Ao menos três comercializadoras colocaram o pé no mercado livre de gás natural, no Brasil, no primeiro semestre. Saturno Gás, Deal Comercializadora de Gás Natural, além da Petrochina, assinaram seus primeiros contratos com clientes industriais em 2026. Levantamento da agência eixos, com base em dados da ANP, mostra que a entrada dessas companhias se deu via mercado spot – todos os acordos firmados por elas foram para comercialização de gás de curto prazo. Além disso, trata-se de um movimento ainda prospectivo, com negociações ainda pontuais – a exceção é a Saturno, que tem dado mostras de uma evolução mais clara na captação das oportunidades. E a lista de traders ativas no mercado livre tende a aumentar daqui para frente. Uma lista de agentes está nos preparativos — algumas delas oriundas do setor elétrico.
Os estreantes de 2026
Dentre as novas comercializadoras do mercado livre em 2026, a Saturno é a mais ativa. A companhia já assinou contratos no mercado spot com ao menos cinco indústrias diferentes, de setores como o ceramista e de vidros; a Saturno foi criada em 2025 por Brian Pease, o CEO, ex-BTG Pactual, Petrochina e Rosneft; e Leonardo Bento, ex-Shell. Os movimentos da Deal e a Petrochina, por sua vez, foram mais pontuais – e guardam semelhanças entre si. As duas estão presentes no mercado spot já há um tempo (a chinesa desde 2024 e a Deal desde 2025), mas só fizeram a primeira venda para um cliente industrial este ano: ambas para a CSN. A Petrochina é uma das principais sócias da Petrobras nos campos do pré-sal e uma das maiores produtoras de gás do país, mas concentra suas vendas para outros comercializadores. Já a Deal (ex-Seal Energy) é uma comercializadora com histórico de 16 anos no setor elétrico. É comandada por Rodrigo Cosac Nacacio e tem Amauri Yamada como sócio.
Novas estreias a caminho
Enquanto isso, outras traders começam a se estruturar, de olho nas oportunidades do mercado brasileiro. Uma nova leva de empresas recebeu este ano autorização da ANP – vem se registrando também nas autoridades estaduais – para exercício da atividade de comercialização. A lista inclui companhias como: Pacífico Gás Comercializadora: criada para ser o braço de trading da Newgas, uma das principais gestoras de contratos no mercado livre. É a mais nova aposta de Oderval Duarte (ex-sócio do BTG Pactual) e Clayton Morales (também ex-BTG) no mercado de gás, após entrarem no capital da Newgas. Liven Comercializadora de Gás: ligada à trader de energia de mesmo nome; Convex Gás: fundada por Luiz Henrique Macedo (ex-diretor da Raízen e ex-sócio da FlexGas) e que tem como sócio Lucas Nishioka (ex-Edge, Compass e Raízen). Além delas, a Tesla Comercializadora de Gás (também com histórico no setor elétrico) prepara o terreno. A empresa obteve esta semana autorização da ANP para importar gás da Argentina. Outra empresa que vem se posicionando é a FlexGas, de Fernando Tomaz (ex-Windkraft Energy e BayWa r.e., ambas do setor elétrico da Alemanha). A FlexGas assinou este ano seus primeiros contratos master (acordo guarda-chuva que define as condições gerais) no mercado. A companhia ainda tenta viabilizar seu primeiro contrato de comercialização no mercado livre. Por ora, atua como gestora de um consumidor industrial de São Paulo. Tomaz conta que a FlexGas mira em pequenos volumes no spot, de forma complementar à atuação como gestora, e também mira oportunidades de importação da Argentina.
A migração do setor elétrico num momento difícil
O perfil dos novos comercializadores mostra como o mercado de gás tem despertado a atenção do setor elétrico. Esse movimento não é uma novidade. As traders de energia buscaram se cadastrar para atuar no gás desde as primeiras autorizações concedidas pela ANP para exercício da atividade, em 2012 — quando a abertura do mercado de gás ainda era uma realidade distante. CEO da consultoria EnClim, Roberto Ferreira da Cunha, comenta que o perfil dos vendedores de gás no Brasil mudou nos últimos anos: a primeira onda de abertura do mercado foi capitaneada pelos produtores de gás, com molécula própria; mas na sequência surgiram as ‘comercializadoras independentes’. “O perfil inicial do mercado spot era a liquidação de diferenças, para acerto de posições. Ao pouco, vamos vendo a entrada de traders especuladores, os comercializadores mais puros, com apostas probabilísticas e que podem topar absorver cenários mais adversos num momento para obter ganhos posteriores, além da entrada de players mais financeiros. É um processo de evolução do mercado”. Ele acrescenta que as sinergias potenciais (como o aproveitamento da carteira de clientes) não é suficiente para justificar, automaticamente, a entrada de um trader de energia no mercado de gás. Ele defende que esse processo precisa ser tratado com cautela. “Há uma sinergia, o comercializador pode fazer estratégias combinadas de gestão de energia para clientes, por exemplo. Mas o mercado de gás é algo novo para essas empresas, com posições muitas vezes de difícil compreensão e que demanda profissionais especializados. O setor elétrico é sempre balanceado, no gás a gestão do transporte é super desafiadora”. E como a crise das comercializadoras no mercado livre de energia pode afetar o mercado de gás? O diretor Comercial da Infinity Energias, Lucas Tocchetto, relata que a situação tende a aumentar o conservadorismo dos consumidores industriais na hora da escolha do supridor. “O fator de risco do mercado de energia tem feito o consumidor avaliar melhor o rating dos supridores. Há um viés maior de comprar de quem produz, tem portfólio maduro”. Ele cita que também há um impacto no acesso à crédito pelas companhias do setor – o que pode trazer dificuldades para originação de molécula pelas traders.
A herança do LRCAP
A expectativa é que o aumento de players na geração de energia a gás pós-LRCAP 2026 também movimente, no futuro, o mercado spot de gás. Isso porque a grande contratação de térmicas a gás no leilão de reserva de capacidade de março tende a elevar a demanda por gás flexível. Eventuais excedentes de gás das termelétricas estarão disponíveis para compra, pressionando preços para baixo; bem como a conexão das usinas à malha de gasodutos também permite que as térmicas “puxem” mais gás do mercado spot, pressionando preços para cima. “[As térmicas] Podem gerar um excedente, mas podem gerar uma falta [de gás no mercado spot]”, analisou o vice-presidente do Mercado de Gás da Rystad Energy na América Latina, Vinícius Roman. Alguns geradores, aliás, já começaram a se movimentar: A Delta Geração de Energia e a Mercurio Partners, vencedores de projetos no leilão, são exemplos de empresas que já criaram seus braços de comercialização de gás, focadas em montar o portfólio de suprimento as suas termelétricas – mas que também cogitam vender gás no mercado livre de gás. “A gente não está atuando forte nisso, a gente está focando no mercado termelétrico, mas eu diria que a partir de 2027 isso é uma rota bem possível para a Júpiter”, afirmou o sócio-fundador da Mercurio, Alexandre Americano. A Mercurio, aliás, vê sinergias entre a operação da Júpiter no mercado de gás e da Tyr Energia, comercializadora do grupo que atua no mercado livre de energia – sobretudo no aproveitamento da base de clientes de menor porte no B2B.
Fonte: Eixos
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