A Equinor já concluiu a instalação de mais de 200 quilômetros do trecho em águas ultraprofundas do gasoduto de escoamento de gás natural do projeto Raia, que reúne diferentes campos no pré-sal da Bacia de Campos e tem Repsol Sinopec e Petrobras como sócias. Em Macaé (RJ), a companhia norueguesa está na reta final para conectar a infraestrutura submarina ao terminal de processamento e distribuição de Cabiúnas. E no Nordeste, a estatal brasileira, que já aprovou o projeto para construir duas plataformas para explorar gás no litoral de Sergipe-Alagoas, iniciou as licitações para os primeiros equipamentos submarinos. Com isso, o setor de gás natural no Brasil terá um aumento de 50% da oferta firme na próxima década. Dados compilados pela ANP, pela EPE e pelo MME apontam que o volume passará de 58 milhões de metros cúbicos por dia para 87 milhões de metros cúbicos por dia entre 2026 e 2035.
Especialistas e empresas, no entanto, veem desafios, pois faltam iniciativas para estimular a demanda, já que as indústrias ainda preferem usar uma opção mais barata, como o coque, produzido a partir do carvão mineral. “Temos dois grandes projetos que ancoram a expectativa de aumento de oferta com Raia em 2028 e Sergipe-Alagoas a partir de 2031. Se somados, serão 35 milhões de metros cúbicos por dia. É bastante gás e é um Brasil-Bolívia (em referência ao gasoduto) por muitos anos”, avalia Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da consultoria A&M Infra. “E como a demanda não cresce há duas décadas, esses dois projetos já criam uma condição de excedente, o que vai gerar desafios no setor. As empresas vão precisar buscar novos mercados e ir além da venda para as distribuidoras”. Do lado da oferta, o projeto Raia entrará em operação em 2028 com capacidade para produzir até 16 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Com investimentos de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 45 bilhões), fornecerá 15% da demanda total pelo insumo no Brasil. Pela primeira vez no país, o gás será tratado em alto-mar e entregue diretamente ao sistema de transporte, sem a necessidade de uma planta de processamento em terra. A Equinor deu início a uma força-tarefa para vender esse gás, criando um portfólio de contratos. Já selou acordo de dez anos com a Comgás, começando com 50 mil metros cúbicos por dia e aumentando gradualmente até um pico de 1 milhão de metros cúbicos por dia. “O desenvolvimento do mercado de gás natural no Brasil tem avançado de forma relevante nos últimos anos, especialmente com a abertura gradual do mercado, maior competição entre agentes e a migração de consumidores para o ambiente livre. A Nova Lei do Gás e as medidas voltadas à ampliação da concorrência são marcos importantes’, disse Claudia Brun, vice-presidente de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da Equinor no Brasil. A Petrobras prevê destinar US$ 11 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões) para produzir gás em Sergipe-Alagoas a partir de 2031 em diversos campos com a IBV Brasil Petróleo e a ONGC Campos. As duas plataformas terão capacidade para processar 22 milhões de metros cúbicos por dia e escoar o produto por um gasoduto de 134 km de extensão a partir de 32 poços. Além disso, a estatal faz a revitalização de Albacora, na Bacia de Campos, que prevê um FPSO com capacidade de produção de até 4,3 milhões de metros cúbicos por dia, com início previsto também para 2031. Há ainda a Rota 3, gasoduto que conecta os campos do pré-sal ao Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj), em Itaboraí, com capacidade para escoar até 18 milhões de metros cúbicos por dia.
O aumento na produção de gás ajudará a Petrobras a acelerar seus projetos de fertilizantes — o Brasil atualmente importa cerca de 85% de seu consumo. O gás natural será usado como matéria-prima para produzir amônia, base para a fabricação de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura. Para isso, a estatal retomou as obras da unidade de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 5 bilhões, prevista para entrar em operação em 2029. Em nota, a Petrobras explicou que nos últimos anos vem buscando ampliar o volume de clientes industriais que operam no mercado livre e atuam em setores como siderúrgico, metalúrgico, papel e celulose, cerâmico, entre outros. “Criamos condições comerciais com diferentes prazos contratuais, diferentes indexadores, preços competitivos, aliados a prêmios para consumos incrementais”, informou. “O excedente de oferta de gás no Brasil só vai ser resolvido com a busca por mais demanda. Temos o setor de fertilizantes e o uso do gás para produzir metanol, que pode ser utilizado na indústria química e como matéria-prima para o biodiesel. A demanda no Brasil está estacionada há mais de 15 anos. E isso não acontece porque o preço é alto. É preciso pensar em novas soluções’, afirma Edmar Almeida, do Instituto de Economia da PUC-RJ. A concentração no setor foi reduzida na última década, com o estímulo das mudanças no ambiente regulatório por meio dos programas Gás para Crescer (2016), Novo Mercado de Gás (2019) e Gás para Empregar (2023), que levaram a um número maior de empresas vendendo e produzindo gás. A Shell, que responde por 12% da produção offshore de gás natural no país, investe no projeto Orca, no pré-sal da Bacia de Santos, em parceria com Ecopetrol e Kufpec. “Em cinco anos, saímos de um modelo concentrado para um ambiente com mais agentes, mais contratos e competição real começando a acontecer “, diz Rodrigo Soares, presidente da Shell Energy Brasil.
A PetroReconcavo também trabalha em diversas frentes para ampliar sua capacidade de oferta de gás. No Rio Grande do Norte, comprou ativos, reforçou a capacidade de processamento e escoamento e implantou a primeira unidade de liquefação e compressão de gás, com capacidade de até 100 mil metros cúbicos por dia. O objetivo é criar alternativas de comercialização para mercados fora da malha tradicional de gasodutos, diz João Vitor Moreira, vice-presidente de Operações da empresa: “O desafio não é apenas ampliar a oferta, mas criar condições para que mais consumidores tenham acesso ao gás natural de forma competitiva. Vemos oportunidades principalmente em segmentos industriais intensivos em energia”. Segundo a EPE, o desafio é transformar o aumento da oferta potencial em demanda efetiva, com preço competitivo e infraestrutura capaz de levar a molécula até os consumidores. A Prio, que em março deste ano colocou em operação o campo de Wahoo, no pré-sal da Bacia de Campos, viu sua produção de gás chegar a 1 milhão de metros cúbicos por dia na região, quando se consideram também os campos de Frade e Albacora Leste. “A produção de gás também está relacionada ao nosso avanço na venda direta do insumo. Iniciamos essa frente com a comercialização do gás com a entrada de Wahoo, pois passamos a contar com uma oferta em escala maior, ampliando nossa atuação nesse mercado”, explica Gustavo Hooper, diretor de Trading & Shipping da Prio, acrescentando que Wahoo teve investimentos de US$ 850 milhões.
Apesar da maior concorrência nos últimos anos, como o avanço do mercado livre, o governo colocou em consulta pública um programa de gas release, que prevê maior restrição à compra de gás pela Petrobras, a fim de reduzir a concentração do setor. Na mesa há possibilidade de a estatal não renovar os contratos atuais de compra da molécula ou fazer leilões desses contratos para outras empresas. Com isso, a expectativa do governo é que o preço atual passe de cerca de US$ 12 por milhão de BTUs (a unidade internacional do gás) para US$ 5. Especialistas, porém, não esperam uma queda de preços nessa proporção. “Você pode até ter um efeito no preço, mas não será no curto prazo. Tivemos diversos programas nos últimos anos, e o preço não caiu”, diz Edmar Almeida, do Instituto de Economia da PUC-RJ. Para Décio Oddone, ex-diretor-geral da ANP, a redução estrutural dos preços passa pela ampliação da disponibilidade da molécula no mercado: “Enquanto não houver o enfrentamento do controle da molécula, não vai acontecer. Fico feliz de ver essas medidas que estão vindo aí”, disse Oddone. “A maior dificuldade que tive como regulador, e qualquer regulador tem, é tentar regular um agente dominante mais poderoso que você”. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem criticado o gas release. Recentemente, ela afirmou que “mudar o gás de mãos não vai reduzir o preço”: “A Petrobras tem reiteradamente investido para aumentar a produção de gás do país, e são esses investimentos os únicos capazes de reduzir o preço do gás”. Em outra frente, especialistas lembram que o primeiro leilão de gás da União ajudará a estimular a demanda pelo insumo. Em agosto, o CNPE publicou uma resolução que estabelece mecanismos para a comercialização do gás natural da União. O primeiro leilão deve ocorrer entre outubro e novembro deste ano, com início da comercialização em março de 2027, segundo o diretor de Finanças e Comercialização da PPSA, Samir Passos Awad. A estimativa para o certame é de pouco mais de 1 milhão de metros cúbicos por dia. Em um segundo leilão, no ano que vem, o volume poderá chegar a cerca de 2 milhões de metros cúbicos diários. Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da consultoria A&M Infra, ressalta que, para criar demanda, o leilão terá de oferecer preços mais baixos: “Esse gás não pode ser para a demanda que já existe. O desafio é buscar justamente novos consumidores. Ou é isso ou é nada”.
Fonte: O Globo
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