O mercado de gás natural liquefeito (GNL) no Brasil passa por um momento de expansão, impulsionado pelo aumento da demanda e pela diversificação de fornecedores.
Desde a aprovação do Novo Mercado de Gás (Lei do Gás, 2021), o setor está em processo de abertura, reduzindo a dependência da Petrobras, aumentando a oferta de gás importado e incentivando novos investimentos em infraestrutura e comercialização. Ainda assim, permanece concentrado em poucos grupos, entre eles, Eneva (BTG) e New Fortress Energy, além de investidores como Carlos Suarez (Termogás). Algumas empresas, como Cosan (Rubens Ometto Silveira Mello) e J&F (Irmãos Batista), expandem a atuação para vários elos da cadeia, fortalecendo um modelo mais verticalizado. A descarbonização pode ser uma aliada neste cenário. Setores industriais considerados difíceis de reduzir a emissão de gases por meio da eletrificação se beneficiariam ao adotar o GNL, mais “limpo” do que diesel, carvão e o GLP.
Demétrio Magalhães, CEO da Edge – empresa que tem a Compass e a Mitsui como sócias -, diz que a participação do GNL na matriz energética brasileira tem crescido gradualmente, atendendo distribuidoras e indústrias no chamado mercado livre de gás.
Nesse segmento, os clientes negociam a compra conforme seu perfil de consumo, gerenciam seus portfólios de acordo com as oscilações do mercado e realizam transações no mercado de curto prazo, sem multas ou penalidades. Gerdau e CSN, entre outras, têm apostado nisso. Magalhães diz que o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), operado pela Edge, recebeu oito navios de GNL em 2024 para atender diferentes demandas no Brasil e deslocar combustíveis mais poluentes. “Todo GNL que trouxemos foi para abastecer o mercado industrial (…). Desde o ano passado estamos entregando [gás] da Bolívia, do pré-sal, em breve teremos biometano e assinamos contratos na Argentina.” O Brasil possui sete terminais de regaseificação ao longo da costa. A maioria opera com capacidade ociosa, impactada pela volatilidade do mercado e demanda ainda limitada.
Um oitavo deve entrar em operação em 2026 no Porto de Suape (RJ), sob gestão da Oncorp, conhecida por operar termelétricas movidas a óleo diesel. O diretor-presidente da empresa, João Guilherme Mattos, conta que a decisão de diversificar os negócios veio em 2019, apostando no potencial estratégico do porto para transformá-lo em um hub de gás. A usina Termopernambuco, da Neoenergia, é a primeira cliente do terminal via contrato com a Shell no fornecimento do gás. A aposta da Oncorp é no leilão de segurança energética (reserva de capacidade) de termelétricas e na demanda do setor industrial para ampliar a atividade do terminal. “Para o leilão, temos vários projetos térmicos que vão disputar o certame atrelados ao terminal. Temos a demanda industrial das distribuidoras de gás, que a Shell está desenvolvendo. (…) São R$ 320 milhões de “capex” [despesas de capital] e R$ 2 bilhões em 15 anos de operação”, afirma o executivo. A empresa está negociando um acordo com a distribuidora TAG para levar o gás para outras regiões.
Ovídio Quintana, diretor comercial e regulatório da TAG, acredita que o aumento da demanda industrial está associado à sensibilidade de preço e, para isso, é necessário garantir ambiente competitivo. “O acesso a gasodutos é um impulsionador da competição, na medida em que viabiliza o encontro de agentes ofertantes e demandantes de gás natural. Para que este ambiente de ‘hub de trocas’ aconteça, é fundamental que as fontes de suprimento estejam todas conectadas à malha de transporte nacional”, diz. Segundo ele, a atuação da empresa no Nordeste levou, em 2022 e 2023, a redução de 20% no preço da molécula de gás natural, em comparação com o Sudeste: “Cerca de R$ 4 bilhões de economia em favor dos usuários”.
Hoje, o consumo de GNL no Brasil tem foco no atendimento às termelétricas. Dos 45 navios de GNL que atracaram no país em 2024, a maioria chegou a partir de setembro, período de maior despacho térmico. O desafio é expandir o uso do gás natural na indústria, cuja consumo está estagnado em 50 milhões de metros cúbicos por dia. Além do mercado livre, iniciativas como a integração de novos fornecedores, novos terminais de regaseificação na costa brasileira e o uso do modal rodoviário para levar GNL a regiões sem infraestrutura de gasodutos podem estimular o consumo industrial.
O movimento mais recente foi a entrada da gestora Perfin, que, no início de fevereiro, adquiriu 50% da VirtuGNL por R$ 450 milhões, via equity. No mesmo dia, a Virtu assinou um aditivo ao contrato com a Eneva, comprando toda a capacidade das plantas de liquefação de gás natural do complexo Parnaíba, no Maranhão. O plano é abastecer a frota pesada de caminhões com o gás para levar o diesel da Vibra para a mineradora Vale. A ideia é a criação de uma espécie de “corredor verde” – uma rede de postos para o abastecimento de GNL no transporte de cargas. A empresa já conta com contratos em operação, como o firmado com a Yara Brasil, para a distribuição de fertilizantes, por exemplo. Contudo, o diretor-executivo da companhia, José de Moura Jr., relata que os custos para iniciar esta operação ainda são elevados. “A barreira de entrada é um desafio. Primeiro, os caminhões [movidos a GNL] ainda são mais caros que os a diesel. Segundo, a construção de um posto de abastecimento exige tecnologia específica e leva um ano para ser concluída. Terceiro, há a questão do acesso à molécula de gás. Não basta ter um navio disponível; muitos estão ancorados em alto-mar sem viabilidade econômica para o transporte. É essencial que o navio esteja próximo ao porto”, disse Moura. Segundo ele, cada posto de GNL para caminhões, chamados de Central de Descarbonização Rodoviária (CDR), custa em média R$ 20 milhões. A previsão da Virtu é inaugurar os primeiros quatro CDRs até o começo de abril, e mais quatro até o fim do ano. O objetivo é chegar a 35 unidades até 2027.
Hoje, a Petrobras, a GNA e a Eneva têm acesso facilitado ao GNL por terem terminais conectados às suas térmicas. A Âmbar em breve também terá essa independência. A Fluxus, empresa do mesmo grupo, está ampliando sua presença nos mercados da Argentina e na Bolívia, na exploração do gás após aquisição de ativos da Pluspetrol. “A Âmbar tem posição privilegiada, por acessar diretamente as principais bacias de gás do continente: Brasil, Argentina e Bolívia”, disse o CEO da empresa, Marcelo Zanatta. A aquisição da MGás permitiu a entrada no mercado de comercialização de gás e garantiu atuação nas duas pontas do negócio – tanto na compra quanto na venda do produto.
Do lado dos investimentos estrangeiros, a Pan American Energy (PAE), que opera no Brasil na geração de energia renovável, vê a indústria brasileira com grande potencial para diversificar seus negócios. O plano da petroleira argentina é dobrar a produção de gás natural no megacampo de Vaca Muerta, na Argentina, para atender o Brasil. O diretor-geral da PAE no Brasil, Alejandro Catalano, ressalta que os investimentos visam criar maior integração regional na América do Sul para a transição energética: “Nós acreditamos que a energia tem que ser aproveitada regionalmente. Nesse sentido, o Brasil precisa de mais gás para crescer e atender essa crescente demanda de novas indústrias. Como recurso, temos a região de Vaca Muerta, que tem o suficiente para abastecer a Argentina e toda a região pelos próximos 20 anos.” A respeito dos desafios, Catalano aponta para a falta de infraestrutura que conecte a Argentina com o Brasil. No primeiro momento, o transporte será feito através de gasodutos existentes na Bolívia. Como alternativa, a PAE tem desenvolvido um navio para fazer o transporte do gás. A previsão é de que a embarcação fique pronta em 2027, mesmo ano em que a PAE pretende começar a comercialização de gás para o Brasil.
A oscilação dos preços internacionais de petróleo e gás gera preocupação em diversas frentes. A guerra na Ucrânia fez com que a Europa aumentasse a demanda por GNL, o que pode mudar com as negociações para o fim do conflito.
A instabilidade no Oriente Médio, principalmente envolvendo o Irã e o trânsito de navios no Mar Vermelho, segue uma incógnita. Além disso, mudanças na política energética dos EUA, com o retorno de Donald Trump, devem impactar as exportações americanas, o que pode iniciar uma potencial competição por espaço no mercado de GNL no longo prazo, como explica Rivaldo Moreira Neto, diretor de infraestrutura da A&M Infra. “Os principais produtores e exportadores de GNL no mundo, os EUA e o Catar, estão praticamente dobrando capacidade de venda e exportação desse combustível (…)
Olhando para 2030, eu tenho certeza de que a oferta crescerá. Com Trump, você tende a ter aceleração maior desse movimento”, diz. A produção estimulada deve aumentar o apetite dos EUA para exportar o excedente de seu mercado interno. Para o especialista, a sobreoferta pode significar acesso do Brasil a preços mais competitivos.
Fonte: Valor Econômico
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