- Há um esforço global para tentar reduzir as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento do planeta. Nesse cenário de emergência climática, fabricantes, encarroçadoras de ônibus, operadoras de transporte público e prefeituras têm se unido para encontrar caminhos em busca de soluções menos poluentes e mais sustentáveis. O desafio é enorme, já que, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o Brasil tem uma frota de 107 mil ônibus urbanos, a grande maioria ainda movida a diesel. De acordo com o sumário do Plano Clima 2024-2035, divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática em fevereiro deste ano, o setor de transporte público coletivo deve atingir, até 2035, ao menos 35% da frota composta por “veículos movidos a energias renováveis”. Isso equivale a cerca de 37 mil ônibus. Sem abrir mão da eletrificação, que envolve altos investimentos para compra de ônibus elétricos (que custam de duas a três vezes mais que um a diesel), além da instalação de infraestrutura nos terminais e garagens, algumas cidades têm buscado outras opções para descarbonizar o transporte público.
- Uma delas é o uso do biometano, obtido por meio da purificação do biogás (originado a partir da decomposição de lixo orgânico, esgoto ou agropecuária). Não a exclusão, mas a convivência entre essas tecnologias parece ser o mais indicado na busca por uma mobilidade sustentável, com menos consumo de combustíveis fósseis. “Um erro estratégico seria apostar em uma única tecnologia como solução universal”, diz Edmundo Pinheiro, presidente da NTU. “O Brasil não precisa escolher entre a eletrificação ou os biocombustíveis. Precisa combinar soluções, de forma inteligente, conforme a realidade de cada sistema”. No final de março, em Goiânia, começaram a circular no BRT Leste-Oeste, principal corredor de transporte público da região metropolitana, os primeiros oito ônibus articulados movidos a biometano. O sistema atende mais de 3,6 milhões de passageiros por mês. Uma das particularidades destes veículos, fabricados com chassi Scania e carroceria Marcopolo, são os cilindros para carregar o gás, feitos em fibra de carbono, mais resistentes, instalados no teto. “O motor foi desenvolvido para rodar com biometano ou gás natural”, diz o gerente de vendas de soluções para mobilidade Maurício Lucena, da Scania. A autonomia é de 400 km, segundo a fabricante, suficiente para circular o dia inteiro. Os ônibus têm capacidade para 145 passageiros. Segundo Laércio Ávila, diretor executivo do Consórcio BRT, os oito ônibus iniciais fazem parte de um programa que prevê a inclusão de 501 veículos movidos a biometano até o final de 2027. “Nossa meta é reduzir em 95% as emissões de material poluente”. No início, o abastecimento será feito por carretas de biometano comprimido. Em dois anos, de acordo com Ávila, será construída uma usina para produção de biometano no município de Guapó (GO). Além dos movidos a biometano, a região metropolitana de Goiânia opera com 48 ônibus elétricos.
- “Essa experiência mostra que a descarbonização no Brasil precisa ser pragmática”, diz Edmundo Pinheiro, presidente da NTU. “O biometano é uma solução disponível hoje, com menor custo de transição e alta aderência à realidade operacional das cidades brasileiras”. “O gás permite reduzir emissões de forma relevante sem exigir uma ruptura completa de infraestrutura, além de aproveitar uma vocação natural do País: produção de energia a partir de resíduos urbanos e agroindustriais. Isso conecta mobilidade, saneamento e economia circular”, acrescenta Pinheiro. Quanto ao abastecimento, Tiago Santovito, diretor executivo da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), explica que o “biometano pode ser entregue tanto pelo modal rodoviário, no começo da operação, como por dutos usando o sistema de distribuição. Em geral, dutos enterrados com altíssima segurança”. “O tempo médio e formato de enchimento do tanque a biometano é similar ao uso do diesel, sem interrupções ao longo do dia”.
A cidade de São Paulo tem apostado na eletrificação. Segundo dados da Prefeitura, há 1.259 ônibus elétricos em circulação na cidade (a maior frota do País), sendo 1.070 a bateria e 189 trólebus. Isso representa cerca de 10% da frota operacional diária do município, composta por 12.123 ônibus, de acordo com dados da SPTrans. Ainda segundo a Prefeitura, “o Plano de Metas 2024-2028 estabelece a substituição de 2.200 ônibus por veículos movidos por matriz energética limpa até o final da gestão”. Em 2025, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) assinou decreto que institui o programa Bio SP, que estabelece regras para a aquisição de biometano e sua incorporação progressiva à frota de transporte público e de veículos de coleta da cidade. “Estamos vivendo a inflexão de um processo que sempre foi baseado em diesel”, opina Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil (Conselho Internacional de Transporte Limpo). “Atualmente, o setor de transporte como um todo avalia outras possibilidades de rotas tecnológicas para a descarbonização.” Para Martin, até os desafios que a cidade de São Paulo tem enfrentado em relação à implementação de infraestrutura de recarga elétrica nas garagens dos coletivos serve de aprendizado. “São Paulo foi pioneira na eletrificação. A experiência mostrou que a descarbonização do setor de transporte não tem uma solução única”. Outras cidades também têm tido interesse em adotar a tecnologia. No final de março, Londrina (PR) começou a testar um micro-ônibus que irá circular por 30 dias por várias linhas da cidade. Serão realizados testes para avaliar consumo, desempenho por quilômetro rodado, autonomia, entre outros itens. Em Suzano, na Grande São Paulo, o primeiro ônibus a biometano começou a rodar em 2025. Rio de Janeiro e Curitiba também avaliam usar o gás que vem do lixo.
Fonte: O Estado de S. Paulo
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