A abertura do capital da Compass marca não só a volta do IPO (oferta pública inicial) na B3 depois de um hiato de quase cinco anos. A operação, que pode movimentar até R$ 3,2 bilhões, é também um marco para o setor de gás natural – cuja abertura se deu justamente no período de jejum de IPOs na B3. Pela primeira vez uma empresa com DNA 100% gás estreia na bolsa neste século. O setor abriga outras companhias de capital aberto, é verdade, mas com teses de investimentos mais diversificadas (como a Eneva, por exemplo). O IPO testa, assim, a abertura de uma nova fonte de recursos para uma indústria que vive um momento de atração de capital privado em outras frentes – em especial no negócio off-grid: a Perfin Infra e a Ultrapar compraram 75% da VirtuGNL, numa transação que ultrapassou os R$ 200 milhões; e a Copa Energia adquiriu 36% da Lorinvest na GNLink, numa operação da ordem de R$ 100 milhões. Fora a entrada da Energisa na distribuição de gás (ESGás e Norgás); o aumento da participação do BTG de André Esteves na Eneva; e a movimentação intensa do grupo J&F em aquisições no setor de gás e energia (MGás, Fluxus, Logás etc), para citar outros movimentos de capital importantes nos últimos anos.
O que o IPO da Compass diz sobre o mercado de gás?
O IPO da Compass não representa a entrada imediata de novo capital na companhia, já que a oferta de ações foi secundária – ou seja, o dinheiro levantado vai para o caixa da Cosan, o acionista controlador. Representa, por outro lado, a chegada de novos acionistas para a companhia e, ao fim, testa o apetite de investidores pela tese da empresa de gás, sustentada num mix entre: os negócios regulados da distribuição; e novas avenidas de crescimento no mercado não regulado, como a comercialização de gás no mercado livre e a distribuição de gás natural liquefeito (GNL) em pequena escala (o off grid). Embora as ações da Compass tenham sido negociadas no preço mínimo (R$ 28), a demanda pelo IPO da companhia superou o lote inicial de ações – o que, na visão do sócio-diretor da A&M Infra, Rivaldo Moreira Neto, é um bom sinal. “Isso mostra que o fundamento não era meramente financeiro. O mercado comprou a tese da Compass, mesmo com tudo que circunda o seu controlador [a Cosan]”, analisa. Ele destaca que a forte presença na distribuição de gás – um negócio com previsibilidade de receitas – faz da Compass um ativo interessante. Mas que é o potencial de expansão do grupo no negócio off grid e no deslocamento de diesel na frota de veículos pesados que fortalece a tese de investimentos na Compass. É o nicho de mercado, aliás, que atraiu o capital privado para a GNLink e VirtuGNL. Moreira Neto não vê o IPO da Compass, portanto, como um caso isolado. O executivo acredita que o mercado de gás tem outras empresas com potencial para atrair o capital na bolsa, futuramente. “Pode ser até que demore para vermos outro IPO no setor, mas a tese que levou ao IPO da Compass é a mesma tese de investimentos que levou o private equity a entrar no negócio de gás off grid da Virtu e GNLink”, analisa. “A tese no mercado de gás mudou de patamar. A gente observa movimentos fortes de alocação de capital no setor que apontam para cenário de crescimento importante no mercado”, complementa.
Janela aberta para novos IPOs?
No mercado financeiro, a percepção é de que ainda é cedo para cravar a reabertura da janela de IPOs no Brasil após o caso Compass. A abertura do capital da companhia se deu num contexto muito específico, associado à necessidade de geração de caixa da Cosan, o acionista controlador da empresa, para fins de desalavancagem. Isso se traduziu na escolha por uma oferta 100% secundária. O cenário de juros altos ainda é um obstáculo aos IPOs. A taxa Selic vem de dois cortes seguidos, mas ainda se mantém num patamar elevado, de 14,50% ao ano – e o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém o tom de cautela, devido às incertezas globais e inflação, no contexto da guerra no Oriente Médio. Para o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, há espaço para novos IPOs no mercado brasileiro, mas o apetite do investidor ainda é baixo – a movimentação na B3 tem sido puxada por investidores estrangeiros, mas o investidor Pessoa Física ainda está muito alocado em renda fixa e os fundos de pensão têm operado com renda variável nas mínimas históricas. “Ainda vemos poucos compradores no mercado de ações”, comentou. Cruz, no entanto, vê sentido numa nova oferta de ações da Compass, mais para frente, e que a Cosan dilua mais a sua participação na empresa – que pode cair de 88% para até 75% ao fim do IPO neste primeiro movimento. A Compass, segundo ele, mostra-se uma tese de investimentos interessante, com perspectivas de crescimento, receitas elevadas e alavancagem controlada. Pesa contra a companhia, por outro lado, o risco de conflito entre a administração da empresa e seu acionista controlador – no caso, o trade-off entre novos investimentos em expansão e o pagamento de dividendos.
Os planos da Compass
A Compass aposta, basicamente, três avenidas de crescimento, todas elas concentradas na Edge, seu braço de comercialização de gás: Biometano; Distribuição de gás off grid ; e comercialização de gás para as térmicas do LRCAP. No primeiro trimestre, a empresa deu importantes passos operacionais, com o início da produção da Onebio, a primeira planta de biometano gerida pela Edge; e começo das operações do negócio off-grid. “[O início das operações] nos dá oportunidade de discutir a fase 2 do projeto, que tem o viés de querer deslocar frotas de longa distância a diesel. Estamos mais aptos para discussões com acionistas [para a fase 2]”, comentou o Vice-Presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Compass, Marcos Fernandes, na quinta-feira (14/5), durante teleconferência com analistas e investidores sobre os resultados financeiros do 1º trimestre. A Edge estruturou o projeto com uma capacidade para 400 mil m³/dia na 1ª fase, mas já planeja, a longo prazo, uma 2ª etapa— um novo modelo de negócios, com capacidade para 3 milhões a 4 milhões de m³/dia. O negócio off-grid e a comercialização de gás para as térmicas do LRCAP são duas frentes estratégias para que a empresa consiga ampliar a monetização do gás do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), a principal, mas não única, fonte de suprimento de gás do portfólio da companhia. A Edge pleiteia a conexão do TRSP à malha de gasodutos da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), o que lhe permitirá acessar novos mercados. E a Compass aguarda também o desfecho, no Supremo Tribunal Federal (STF), da disputa federativa entre União e o Estado de São Paulo em torno da classificação do gasoduto Subida da Serra, da Comgás, que tem no TRSP, justamente, uma de suas fontes de suprimento. Em tempo… Na semana em que estreou na bolsa, a Compass anunciou uma queda de 9% no lucro (para R$ 382 milhões) e de 25% na receita operacional líquida (R$ 3,16 bilhões) no primeiro trimestre; e uma alta de 2% no Ebitda (R$ 1,3 bilhão) na comparação anual. A primeira semana na B3 foi marcada pela desvalorização das ações da companhia, que acumulou uma queda de 5,4% na bolsa – em parte, reflexo do mau humor generalizado do mercado financeiro. O Ibovespa registrou uma retração de 3,7%, a maior queda semanal desde início de março.
Fonte: Eixos
Related Posts
Compass/Antonio Simões: IPO é novo capítulo que reforça valores como compromisso com resultado
Segundo Antonio Simões, presidente da Compass, a abertura de capital (IPO, na sigla em inglês), concluída na última segunda (11), abre um novo capítulo para a companhia, reforçando os valores da empresa...
Compass tem lucro líquido de R$ 382,2 milhões no 1° tri, queda de 9%
A Compass fechou o primeiro trimestre com lucro líquido de R$ 382,2 milhões, queda de 9% em relação ao registrado há um ano. Segundo a companhia, a piora se deveu às altas no resultado financeiro e na...

