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Despesa da indústria com compra de GLP aumenta até 40% em seis meses

Embora em proporção menor que a alta verificada nas residências, a escalada de preços do gás liquefeito de petróleo (GLP)também atinge a indústria nacional desde meados de 2017. Fábricas das mais diferentes regiões reportam custos até 40% maiores com a aquisição de gás e buscam alternativas. Empresas começam a se movimentar à procura de combustíveis mais econômicos. Ao mesmo tempo, distribuidoras de GLP são chamadas a renegociar contratos e veem as margens caírem.

No mercado de GLP, existem dois grandes segmentos: o P-13 (botijão de 13 quilos, vendido sobretudo para residências); e o gás a granel (um tanque fixo, instalado, em indústrias e comércio, é recarregado periodicamente por caminhões). Em junho do ano passado, a Petrobras anunciou uma nova política de preços para o P-13, alinhada com a cotação internacional e com previsão de reajustes mensais nas refinarias. Embora não tenha divulgado uma política para o granel, a estatal passou a revisar mensalmente os preços para a indústria e os reajustes se tornaram mais frequentes.

Desde julho, foram sete reajustes, que elevaram em 36% os preços do GLP a granel na refinaria (em 2015 e 2016 foram duas revisões por ano). Já o P-13 subiu 57% no segundo semestre. A expectativa no mercado é que o GLP comece a ceder a partir de março, mas não há previsão de retorno dos preços aos patamares anteriores.

“O preço do milho e do açúcar sobe e depois desce, isso é normal na safra, mas o GLP só tem subido. A inflação do gás foi o maior impacto no custo em 2017.

É muito relevante, porque brigamos por centavos. Nosso produto é voltado para a classe média e baixa”, diz Jackson Ceolin, sócio da Bampinho, fabricante de biscoitos, em Lontras (SC).

As indústrias já começam a fazer as contas. A Bampinho, por exemplo, viu o custo do GLP aumentar 37% no segundo semestre de 2017 e avalia a viabilidade técnica para substituição do combustível por ‘pallets’ (biomassa). Embora nem sempre seja simples, devido à menor capilaridade dos gasodutos e à necessidade de investimentos na troca de equipamentos, a substituição do GLP pelo gás natural também tende a ganhar força. Segundo o sócio-fundador da Gas Energy, Marco Tavares, o gás natural ficou ainda mais atrativo em relação ao GLP.

“Distribuidoras de gás natural comprimido [empresas que fornecem o gás natural em cilindros, como o GLP] estão olhando com interesse para as indústrias hoje abastecidas com GLP. Haverá uma pressão natural nos preços por substituição”, afirma Tavares, que aposta num avanço do gás natural sobre o gás liquefeito de petróleo nas indústrias, sobretudo a partir de 2020, quando a oferta nacional de gás natural do pré-sal aumentará.

A Metalbrazing, que presta serviço de beneficiamento de peças do setor automotivo por soldagem, estuda aderir ao gás natural. O GLP, que representava entre 30% e 35% dos custos do serviço prestado pela companhia, passou a responder por 45% depois da elevação dos preços. “Estamos vendo se vale a pena migrar, ou optar por uma renegociação com a Ultragaz,

com quem temos contrato até 2020. O aumento do custo acaba indo para o cliente. É ruim para a competitividade, incentiva a importação de peças”, avalia o sócio da empresa, Luis Constâncio.

O Valor apurou que a busca por renegociação de contratos tem crescido e que a tendência é de perda na margem do setor, concentrado num grupo de cinco grandes companhias: Ultragaz, Liquigás, Supergasbras, Nacional Gás e Copagaz.

“Foi assustador. O GLP subiu quase 40% e não conseguimos repassar, porque nosso mercado não está comprador. Nosso contrato com a Supergasbras vence este ano e vamos tentar um contrato melhor. Não vai resolver todos nossos problemas, mas pode trazer alguma economia”, conta Álvaro Selvati, proprietário da Polimar, fabricante de caixas d’água de Valença, no interior do Rio, e que usa o gás no forno onde o polietileno é fundido, para moldar o produto final.

Selvati explica que a ideia é promover uma espécie de licitação para atrair diferentes distribuidoras de GLP e, assim, conseguir preços melhores. O gás responde por 10% do custo de produção da fábrica, que fica longe da rede de gasodutos.

Recentemente, a Revel, fabricante de produtos de limpeza, que possui quatro unidades no país, obteve redução de 10% nos preços do GLP, após renegociar com a Copagaz que, em troca, passou a fornecer para todas as fábricas da empresa (antes, três eram abastecidas pela distribuidora).

Para o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de GLP (Sindigás), Sérgio Bandeira de Mello, a alta dos preços da Petrobras exigirá das distribuidoras a busca de alternativas de suprimento. Só que a prática de preços diferenciados para o P-13 e gás a granel, segundo ele, inibe as importações por terceiros.

De acordo com dados do Sindigás, de dezembro, o GLP a granel estava sendo vendido pela Petrobras, nas refinarias, 44% mais caro que o P-13. Enquanto o gás para a indústria estava 35% acima da paridade de preços internacional, o botijão P-13 era negociado pela estatal 3% abaixo da paridade.

“A Petrobras adota uma espécie de subsídio cruzado, a indústria subsidia os preços diferenciados para o P-13. Para atrair investidores para a importação, seria necessário um preço único para o GLP”, diz Bandeira de Mello.

A Petrobras argumenta que seus preços para o P-13 seguem a determinação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que “reconhece como de interesse para a política energética nacional a comercialização, por produtor ou importador, de GLP, destinado exclusivamente a uso doméstico em recipientes transportáveis de capacidade de até 13 kg, a preços diferenciados e inferiores aos praticados para os demais usos”.

Fonte: Valor Econômico

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