Grandes consumidores de gás dos setores de mineração e siderurgia em Minas Gerais têm demandas diferentes para ampliar o uso do combustível, que vão de preços mais competitivos a maior flexibilidade contratual e acesso ao mercado livre. A avaliação levou a Gasmig a preparar novos produtos e uma plataforma digital para facilitar a negociação de volumes contratados que não serão consumidos. Segundo o presidente da Gasmig, Gustavo De Marchi, conversas realizadas pela distribuidora com Vale, Gerdau e Usiminas como exemplo, mostraram que não há uma solução única para ampliar o consumo industrial. “Cada um tem uma dor e a dor é diferente, e muitas vezes a dor não é o preço”, afirmou o executivo. Segundo ele, questões de flexibilidade por sazonalidade de produção, com mais ou menos consumo de gás, podem resultar em ociosidade ou na penalidade por ultrapassagem, por exemplo. Para a Usiminas, apontada pelo executivo como o maior cliente da Gasmig, o preço tem peso maior. Já no caso da Gerdau, a distribuidora avalia formas de facilitar o acesso ao mercado livre e a gestão do portfólio de compra de gás. De Marchi também relatou que ouviu de um executivo de mineração que a aquisição de gás está entre os processos mais complexos de suprimento da companhia. “Ele falou que não tem nada mais complexo, em todo o processo de aquisição dele, do que comprar gás. Os contratos são muito rígidos. O pacote de penalidade faz muita diferença”, afirmou.
Mercado secundário
nesse contexto que a Gasmig prepara a criação de um hub digital para o mercado secundário de gás. A companhia abriu chamada pública para desenvolver uma plataforma capaz de conectar consumidores com volumes contratados que não serão utilizados a outros clientes interessados em comprar gás adicional. Hoje, segundo Marchi, esse encontro já ocorre, mas de forma manual. “Pega o telefone e liga. […] A gente faz o match. Imagina a gente ter uma plataforma 100% automatizada, digital, com inteligência artificial, fazendo esse match de maneira automatizada”, disse. A apresentação da Gasmig define o projeto como o primeiro “hub de comercialização de gás” da companhia, com oportunidades de compra e venda realizadas de forma online e digital. A distribuidora, no entanto, não pretende atuar como comercializadora da molécula. “Tem que ser uma plataforma da Gasmig. Não é mercado livre, a gente não pode comercializar gás, a gente vende a distribuição. Então nós não ganhamos nada, a gente só quer melhorar para os clientes”, explicou Marchi. A companhia distribui atualmente cerca de 2,7 milhões de m³ de gás por dia, dos quais aproximadamente 70% já estão no mercado livre, segundo dados apresentados no evento. De Marchi deu como exemplo uma siderúrgica que faça uma parada de manutenção e tenha gás contratado que não será utilizado. Esse volume poderia ser comprado por outro consumidor que esteja com demanda acima do contratado, reduzindo o custo para os dois lados. A possibilidade também foi defendida por representantes da indústria durante o encontro. Em uma parada programada ou inesperada, uma siderúrgica pode ficar com gás contratado sem utilização ao mesmo tempo em que outro consumidor industrial precisa aumentar sua compra. A Gasmig informou ainda ter recebido uma oferta de gás no mercado secundário com a molécula a R$ 1,36 por m³, apresentada como uma oportunidade temporária de contratação. Além do hub, a distribuidora estuda mudanças nos contratos para aumentar a flexibilidade. A proposta em desenho prevê diferenciar as condições conforme a duração dos contratos, com maior flexibilidade para compromissos de prazo mais longo. O desenho ainda precisa passar pela governança da companhia.
Gás tem espaço para recuperar mercado na mineração)
A Gasmig também vê espaço para recuperar o consumo de gás pela mineração. Dados apresentados pela companhia mostram que o setor consumia cerca de 130 milhões de m³ por ano em Minas Gerais em 2018, volume que caiu fortemente nos dois anos seguintes e voltou para a faixa de aproximadamente 60 milhões de m³ em 2025. Já na siderurgia, o consumo passou de cerca de 400 milhões de m³ em 2016 para mais de 600 milhões de m³ em 2025, após atingir um pico próximo de 700 milhões de m³ em 2022, segundo o gráfico apresentado pela companhia. Na matriz energética da mineração, o gás natural representa atualmente cerca de 16%, enquanto o diesel responde por aproximadamente 19%, parcela que a Gasmig vê como uma das oportunidades de substituição no processo de descarbonização. A companhia identifica quatro principais aplicações para ampliar o uso de gás natural e biometano na mineração: processamento térmico, redução direta de minério de ferro para produção de aço de menor carbono, mobilidade pesada e atendimento off-grid a minas distantes da rede canalizada. “Eu acho que o gás pode ser vetor importante no processo de descarbonização da mineração, seja pela rota tecnológica, seja na frota utilizada nas minas. E o gás entra muito bem e, num segundo momento, o biometano”, afirmou De Marchi.
Fonte: MegaWhat
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