De olho num acordo que pode aumentar a oferta de gás natural no Brasil, há poucos dias, o presidente da Iveco na América do Sul, Marcio Querichelli, teve um encontro com o embaixador da Argentina, Daniel Scioli. Os governos do Brasil e da Argentina negociam acordo para um projeto que prevê a construção de uma rede de gasodutos que ligaria a região de Vaca Muerta, na Patagônia argentina, onde fica a segunda maior reserva de gás de xisto do mundo, ao Rio Grande do Sul. O avanço desse plano acabaria com as preocupações dos fabricantes de caminhões para incrementar, no Brasil, a oferta de veículos movidos a gás, uma tendência mundial que ajuda na descarbonização da frota de veículos pesados.
A Iveco anuncia nesta quinta-feira (08) o início de produção de caminhões pesados a gás na fábrica em Sete Lagoas (MG). Trata-se de um salto importante na mudança de matriz energética no transporte de carga. Os primeiros 20 veículos a gás passarão por um período de testes que envolvem recursos da própria Iveco e de um parceiro na área de transporte. Trata-se de um grupo econômico que atua na locação de caminhões e cujo nome a empresa ainda prefere manter em sigilo.
Segundo Querichelli, existem outros interessados nos caminhões a gás que serão produzidos no Brasil. E o principal apelo é o ambiental. Essas empresas demonstram interesse no uso de veículos que, além do gás natural, funcionam com o gás biometano, produzido a partir de resíduos da agricultura e também do lixo.
“No caso do biometano, o nível de emissões é mais baixo do que o de um veículo elétrico”, afirma o executivo. Para ele, diferentemente de um carro de passeio, num caminhão o cliente calcula o custo total da operação, o que pode levá-lo a se interessar pelos modelos a gás, que ainda são mais caros, mas mais econômicos. A Iveco tem parcerias com centros de pesquisa de universidades de Minas Gerais e de São Paulo, além de “startups”, para aprimorar o uso do biometano em veículos de carga.
Segundo Querichelli, no caso das usinas de açúcar, por exemplo, as empresas conseguem abastecer sua frota com o biometano produzido a partir do bagaço da cana. Além de facilitar a utilização desse tipo de veículo, o custo de abastecimento cai consideravelmente. Mas o desafio é ter, no Brasil, uma boa rede de abastecimento de gás nas estradas espalhadas pelo país.
A iniciativa da Iveco se soma à da sueca Scania, que desde 2020 comercializa, no Brasil, caminhões movidos a gás que podem ser abastecidos com biometano. A empresa com sede na Itália já é uma das maiores fabricantes de veículos a gás na Europa.
O projeto brasileiro da Iveco absorveu investimento de R$ 60 milhões como parte de um programa total de R$ 1 bilhão na América Latina até 2025. As tarefas de adaptação, para o mercado latino-americano, do veículo já usado na Europa envolveram 70 mil horas de trabalho durante dois anos de testes e homologação. Querichelli estima para o segundo trimestre de 2023 a produção de caminhões a gás da marca em maior escala.
A eletrificação dos veículos de carga já é uma realidade na Europa e a indústria brasileira já começa a desenvolver modelos, principalmente para uso em entregas urbanas. Como depende de carregamento de baterias em tomadas ou equipamentos específicos para essa finalidade, o caminhão elétrico que roda nas cidades pode ser abastecido na garagem do transportador durante toda a noite para circular durante o dia ou vice-versa.
Mas no caso dos veículos pesados que trafegam em longas distâncias num país de extensões tão grandes como o Brasil, a busca de energia alternativas ao diesel passa pelo gás, segundo Querichelli. “A transição energética vai passar pelo gás durante muitos e muitos anos”, diz. Segundo ele, apesar de o país não ter infraestrutura completa de abastecimento, o caminhão movido a GNV conta com boa autonomia, de 500 quilômetros.
Caminhões a gás já são produzidos pela Iveco na fábrica de Cordoba, na Argentina desde 2019, afirma o executivo. A unidade argentina está agora, envolvida, no avanço de produção de ônibus movidos a gás.
No Brasil, um dos desafios da indústria, no entanto, é elevar o nível de nacionalização. Itens de grande porte e caros, como os tanques, ainda dependem de importação. “Estamos trabalhando em projetos de desenvolvimento de fornecimento local porque isso também nos ajuda a ficar menos expostos à volatilidade do câmbio”, destaca Querichelli. Segundo ele, a ideia é também exportar parte dos veículos que serão produzidos em Sete Lagoas.
A participação dos veículos a gás no Brasil ainda é pequena. Somou 0,3% das vendas de caminhões no acumulado do ano, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea). Mas está em crescimento. Há um ano a fatia desse tipo de veículo estava em 0,1%.
Fonte: Valor Econômico
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