A substituição de ônibus movidos a óleo diesel por veículos a biometano pode demandar cerca de R$ 69 bilhões em investimentos na mobilidade urbana, estima a Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren). O montante corresponde à compra de novos ônibus abastecidos com o biocombustível e à implantação de usinas para atender à demanda. Porém, avaliam especialistas, os desafios estão centrados na implantação de uma infraestrutura de distribuição e abastecimento. O cálculo da Abren surge no momento que a volatilidade nos preços do petróleo e dos combustíveis no mercado externo leva o segmento de mobilidade pesada a buscar alternativas para descarbonização das operações. O biometano é o biogás com alto grau de pureza. Quimicamente, é o mesmo metano existente no gás natural fóssil, mas obtido por processamento de resíduos, como o gás de aterros sanitários, lodo de esgoto e rejeitos agropecuários, como sebo animal, vinhaça da cana de açúcar e cascas resultantes da produção de suco de laranja. As estimativas da Abren consideram o fato de que o Brasil possui cerca de 50 cidades com mais de 500 mil habitantes, entre as quais as maiores capitais, que concentram grande parte da frota de transporte coletivo e da geração de resíduos sólidos urbanos.
Os investimentos são calculados com base em dois cenários, explicou o presidente da Abren, Yuri Schmitke. Partindo do princípio de que um ônibus urbano a diesel custe entre R$ 900 mil e R$ 1,2 milhão, modelos a biometano ficariam entre R$ 1,35 milhão e R$ 1,8 milhão por unidade, disse Schmitke. Em um cenário conservador de substituição de 20 mil ônibus nas maiores cidades do país, os investimentos seriam entre R$ 27 bilhões e R$ 36 bilhões. No mais otimista, de troca de 30 mil ônibus, os aportes subiriam para uma faixa entre R$ 40,5 bilhões e R$ 54 bilhões. Para isso, além das cerca de 1.800 usinas existentes de biogás e biometano, estima-se um investimento adicional entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões em novas plantas para atender à expansão da demanda. Com isso, segundo Schmitke, os investimentos para substituir 20 mil ônibus a diesel ficaria entre R$ 37 bilhões e R$ 51 bilhões. Para trocar 30 mil unidades a diesel, o desembolso seria entre R$ 50,5 bilhões e R$ 69 bilhões. Viabilizar o aumento da oferta de biometano, afirmou o presidente da Abren, demandaria um amplo programa de financiamento das novas usinas, afirmou Schmitke. “Esse crédito poderia ser lastreado em contratos de compra de biometano de longo prazo, de 30 anos, com baixo custo.” Um caminho seria a criação de um programa nacional de troca de ônibus e integração de políticas públicas, promovida pelos ministérios das Cidades, de Minas e Energia (MME) e do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), junto com as prefeituras das maiores cidades do país. A aquisição dos novos ônibus e a construção das novas usinas, avalia, poderia contar com recursos em linha com a taxonomia sustentável brasileira. Isso inclui linhas de crédito verde, juros subsidiados, recursos do Fundo Clima e do BNDES, entre outras fontes.
Para a Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a indústria brasileira possui capacidade produtiva e tecnológica para atender a demanda de veículos a biometano. Contudo, a substituição de uma frota entre 20 mil e 30 mil ônibus não acontecerá de forma imediata, demandando vários anos, em função de fatores como ciclos de renovação de frotas, processos de licitação, disponibilidade de financiamento e implantação gradual da infraestrutura de abastecimento. “O principal gargalo para uma expansão acelerada da frota não está na capacidade industrial, mas na disponibilidade da infraestrutura necessária ao abastecimento. O desenvolvimento de plantas de produção de biometano, redes de distribuição e pontos de abastecimento será determinante para viabilizar a substituição de milhares de veículos em operação”, disse o diretor de assuntos regulatórios da Anfavea, Gilberto Martins. A consultora em energias renováveis Renata Isfer, ex-secretária de petróleo e gás do MME, disse que o uso de biometano para descarbonizar frotas pesadas e transporte público permite às prefeituras resolver gargalos históricos de saneamento e promover a economia circular com viabilidade econômica, sem onerar o contribuinte. “Os municípios têm a oportunidade estratégica de converter o passivo ambiental dos resíduos sólidos em um ativo energético de alto valor”, afirmou Isfer. Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), salienta que a viabilidade do atendimento à frota de biometano seria possível com a regionalização da gestão de resíduos sólidos, uma vez que cerca dos 90% dos municípios do país têm até 50 mil habitantes. Ele lembra que na maioria dos municípios brasileiros ainda tem como grande desafio o encerramento de lixões. Outro desafio, segundo Ziulkoski, está no alto custo da troca da frota, pois um ônibus a biometano pode chegar a R$ 1,8 milhão e a operação exige investimentos elevados em infraestrutura de abastecimento nas garagens das empresas operadoras. “Diante da atual crise de financiamento do transporte público, esses custos adicionais não podem ser repassados à tarifa paga pelos usuários, tampouco suportados exclusivamente pelos cofres municipais”, disse Ziulkoski.
Fonte: Valor Online
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