A Brazil Iron quer transformar uma jazida de minério de ferro no centro-sul da Bahia em uma plataforma de produção de ferro descarbonizado voltada ao mercado internacional, apostando no gás natural como rota de redução de emissões. O plano é utilizar gás natural na primeira fase do projeto, apostando em uma redução inicial de mais de 70% das emissões em comparação às rotas tradicionais da siderurgia baseadas em carvão. O restante pode ser capturado ou compensado. O projeto, com o início das operações previsto para 2030 ou 2031, estima investimentos de US$ 5,7 bilhões e mira a produção de HBI (Hot Briquetted Iron), insumo intermediário entre minério de ferro e o aço, considerado estratégico para a nova era da siderurgia. Segundo Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da companhia, que tem sede em Londres, a mineração representa apenas uma pequena parcela do empreendimento. “Hoje, é um projeto de produção de HBI”, afirma o executivo. De acordo com ele, entre 10% e 20% do Capex está ligado à atividade mineral propriamente dita. “O resto é siderurgia, é logística”, explica. A empresa afirma já ter certificado 1,7 bilhão de toneladas de minério de ferro de alta pureza na Bahia, com potencial de ampliação das reservas, nos municípios dee Piatã, Abaíra e Jussiape. O diferencial do ativo, segundo Souza, está na qualidade do minério e na baixa presença de contaminantes e na maleabilidade, características consideradas essenciais para a produção de HBI. “Descobrimos que estávamos em cima de um material que não era só simplesmente uma oportunidade de exploração mineral, mas era uma oportunidade de transformação da cadeia siderúrgica global”, conta.
Gás natural agora, hidrogênio depois
“O plano para a primeira fase é gás natural, pensando em algo que a gente já tem à mão”, afirma Souza. A companhia também monitora a possibilidade de uso de biometano na região, o que poderia ampliar ainda mais a descarbonização do produto final. Já o hidrogênio verde aparece como uma aposta futura, condicionada à evolução tecnológica e econômica do mercado. “Temos o plano do hidrogênio verde, ele está contemplado, mas ainda é uma incógnita”, afirma. Segundo o executivo, a empresa trabalha com um horizonte de quatro a cinco anos até o início das operações e considera que o cenário tecnológico pode mudar significativamente nesse intervalo. “Se nada mudar, a primeira fase será com gás natural, o que já vai nos garantir uma redução de mais de 70% de emissões”, diz. Para neutralizar as emissões remanescentes, a companhia avalia alternativas como captura e armazenamento de carbono (CCS), além da aquisição de créditos de carbono. Ainda assim, o hidrogênio verde permanece no radar da empresa. “Se o hidrogênio decolar do ponto de vista econômico, seremos player nesse mercado com certeza absoluta. Vamos ter uma planta na mesma área para a produção de hidrogênio verde”.
Mercado externo impulsiona projeto
O foco comercial da companhia está nos mercados internacionais, especialmente Europa e Ásia, onde cresce a pressão regulatória por descarbonização da indústria siderúrgica. Segundo Souza, o HBI verde produzido na Bahia poderá alcançar preços significativamente superiores ao minério de ferro tradicional. “Hoje, ele já tem um valor de mercado de algo em torno de 350 dólares a tonelada”, afirma. A empresa aposta na combinação entre o avanço de políticas climáticas internacionais e o déficit esperado de oferta global de insumos siderúrgicos descarbonizados para sustentar a demanda futura. “O CBAM começou agora em 1º de janeiro”, disse o executivo, em referência ao mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira adotado pela União Europeia, que taxa produtos importados com emissão acima do estipulado pelo bloco econômico. Segundo Souza, estudos da consultoria McKinsey & Company apontam que poderá haver déficit de 109 milhões de toneladas anuais de ferro verde a partir de 2030. A companhia afirma já possuir pré-contratos equivalentes a 100% da produção inicial prevista — 5 milhões de toneladas anuais de HBI — por dez anos. “Tudo que eu produzir até 2040 já está vendido”, conta Souza. Segundo ele, os acordos envolvem um comprador europeu e outro asiático.
Infraestrutura logística é condição crítica
O projeto aposta na implantação da infraestrutura ferroviária e portuária no sul da Bahia. A estratégia prioritária da empresa envolve a utilização do trecho da FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) conectado ao Porto Sul, em Ilhéus. Ambos os projetos logísticos, no entanto, ainda seguem apenas no papel, e sob concessão da Bahia Mineração (Bamin), que também possui ua reserva de minério de ferro vizinha à Brazil Iron. O minério da Brazil Iron seria beneficiado inicialmente em pellet feed no interior do estado e transportado por um ramal ferroviário até o litoral, onde ocorreriam as etapas finais de transformação em pelotas e HBI. “Plano A é o futuro Porto Sul”, conta Souza. Segundo ele, a empresa já possui autorização para construir um ramal ferroviário ligando sua planta à malha da FIOL em Brumado. “Se em um ano nós visualizarmos que a solução FIOL e Porto Sul é exequível e está num bom grau de plausibilidade, vamos seguir nesse plano”, diz. Caso as obras não avancem, a companhia avalia utilizar a FCA e estruturas portuárias alternativas, como o Porto de Aratu. O executivo destacou que o corredor logístico interessa não apenas ao setor mineral, mas também ao agronegócio do oeste baiano. “Você tem Oeste da Bahia inteiro só de produção de soja e algodão”, afirma. Souza também cita o potencial da região para minerais críticos como lítio, níquel, nióbio e terras raras, que poderiam utilizar a mesma infraestrutura logística
Minerais críticos e políticas públicas no radar
A Brazil Iron acompanha as discussões em Brasília sobre a futura política nacional de minerais críticos e estratégicos, que ainda deverá definir oficialmente quais matérias-primas poderão estar contempladas. Segundo Souza, o minério de ferro de alta pureza possui características que podem enquadrá-lo nesse grupo. “No Canadá, o minério de ferro de alta pureza é entendido como um mineral crítico estratégico”, exemplifica. O executivo defende uma diferenciação entre o minério de ferro convencional e o minério de alta pureza voltado à produção de HBI. “Há um entendimento geral que se deve sim olhar o minério de ferro de alta pureza como um mineral crítico estratégico”, diz. Mais do que incentivos tributários, a empresa vê como prioritárias medidas de aceleração regulatória e facilitação de financiamento. “Ter uma celeridade nos processos burocráticos é algo importante”, defende. A companhia também acompanha discussões sobre abertura e redução de custos do mercado de gás natural no Brasil. “Seria muito bom que houvesse uma transformação nesse mercado de gás a ponto de haver uma possibilidade da diminuição do custo de produção”, conta Souza. No caso do hidrogênio verde, a empresa monitora os debates sobre mecanismos de incentivo tanto para produtores quanto para consumidores, que deverão ser indicados na publicação do decreto regulamentador do marco legal do hidrogênio de baixo carbono, prometido há meses pelo governo.
Fonte: Eixos
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