Em artigo publicado no Estadão, o sócio fundador do CBIE, Adriano Pires, afirma que,
Os mercados globais de gás estão entrando numa fase estruturalmente instável, em que a geopolítica, e não os fundamentos de mercado, irão determinar cada vez mais os resultados desse mercado. Assim como no mercado de petróleo, uma onda maciça de nova oferta de gás natural liquefeito (GNL) – dominada pelos Estados Unidos – colide com o enfraquecimento do crescimento da demanda, levando a uma sobrecapacidade que trará consequências estruturais no mercado de gás natural.
Em primeiro lugar, a doutrina de domínio energético estabelecida pelo governo Donald Trump vem transformando o GNL americano numa importante ferramenta geopolítica explícita. Com isso, essa política pode trazer o risco de gerar consequências negativas que vão acabar por enfraquecer a demanda de gás a longo prazo. Na Ásia, a China está reposicionando o gás natural. A nova política chinesa está sendo implantada, utilizando rotas de importação diversificadas com o objetivo de reduzir a sua exposição aos preços do GNL dominados pelos Estados Unidos. É preciso prestar atenção na cooperação entre a China e a Rússia no setor de gás – especialmente o projeto Força da Sibéria 2 –, pois pode alterar permanentemente os fluxos globais de gás e enfraquecer a participação dos Estados Unidos e do Catar como produtores no mercado de GNL. O setor de gás da Rússia, depois da guerra na Ucrânia, tornou-se totalmente subordinado a objetivos políticos, com os consumidores domésticos agora subsidiando a Gazprom por meio de aumentos acentuados de preços impulsionados por impostos. Com certeza, a demanda de gás a longo prazo na Europa está estruturalmente comprometida: a descarbonização, a eletrificação e as preocupações com a segurança vão limitar permanentemente o consumo.
O mercado global de GNL está caminhando para uma bifurcação: comércio baseado em dólares de um lado e comércio baseado em yuan/rublo, alinhado politicamente, do outro. A tese central: a instrumentalização do gás natural mina a procura a longo prazo, incentivando a diversificação, as alternativas domésticas e os acordos bilaterais não mercantis. A próxima década será marcada pelo excesso de oferta, volatilidade de preços, mudanças nas alianças e intensificação da concorrência – condições que representam um desafio para os exportadores, mas beneficiam os mercados emergentes sensíveis a preços. Conclusão: esse ambiente irá deprimir os preços ciclicamente e apoiar o crescimento da demanda de curto prazo em mercados sensíveis a preços (Sul/Sudeste Asiático, e, por analogia, América Latina), mas irá restringir o investimento de capital e prejudicar as perspectivas de crescimento do GNL a longo prazo.
Fonte: O Estado de SP – Adriano Pires
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