A guerra no Oriente Médio não impõe riscos imediatos ao abastecimento de gás no Brasil, mas pode afetar os preços do combustível no país, segundo especialistas.
Na avaliação do diretor executivo da Abegás, Marcelo Mendonça, eventual impacto sobre o suprimento nacional dependerá da duração e da proporção do conflito.
“No curto prazo, acreditamos que o Brasil já tenha uma infraestrutura robusta para garantir o suprimento energético, além da complementação com os terminais de GNL”.
Leonardo Estrella, pesquisador do Ineep)ressaltou que a estrutura de oferta do país permanece relativamente diversificada e com forte base doméstica.
Ele destacou que cerca de 70% da demanda brasileira é atendida por produção nacional, enquanto aproximadamente 30% correspondem a gás importado. Mais de 20% da oferta total chega por gasodutos, principalmente da Bolívia pelo Gasbol e, em menor escala, da Argentina. Cerca de 8% chegam na forma de GNL importado do mercado internacional, com presença relevante de cargas originadas nos Estados Unidos.
“Essa composição garante relativa resiliência ao sistema brasileiro de suprimento, reduzindo o risco de interrupções físicas mesmo em cenários internacionais mais turbulentos”.
Ele assinalou, porém, que episódios de instabilidade geopolítica, como guerras e sanções energéticas, reforçam a importância de o Brasil avançar nos investimentos em infraestrutura de escoamento e transporte de gás natural, ampliando a capacidade de aproveitar o potencial do pré-sal e outras fronteiras exploratórias.
Tanto Mendonça quanto Estrella entendem que o maior risco está no preço do gás, uma vez que os contratos das distribuidoras são atrelados ao Brent, que já ultrapassou os US$ 85.
“Esse movimento pode pressionar gradualmente as tarifas no país,” alertou Estrella, acrescentando que, no caso do GNL, o efeito tende a ser mais imediato, sobretudo se houver maior despacho de usinas termelétricas.
“O Brasil compra GNL referenciado em preços globais – TTF europeu e JKM asiático – que historicamente são mais elevados e voláteis do que o preço norte-americano, o Henry Hub,” explicou.
Mendonça vê no conflito um sinal de alerta para o Brasil. Caso o país tivesse produção mais elevada de gás nacional, com maior competitividade nos elos da cadeia em que há custos elevados, a competição seria no modelo “gás/gás”.
“Com isso, o mercado teria outros parâmetros para eventuais reajustes de preço, sem que se configurasse uma pressão por elevar preços em função desse contexto geopolítico,” argumentou.
Na sexta (06), a Abegás divulgou um comunicado propondo que o Brasil acelere iniciativas em planejamento, como o Gas Release, diversificando o número de agentes de suprimento, e reduza os níveis de reinjeção de gás natural nos campos de produção.
A associação também considera fundamental ampliar os investimentos em gasodutos e unidades de processamento de gás (UPGNs), estimular a demanda, reduzir as tarifas de transporte, acelerar projetos em novas fronteiras exploratórias e permitir estudos relativos à exploração de gás não convencional.
Fonte: BNAmericas
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