O preço do gás natural no país deve continuar pressionado neste ano, acompanhando os preços das commodities no cenário externo, em um contexto de recuperação da economia global com a vacinação. A estimativa é que seja registrada uma alta de 47,6% em R$/m³ (reais por metros cúbicos), em média, no preço do gás natural em 2021, segundo levantamento do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), feito a pedido da Agência iNFRA.
A projeção já leva em conta o reajuste de 39%, em R$/m³ anunciado na iNFRAEnergia. Em nota, a estatal informou que a alta ocorre diante do aumento do preço do petróleo e após uma redução acumulada de 35% nos preços do gás natural no ano passado. A Petrobras corrige os preços do gás natural a cada três meses.
“Para os meses de maio, junho e julho, a referência são os preços dos meses de janeiro, fevereiro e março. Durante esse período, o petróleo teve alta de 38%, seguindo a tendência de alta das commodities globais. Além disso, os preços domésticos das commodities tiveram alta devido à desvalorização do real”, disse a estatal.
Para o diretor da CBIE Advisory, Bruno Pascon, a alta nos preços do insumo reflete o aquecimento no preço das commodities no cenário internacional. Segundo ele, o preço do barril do petróleo teve uma escalada após ter sofrido redução provocada pela pandemia – o barril chegou a ser negociado a cerca de US$ 20,00 e hoje é vendido a US$ 62,00. “Se olharmos o preço médio do petróleo em 2019, ele também ficou na faixa de US$ 63,00. Conseguimos verificar que, mesmo com a pandemia não estando sob controle, há uma tendência de aquecimento nos preços das commodities.
O consumo desses produtos vem aumentando e esse cenário deve se manter ao longo deste ano”, disse o especialista. O mercado brasileiro, aponta Pascon, é sensível aos movimentos do cenário externo, como também ao câmbio, além do preço do petróleo Brent. Portanto, a tendência pode ser alterada ao longo do ano, principalmente se houver um recrudescimento da pandemia em nível global. “O contraponto para isso é em função da terceira onda da pandemia. Vemos novas cepas mais contagiosas e que têm impactado bastante as populações, mesmo em países onde se espera cenário de maior normalidade, como na Europa […]. Se essas novas cepas ocasionarem uma revisão para baixo das perspectivas globais, as commodities terão preços menores do que o observado até agora”, ressalvou.
Para as distribuidoras do gás canalizado, a perspectiva de aumento nos preços é um entrave à recuperação da economia brasileira neste ano, segundo o diretor de Estratégia e Mercado da Abegás, Marcelo Mendonça. “Estamos num momento de pandemia. Estamos passando por um período de recuperação econômica. E o aumento do preço do gás vai atrapalhar. Atrapalha todo setor produtivo, a indústria, o setor terciário, a mobilidade urbana […]. Este aumento acontece em um momento muito inoportuno”, disse Mendonça à Agência iNFRA. Para ele, o reajuste já anunciado para os próximos meses pode, inclusive, afetar o desenvolvimento do mercado de gás no país. Mendonça acrescenta ainda que o Brasil, por ter um cronograma lento de vacinação, fica mais vulnerável em relação às demais economias. “A consequência disso é que o Brasil estará ‘pagando’ parte desse custo da recuperação econômica mundial, em razão dos atrasos [na vacinação] que estamos tendo”.
O horizonte desenhado pelos analistas vai no sentido contrário a uma das principais bandeiras do governo, que esperava poder reduzir o preço do gás em 40% a partir da Nova Lei do Gás (PL 4.476/2020). O projeto aguarda sanção presidencial, mas é considerado insuficiente para promover a queda esperada pelo governo.
“Como todos os mercados globais, o preço refletido no mercado brasileiro, se continuar a refletir como deve a paridade internacional, não é o mercado brasileiro que a gente vai definir. Não é a lei do gás que vai, na prática, fazer com que imediatamente o preço caia. Eles seguem as tendências de preços globais”, disse Pascon.
Fonte: Infra Energia
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