Um olhar inicial sobre o resultado do primeiro leilão de gás natural da União, promovido pela Pré-Sal Petróleo (PPSA) nesta quinta (22), faz notar que o certame foi um sucesso. Todo o volume de 1,1 milhão de m³/dia, dividido em 110 lotes, foi vendido para 23 das 36 empresas habilitadas para a negociação, que se deu em modelo on-line, em plataforma fornecida pela CCEE. O certame incluiu empresas como Vale, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Samarco, Gerdau, Braskem, Yara Brasil e Ternium. A primeira rodada começou com o setor vidreiro: três empresas levaram os dez lotes, ou 100 mil m³/dia. Foi o que apresentou o maior ágio, por sinal. O resultado se repetiu nas demais etapas: oito indústrias do segmento ceramista fizeram ofertas para 20 lotes, que somam 200 mil m³/dia. Do bloco que reuniu os segmentos siderúrgico, metalúrgico e de mineração, cinco empresas arremataram 32 lotes, ou 320 mil m³/dia. Cinco empresas do setor químico e petroquímico levaram 35 lotes, ou 350 mil m³/dia. Por fim, o setor de fertilizantes nitrogenados viu duas empresas sagrarem-se vencedoras, ao levarem 13 lotes (130 mil m³/dia).
Isso indica, à primeira vista, que a proposta de ofertar gás mais barato pela União ao segmento deu certo, pois os preços do leilão foram atrelados ao Henry Hub, um ponto de negociação de gás natural nos Estados Unidos que é usado como referência em boa parte dos mercados internacionais, somados a um ágio a ser pago (o valor mínimo era de US$ 1,80 por milhão de BTUs). Os contratos terão vigência entre março e dezembro de 2027 e as médias do Henry Hub e do câmbio serão apuradas no mês anterior ao fornecimento. Em tese, segundo especialistas, os preços do gás no leilão seriam mais baixos do que os praticados no mercado brasileiro, a depender dos ágios e o certame funcionaria como um teste. O governo fez o chamado com o leilão da PPSA. A estatal é gestora dos contratos de partilha de produção nos campos do pré-sal e, por isso, retira parte do petróleo e do gás natural produzidos nessas áreas. Quanto ao petróleo, a PPSA já realiza leilões, vendendo cargas para petroleiras e refinadoras interessadas. Já no caso do gás, o desenho do edital foi feito para atender grandes consumidores do insumo, tanto que o certame não previu a entrada de usinas térmicas (que também demandam muito gás) e distribuidoras estaduais. Ao preço alto do gás natural é atribuída, por representantes de diversos segmentos industriais, a desindustrialização que vem ocorrendo de forma mais intensa nos últimos anos. Parte das indústrias vê no gás natural, inclusive, um elemento de descarbonização dos processos produtivos, por ser menos agressivo ao meio ambiente do que outros fósseis, como o diesel. Para atender ao segmento, o Ministério de Minas e Energia (MME) e a ANP iniciaram um pacote de medidas para reduzir os preços do gás, como parte de um esforço maior pela reindustrialização do país. O plano do MME e da ANP é baseado na desconcentração do mercado, com a venda obrigatória de gás pela Petrobras (gas release), na liberação de acesso de terceiros às infraestruturas de escoamento e processamento, que pertencem à estatal, e na venda do gás da União. Ao acenar com gás mais barato, as indústrias compareceram ao leilão e o resultado criou uma referência para todo o mercado do insumo. Os preços praticados no certame serão utilizados como referência nas análises futuras. Demanda por gás existe, a julgar pelo resultado deste leilão.
Fonte: Valor Online
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