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Parceria sai em busca do ‘pré-sal caipira’

Scania e Comgás apostam no biometano substituindo o diesel

Nos últimos anos, a indústria tem desenvolvido caminhões que utilizam energias renováveis e os transportadores começam a comprar veículos menos poluentes, pressionados, sobretudo, por clientes como multinacionais. Mas a rede de abastecimento que prevalece no Brasil ainda é a de combustíveis fósseis. A Scania, fabricante de caminhões pesados, e a Comgás, maior distribuidora de gás natural do país, firmaram uma parceria para começar a mapear possíveis redes de distribuição de produtos como o biometano, produzido a partir de resíduos, do setor agrícola e de aterros sanitários.

Equipes de trabalho de ambas as empresas começam a se reunir para traçar planos. A ideia é identificar possíveis pontos de fornecimento. Usinas do setor sucroalcooleiro de cidades do interior de São Paulo, como Indaiatuba e Piracicaba, podem ser pontos de partida para definir rotas de abastecimento, segundo o presidente da Comgás, Antonio Simões.

Parte das empresas de transporte de carga, que hoje utilizam o biometano, aproveita a disponibilidade dessa fonte de energia produzida em aterro no Rio de Janeiro para ali abastecer os veículos que fazem o transporte de mercadorias no eixo Rio-São Paulo. Mas é muito pouco levando em conta o tamanho do país.

“Estamos há mais de um século baseados no óleo diesel”, afirma o presidente da Scania na América Latina, Christopher Podgorski. Segundo ele, a ideia da parceria é buscar caminhos para gradativamente entrar na era das energias renováveis. “Saímos de um combustível gerado a partir da decomposição de dinossauros para a fase em que dejetos de aterros e da agricultura podem se transformar em ouro em pó”, destaca Podgorski.

O caminho da expansão da rede de distribuição do biometano para uso veicular ainda é longo. “Depende essencialmente de logística”, destaca Simões. Daí a necessidade de ampliar a rede. Segundo o executivo, esse biogás pode tanto ser fornecido comprimido como eventualmente ser colocado em dutos. Mas existe a possibilidade de a produção desse biogás ser estimulada para uso em energia elétrica, destaca Podgorski.

O biometano é um biocombustível que resulta do processamento do biogás, obtido a partir de resíduos orgânicos da agricultura, como fibras que sobram do esmagamento da cana de açúcar, ou dejetos de aterros sanitários. Na região Centro-Oeste, segundo Podgorski, existem pesquisas para geração dessa energia a partir da suinocultura. Para Podgorski, são resíduos que hoje são jogados fora ou usados como fertilizantes. “É o nosso pré-sal caipira”, diz o executivo.

Embora não seja renovável, o gás natural veicular (GNV) é considerado por especialistas como um “combustível de transição” até energias mais renováveis. Daí a ideia de produzir veículos que possam ser abastecidos com GNV ou o biogás. O veículo a GNV emite até 15% menos dióxido de carbono, enquanto que no biometano a redução chega a 90%. A Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) estima que a produção de biometano no Brasil tem potencial para substituir até 70% do uso de óleo diesel.

Como esse novo tipo de caminhão custa em torno de 30% mais do que um com motor a diesel, a indústria trabalha para convencer o transportador sobre ganhos de custos no longo prazo. Além disso, para ter a garantia de transporte de seus produtos em veículos mais sustentáveis, as empresas costumam oferecer aos transportadores vantagens como contratos por período mais longo ou até prioridade no embarque e desembarque, o que reduz tempo e, consequentemente, custos.

A Scania acaba de fechar a venda de 39 caminhões que podem usar tanto gás natural como biometano ou mistura de ambos. É o maior lote comercializado desde que a montadora começou a vender esse tipo de veículo, no fim de 2019.

A compra do lote foi feita pela Transmaroni, transportadora de São Paulo. Com a aquisição, a empresa terá 50 veículos movidos a gás. Especializada no transporte de produtos alimentícios, varejo, higiene e comércio eletrônico, a Transmaroni atende empresas como Carrefour, JBS e Unilever.

Segundo o diretor operacional, Gustavo Maroni, por enquanto, os clientes que preferem caminhões a gás são grandes companhias, com capital aberto e com política “mais madura” de ESG (governança ambiental, social e corporativa, na sigla em inglês). Mas, para ele, isso tende a tornar-se uma tendência. Cabe ao transportador, destaca, oferecer soluções alternativas ao diesel. “O transporte não pode mais ser feito sem colocar a sustentabilidade nas prioridades”, diz.

Mas, para isso, é preciso ter onde abastecer o caminhão. Os veículos a gás da Transmaroni circulam por São Paulo, Rio, Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina. “São rotas que oferecem gás”, diz. “Quanto mais infraestrutura melhor.”

 

Fonte: Valor Econômico

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