A Transportadora Gas del Norte (TGN), do grupo Techint, anunciou que pretende abrir ainda este mês um processo de oferta de capacidade do Gasoduto Manuel Belgrano – um novo projeto de infraestrutura que visa aumentar a capacidade de movimentação do gás natural de Vaca Muerta e que pode abrir espaço para ampliar as exportações ao Brasil a partir de 2029. A construção do gasoduto e de obras complementares, segundo a TGN, demandarão investimentos de US$ 2,2 bilhões, para suprir o déficit de oferta nas regiões central, norte e litorânea da Argentina; e, com isso, ampliar também a capacidade de exportação. A TGN informou que o projeto foi concebido para gerar uma capacidade de fornecimento inicial de 13 milhões de m³/dia, com previsão de entrada em operação em abril de 2029. A transportadora espera iniciar ainda este mês a chamada para manifestação de interesse na capacidade do novo gasoduto e, posteriormente, lançar a chamada aberta para oferta da capacidade do Sistema TGN. A apresentação e adjudicação das propostas para ambos os processos estão previstas para o fim de novembro.
Conheça o projeto
O projeto prevê a construção de um novo gasoduto de 753 quilômetros de extensão entre Tratayén, na Bacia de Neuquén, e La Carlota, em Córdoba; o gasoduto atravessará cinco províncias (Neuquén, Río Negro, La Pampa, San Luis e Córdoba), com um investimento de US$ 1,5 bilhão, mais obras complementares no sistema de transporte da ordem de US$ 700 milhões. A nova infraestrutura, segundo a TGN, conectará a produção de Vaca Muerta com indústrias e termelétricas, no mercado doméstico, com impacto positivo na balança comercial argentina. A companhia pretende solicitar a inclusão do projeto de infraestrutura no Programa de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI). A transportadora estima que o projeto contribuirá para uma redução de US$ 700 milhões anuais com a importação de combustíveis – como o gás natural liquefeito (GNL) e diesel; e abrirá novas oportunidades de exportação de gás para países vizinhos, na ordem de US$ 450 milhões por ano. “A Argentina tem uma oportunidade extraordinária de transformar, com uma infraestrutura fundamental, o gás de Vaca Muerta em energia competitiva, com produção local, substituição de importações e geração de excedente exportável”, afirmou o CEO da TGN, Horacio Pizarro.
Projeto pode impulsionar integração regional
O Gasoduto Manuel Belgrano é um dos projetos identificados pela Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde) como necessários para viabilizar o processo de integração regional do gás no Cone Sul em seu pleno potencial. O projeto aumenta a capacidade de movimentação do gás de Vaca Muerta dentro da própria Argentina, mas, com isso, abre um saldo no balanço interno para exportação a países vizinhos como Chile e Brasil. No Brasil, o ano de 2027 desponta como um teste para medir a real disposição dos players brasileiros e argentinos por contratos de longo prazo e fazer, assim, escalar a integração gasífera no Cone Sul em direção a compromissos firmes. O governo brasileiro tem a intenção de realizar, em 2027, o primeiro leilão estruturante de gás do país — uma política originalmente concebida para ofertar os volumes que pertencem à União Federal, oriundos dos campos do pré-sal contratados sob regime de partilha, mas que foi ampliada para reunir moléculas de outros vendedores (incluindo gás importado). A ideia é que o gás da União seja usado como âncora, portanto, de um leilão mais amplo, na tentativa de casar oferta e demanda em contratos de suprimento de longo prazo.
Esse descasamento entre oferta e demanda é justamente um dos fatores que travam os investimentos em infraestrutura para que a Argentina consiga exportar volumes firmes. Mas não só. A infraestrutura é apenas uma parte dos desafios para destravar o potencial de integração regional e que ainda precisa superar aspectos relacionados à competitividade. O gás de Vaca Muerta é muito competitivo na cabeça do poço, com um preço da ordem de US$ 3 por milhão de BTU na entrada do sistema de transporte, mas o empilhamento de tarifas na malha de gasodutos no percurso (Argentina-Bolívia-Brasil) corrói essa competitividade. Nos primeiros testes, o custo do gás argentino ao chegar ao Brasil foi o triplo dos US$ 3 o milhão de BTU. Embora o governo argentino tenha flexibilizado os preços mínimos de exportação, eles ainda estarão em vigor até o fim de 2028. A Olacde cita, por exemplo, a necessidade de se avançar numa agenda de competitividade mais ampla nos países argentinos, o que passa por: na Argentina: eliminar as retenciones (os impostos sobre exportações); na Bolívia: reduzir as tarifas de trânsito; e no Brasil: concretizar as revisões tarifárias do transporte.
Fonte: Eixos
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