O mundo está passando por um apagão do gás natural. E por que isso está acontecendo? Quais são as verdadeiras causas? E como isso afeta o Brasil? O gás natural vem sendo considerado há algum tempo como a energia da transição energética. Isso porque, apesar de ser um combustível fóssil, o gás é o mais limpo dos fósseis. Nos últimos anos a oferta de gás natural aumentou muito no mundo por causa de duas novidades tecnológicas. A primeira foi tornar a liquefação de gás viável do ponto de vista econômico. A outra foi a descoberta do chamado shale gas nos Estados Unidos. Todo esse crescimento da oferta de gás levou a uma redução nos preços e trouxe competitividade ao gás perante outras fontes de energia.
São duas as explicações para o apagão do gás no mundo. A primeira é a pandemia em 2020, quando o Produto Interno Bruto (PIB) mundial despencou, e com ele o consumo de energia e os preços. A produção de gás natural foi reduzida, em particular a do shale, e projetos de terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL) foram cancelados e adiados. A segunda explicação é que, com a retomada da economia, o mundo começou a perceber que não se muda para um sistema de energia mais limpo com investimento em energias renováveis intermitentes demonizando os combustíveis fósseis. Transição energética se faz com políticas de redução de demanda, e não com cortes de oferta.
No Brasil, o gás natural nunca foi protagonista na matriz energética. O mercado do gás começa a ser criado com a construção do gasoduto Brasil-Bolívia. De lá para cá, descobrimos volumes significativos no pré-sal e na Bacia do Parnaíba e Amazonas. Porém, perdemos uma oportunidade de criar mercado para este gás na Nova Lei do Gás, não criando estímulos adequados para a construção da infraestrutura. Com isso, mantemonos reféns do gás importado. Não só o da Bolívia, como agora do gás liquefeito (GNL) que vem de diferentes lugares do mundo.
Deste modo, este apagão do gás e a consequente explosão nos preços têm uma outra explicação no Brasil. Fizemos uma legislação que não criou um operador independente nem uma câmara de compensação e não definiu código de rede para operação integrada dos sistemas de transporte e de distribuição. Em suma, não estruturamos um verdadeiro ambiente de mercado competitivo e aberto. Consequência: estamos jogando fora gás nacional e importando GNL a preço de mercado spot. Se tivéssemos políticas e legislações adequadas à realidade do mercado brasileiro, sofreríamos menos com o apagão de gás que hoje assola o mundo.
Fonte: O Estado de S.Paulo / artigo Adriano Pires
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