeira de Mello:
Como o senhor e sua associação e setor enfrentaram os desafios de 2020, com a pandemia apanhando a economia brasileira em pleno voo de subida?
O ano de 2020 foi muito desafiador, não somente para o setor de Distribuição de GLP, como para os demais e para a sociedade como um todo. Logo no início do isolamento social tivemos uma abrupta restrição de oferta de produto, que é fornecido, quase que na totalidade pela Petrobrás. Esta restrição de oferta foi ocasionada pela queda na demanda de querosene de aviação, diesel e gasolina, que forçou as refinarias a baixarem suas cargas como nunca visto antes. Simultaneamente, devido ao isolamento social, o consumidor optou por armazenar GLP em casa, aumentando circunstancialmente a demanda. Os estoques nos postos de revenda de GLP baixaram rapidamente, em alguns locais zeraram, criando uma “sensação de escassez”, o que ocasionou uma nova corrida ao produto, pelo receio de ficar sem.
GLPO desafio foi superado com muito esforço. As distribuidoras conseguiram receber o produto que a Petrobrás importou emergencialmente, em Santos/Capuava e, por via rodoviária, supriram a queda de oferta desde a Bahia até o Rio Grande do Sul. A operação de redistribuição por todo o país foi muito exitosa – nenhuma família ficou sem gás.
Em 2020, tivemos oscilações importantes nos preços do GLP, que foi impactado por altas e baixas causadas pelo mercado internacional. O GLP, no mercado internacional, chegou a um ponto abaixo de US$ 320/ton, mas hoje está perto de US$ 450/ton – uma variação de cerca de 40%. No início do ano, o preço do GLP nas refinarias brasileiras teve sucessivas quedas; posteriormente, com a recuperação da demanda no mercado internacional, voltou a subir. No entanto, em 12 meses, de dezembro de 2019 a novembro de 2020 (dado mais recente), pelo programa de monitoramento de preços da ANP, vemos que o preço para o consumidor final oscilou 5,82%, apesar do percentual de aumento bem superior do preço do produto na refinaria.
Quanto à demanda real, percebemos que de janeiro a novembro de 2020 o consumo total de GLP no Brasil subiu 2,93% – o GLP vendido em embalagens de até 13kg subiu 5,30%; e o GLP comercializado em outras embalagens caiu 3,12%. Fica evidente que o consumo de GLP em embalagens de até 13kg aumentou devido ao recolhimento das pessoas. Em contrapartida, o GLP vendido em outras apresentações, maiormente destinado ao comércio e à indústria, acompanhou a redução de atividade desses setores durante o isolamento social.
Quais são as suas perspectivas e de seu setor para 2021?
As perspectivas para o ano de 2021 ainda são incertas. De modo geral, as empresas estão confiantes na retomada econômica do país, principalmente com a iminência de uma vacina para combater a Covid-19. Porém já é possível notar a reativação da economia em alguns setores, o que impactará positivamente 2021.
Com o reaquecimento da economia, o consumo do GLP nas áreas de comércio e indústria das distribuidoras tende a subir. Já a demanda por GLP em embalagens de até 13kg, usadas para cocção, poderá ser impactada pela existência ou não de um programa que substitua o auxílio emergencial. No entanto, observando o consumo de energia no final de 2020, notamos um incremento. Dados da ANEEL [Agência Nacional de Energia Elétrica] apontam que o consumo de Energia Elétrica já alcança níveis pré-pandemia, o que significa um cenário mais favorável para o GLP empresarial. Para 2021, a perspectiva de crescimento da demanda no setor gira em torno de 1,5% a 2%.
Também está na pauta o debate sobre os efeitos do desinvestimento da Petrobrás no setor de refino e as soluções para garantir de uma continuidade segura no abastecimento nacional. Durante décadas foi praticado artificialismo de preço, o que levou ao desincentivo do investimento privado. Além disso, o monopólio da Petrobrás, associado às políticas de subsídios cruzados, nos impôs alguns desafios. Precisamos enfrentar, da melhor forma possível, esse período de transitoriedade entre a situação atual do refino e a que surgirá após desinvestimentos da Petrobras.
Se fosse consultado, quais as recomendações e sugestões que faria para o governo neste novo ano que está prestes a iniciar?
No que tange ao setor de GLP, o governo tem sido prudente. Alguns temas merecem mais foco, como o desinvestimento da Petrobrás e a necessidade de incentivos para o investimento privado em infraestrutura durante este período de transitoriedade que deve levar, em média, de três a cinco anos.
Também é preciso debater sobre o fim das restrições ao uso do GLP, que datam de 1991, e não mais se sustentam. Principalmente quando observamos os dados da EPE [Empresa de Pesquisa Energética], que projeta a possibilidade de sermos superavitários em GLP em 2029. Precisamos abrir caminho para que o consumidor tenha em sua cesta de escolhas a maior quantidade de energéticos para que possa optar pelo que melhor lhe convém, seja por serviço, facilidade de uso, custo, ou a combinação de todos os fatores.
A crise do Amapá, em parte, nos mostrou o quanto o GLP é capaz de responder com eficiência a múltiplas possibilidades de uso, pois não faltou GLP em um único dia em meio ao apagão. E poderia ser ainda melhor caso tivessem utilizado geradores de energia de pequeno e médio porte, ou mesmo na geração de energia por turbinas movidas a GLP. Por isso sempre reivindicamos que esse energético seja visto além da cozinha, afinal temos um produto excepcional.
Vejamos agora a opinião de Augusto Salomon, presidente executivo da Abegás:
Como o senhor e sua associação enfrentaram os desafios de 2020, com a pandemia apanhando a economia brasileira em pleno voo de subida?
Foi um ano desafiador. O primeiro reflexo foi de ordem operacional e, logo na sequência, teve o impacto econômico.
Na parte operacional, rapidamente, o setor de distribuição de gás natural se mobilizou no esforço para ajudar a combater a disseminação da Covid-19, ao mesmo tempo em que intensificou seus trabalhos, em um serviço considerado essencial, para garantir o abastecimento todos os segmentos. E o fez preservando a qualidade, a eficiência e a segurança – dos colaboradores e parceiros das companhias, da população e dos clientes. Nós, na própria associação, nos adaptamos para manter a continuidade de nossos serviços, obedecendo todos os protocolos, e com um nível de produtividade acima da média.
Na parte econômica, foi uma crise sem precedentes que afetou duramente a indústria de gás natural. Em abril, tivemos o menor consumo de gás natural em 15 anos, desconsiderando as termoelétricas, a demanda foi de apenas 27,6 milhões de metros cúbicos/dia, menor volume não térmico registrado desde 2005, quando a associação começou a divulgação desse levantamento.
Uma conquista importante das distribuidoras, ainda em abril, foi sensibilizar a Petrobrás a fazer um acordo para suspender as chamadas cláusulas de take-or-pay e encargo de capacidade, a partir do reconhecimento do evento de Caso Fortuito ou Força Maior. Essas cláusulas contratuais impõem penalidades na hipótese de não ocorrer, por parte da distribuidora, a retirada mínima de quantidade de gás natural diária programada conforme condições comerciais pactuadas de comum acordo. Isso deu um fôlego a mais para o setor.
Outro desafio em 2020, foi a discussão do novo marco regulatório do gás, aprimorado pelo Senado e que agora volta para a Câmara dos Deputados. Nesse processo de debate público, contribuímos mostrando a importância de um marco regulatório que preserve a segurança jurídica e atraia investimentos em infraestrutura, tão necessários para a geração de empregos e renda em todo o País.
Quais são as perspectivas do senhor e de sua empresa para 2021?
Continuaremos a defender incansavelmente, em todos os fóruns, e, diante de todos os agentes, a universalização do serviço de distribuição gás canalizado, a diversificação de ofertantes do energético e o investimento em infraestrutura essencial – garantindo o fornecimento de gás natural a todos os brasileiros
Queremos reforçar, ainda, a importância de o Brasil adotar o gás natural de uma maneira mais assertiva na matriz de transportes, criando condições para estimular seu uso em veículos de transporte de carga e de passageiros, ação que terá incontestáveis benefícios ambientais e sociais, ao melhorar a qualidade do ar nas cidades, além de movimentar toda uma cadeia e gerar empregos. Essa agenda de transição para o uso de combustíveis mais limpos já está em andamento nos Estados Unidos, na Europa e nos nossos vizinhos da América do Sul (como a Colômbia, por exemplo). O Brasil precisa dar esse passo. Com essa finalidade, esperamos realizar mais uma edição de um seminário internacional de mobilidade a gás natural – talvez em formato online, em função das circunstâncias da pandemia.
Se o senhor fosse consultado, quais as recomendações e sugestões que faria para o governo neste novo ano que está prestes a iniciar?
Acredito que os fatos recentes mostram a importância de um planejamento energético que aproveite todas as potencialidades do País. É indispensável uma visão de longo prazo e considerar que, mais cedo ou mais tarde, o Brasil vai retomar seu crescimento econômico e irá precisar de energia para amparar essa retomada. A melhor energia é a energia que não falta. É preciso que o sistema seja resiliente e que tenha redundância. O gás natural é a mais limpa das energias fósseis e, por isso, é visto como a energia de base para uma transição energética. As térmicas a gás na base são uma solução estruturada, que resolve vários problemas de uma só vez – inclusive a falta de água nos reservatórios das hidrelétricas. Não é segredo que temos vivido períodos mais secos e que o Brasil precisa mitigar as vulnerabilidades.
O País tem no gás do pré-sal, e em outros campos exploratórios, uma fonte de riqueza que não pode continuar a ser desperdiçada. Não é um caminho sustentável continuar devolvendo mais de 40% da produção de gás nacional para o fundo do poço. Esse gás só será aproveitado se houver demanda firme, de um lado, e infraestrutura suficiente para escoá-lo, processá-lo e transportá-lo até indústrias, comércios e residências. Então, é preciso criar políticas assertivas para incentivar os agentes a fazer os investimentos que mudem, de fato, o status atual. Gás importado não gera royalties.
Outra sugestão é criar dispositivos que evitem a judicialização do setor. O País não tem tempo a perder. Qualquer insegurança jurídica só servirá para adiar investimentos. E tudo o que precisamos é de recursos para que os projetos saiam do papel e entreguem valor para a sociedade.
Por fim, a pandemia estabeleceu uma crise econômica em todo o mundo. É preciso que o processo de desconcentração de mercado no setor de gás natural não crie barreiras intransponíveis para a atração de investimentos de qualidade.
Essas são as nossas sugestões.
Fonte: PetroNotícias
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