A guerra no Irã criou um choque de segurança energética global sem precedentes desde 2022, mas o Brasil reúne condições para sair na frente — com reservas, demanda reprimida e capital disponível. A avaliação é de Demétrio Magalhães, CEO da Edge, empresa do grupo Cosan focada no mercado livre de gás natural, em entrevista ao estúdio eixos gravada diretamente da CERAWeek 2026, em Houston. Com o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã e os danos aos trens de liquefação do Catar — que retiraram do mercado 12,8 milhões de toneladas por ano de GNL por três a cinco anos —, os preços do GNL na Ásia saltaram 143% desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, atingindo cerca de US$ 25,30/(MMBtu, o nível mais alto em mais de três anos. Para Magalhães, o choque é real no curto prazo, mas os fundamentos do mercado continuam favoráveis a uma perspectiva de sobreoferta até 2030. “A gente vai sofrer nos próximos meses, um ano, um ano e meio. É muito difícil dizer quanto tempo essa guerra vai durar”, reconheceu. Mas, olhando para frente, o executivo aposta que o volume global de GNL transacionado deve crescer dos atuais 1,6 bilhão a 1,7 bilhão de metros cúbicos por dia para entre 2,3 bilhões e 2,5 bilhões de metros cúbicos até o final da década.
Parceiros certos para garantir segurança de suprimento
Diante da volatilidade dos índices TTF (europeu) e JKM (asiático) — o TTF chegou a saltar 29,5% em um único pregão após a paralisação do Catar—, Magalhães destacou a importância estratégica de escolher corretamente os fornecedores de GNL. Para ele, empresas com portfólios globais diversificados, como Shell, TotalEnergies e BP, oferecem mais segurança de abastecimento ao Brasil por diluírem o risco de uma fonte específica de suprimento. A Edge compra GNL da TotalEnergies para o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), no Porto de Santos — infraestrutura própria da Cosan com capacidade de 14 milhões de metros cúbicos por dia. O contrato de longo prazo com a empresa francesa, fechado antes da eclosão da guerra, já rendeu entregas e, segundo o executivo, exemplifica exatamente o valor de um parceiro global sólido. “Essa é a importância de você ter um parceiro certo, que honra o contrato e que tem um portfólio global”, afirmou Magalhães.
Argentina, Vaca Muerta e os limites do GNL regional
A Argentina e suas reservas de Vaca Muerta — estimadas em até 300 TCFs (trilhões de pés cúbicos) — emergem como candidatas naturais a preencher parte do vácuo deixado pelo Catar. Mas Magalhães alertou que a equação não é simples. Na sua avaliação, o gás argentino sempre buscará paridade com os preços internacionais de GNL, tornando as rotas on-grid — via gasoduto — economicamente mais atraentes para o Brasil do que o GNL exportado por navios. O próprio Magalhães reconheceu que a infraestrutura limitada e a falta de competitividade nos gasodutos seguem como os principais obstáculos à integração regional. A rota via Bolívia é citada como um caminho promissor. Em 2025, a Edge realizou sua primeira importação de gás argentino para o Brasil por meio da Bolívia, em parceria com a Tecpetrol.
Mercado livre chega a 15 milhões de m³/dia e uma segunda onda se aproxima
A Edge foi lançada em janeiro de 2024 com o compromisso de desenvolver o mercado livre de gás, sendo pioneira ao migrar do mercado cativo para o livre as seis primeiras indústrias do estado de São Paulo. Desde então, a expansão foi veloz. O mercado livre de gás no Brasil já alcançou 15 milhões de metros cúbicos por dia — volume que ele estimava atingir ao longo de 2026. O executivo projetou que esse mercado chegará a 25 e, posteriormente, 50 milhões de metros cúbicos por dia, à medida que consumidores residenciais e comerciais também migrem para o regime livre. Segundo ele, a crise global mudou a mentalidade dos clientes: quem antes buscava contratos de curto prazo apostando em queda contínua de preços começa a preferir contratos de médio e longo prazo, de dois a quatro anos. “Aquele view de que o mercado sempre vai cair, nenhuma commodity só acontece”, disse. O executivo também avaliou que a trajetória de queda dos preços no mercado livre já foi interrompida, mas que não vê movimentos de alta — apenas uma estabilização dentro de uma determinada banda.
GNL off-grid: 100 caminhões entregues e fase 2 em vista
O segmento off-grid — fornecimento de GNL a clientes não conectados à malha de gasodutos, via caminhões criogênicos — é apresentado por Magalhães como o novo “oceano azul” da Edge. O primeiro contrato foi firmado com a LD Celulose, joint venture entre a austríaca Lenzing e a brasileira Dexco, em sua unidade de Indianópolis, no Triângulo Mineiro — a cerca de 700 km do terminal de Santos —, prevendo o fornecimento de 100 mil metros cúbicos por dia pelo prazo de oito anos. Na CERAWeek, o executivo confirmou que já foram entregues 100 caminhões no cliente inaugural e que há discussões para ampliar o volume contratado. A Edge opera hoje com capacidade instalada de 400 mil metros cúbicos por dia nessa fase inicial e planeja atingir esse patamar ao longo de 2026, para então partir para uma fase 2 de expansão. Além da indústria, o GNL para transporte de cargas pesadas começa a se firmar como nova frente de negócios.
Fonte: Eixos / CERAweek
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