Em artigo publicado no portal Poder 360, o diretor econômico e regulatório da Abegás, Marcos Lopomo, afirma que
O avanço do mercado de gás natural no Brasil se deve, em grande medida, à tenacidade das concessionárias de distribuição. Mesmo em um cenário historicamente marcado pela limitada diversidade de ofertantes, essas empresas cumpriram seu papel com investimentos contínuos na expansão de redes e conexão de milhões de clientes, ampliando significativamente o alcance do energético para além dos grandes consumidores industriais e termelétricos.
Nos últimos 15 anos, as distribuidoras mais do que duplicaram suas redes, passando de aproximadamente 18.000 para 45.000 quilômetros de extensão até o final de 2024. A evolução no número de clientes foi ainda mais expressiva, saltando de 1,75 milhão para 4,75 milhões de consumidores.
Esse esforço de capilarização e interiorização elevou de 356 para 501 o número de municípios atendidos, levando uma alternativa energética segura, competitiva e eficiente a hospitais, centros comerciais, prédios corporativos, condomínios residenciais e indústrias de pequeno, médio e grande porte.
Muitas destas adotaram o gás natural para descarbonizar processos, aumentar produtividade e melhorar a competitividade, dinamizando economias locais.
Contudo, persistem críticas infundadas que questionam essa massificação, defendendo a restrição do serviço aos grandes consumidores pioneiros. Essa visão é equivocada e imediatista.
Como indústria de escala, a distribuição não pode se limitar aos grandes volumes. Embora fundamentais para ancorar as redes iniciais, a adição de novos segmentos –residencial, comercial e veicular– é vital para garantir o equilíbrio econômico-financeiro das concessões, viabilizando a modicidade tarifária e a sustentabilidade do mercado.
Exemplos na região Sudeste já ilustram bem essa dinâmica: em uma concessão, o segmento veicular já supera o industrial em volume; em outra, as receitas residencial e comercial caminham para representar mais da metade do total, prestes a superar a receita industrial em cerca de 10%.
Essa diversificação dilui custos fixos entre mais usuários, reduzindo custos unitários e beneficiando a todos, inclusive os segmentos pioneiros.
A expansão também mitiga riscos associados à volatilidade do consumo industrial, frequentemente impactado por fatores exógenos como geopolítica e macroeconomia.
Investir continuamente em infraestrutura moderna e acessível é fundamental para sustentar serviços públicos de qualidade, promover a equidade social e garantir qualidade de vida digna para toda a população.
É pouco sensato atribuir ao elo da distribuição – responsável por entregar modicidade tarifária por meio do crescimento– as distorções do custo final do gás.
A margem de distribuição, rigorosamente regulada e revisada periodicamente pelos Estados há mais de 20 anos, por meio de suas agências reguladoras, representa em média só 12% da tarifa final para grandes indústrias, conforme dados do MME.
Focar nessa parcela menor desvia a atenção das prioridades reais para ganhos de competitividade, tais como:
- revisão tarifária das transportadoras – ajuste justo das tarifas desse elo, considerando ativos amortizados;
- custos de escoamento e processamento – responsáveis por mais da metade do custo final, conforme evidenciado pelo MME (e a Medida Provisória 1304 de 2025, iniciativa oportuna do ministro Alexandre Silveira indica para uma solução, ao promover melhores condições de acesso a essas infraestruturas);
- diversidade de oferta e infraestrutura – necessidade crítica de investimentos em gasodutos para alternativas de abastecimento, já em discussão no âmbito federal.
A demanda pelo gás canalizado é clara. As distribuidoras, alinhadas aos planos regulatórios estaduais (detentores da competência constitucional por toda a infraestrutura de atendimento aos usuários), continuam investindo para desenvolver e capilarizar redes, em diálogo com poderes concedentes, agências reguladoras e stakeholders.
Novas âncoras surgem com a transição energética no transporte pesado e mobilidade urbana, com o uso de gás natural e biometano, abrindo caminho para a interiorização em mais Estados.
Negar os benefícios do gás canalizado a outros segmentos é uma visão míope e egoísta. A experiência também mostra que, ao chegar a novos municípios e bairros, o energético é rapidamente adotado por indústrias, comércios e residências, desenvolvimento social, econômico e ambiental para a população, medidas estas perseguidas por objetivos estratégicos de natureza pública. O caminho para maximizar os benefícios do gás canalizado a todos os brasileiros passa por atacar os gaps de competitividade onde efetivamente estão. Essa é a prioridade inadiável.
Fonte: Poder 360 – Marcelo Lopomo
Related Posts
Uso de gás natural no Amazonas evita a emissão de 7,5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa
O uso do gás natural tem contribuído para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Amazonas. De acordo com levantamento da Cigás, mais de 7,5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa...
Knauf substitui parte do gás natural por biometano em fábrica de materiais de construção no Rio
A Knauf, fabricante de materiais de construção, vai substituir parte do seu consumo de gás natural por biometano na planta em Queimados (RJ), a partir deste mês. O biocombustível será fornecido pela Gás...

