A guerra no Oriente Médio levou ao aumento de mais de 70% nos preços do gás natural liquefeito (GNL) a partir de dois fatores: a suspensão do suprimento do insumo pelo Catar, um dos principais fornecedores globais, e o fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo. No Brasil, os reflexos da alta do GNL sobre os preços internos tendem a ser limitados, dizem especialistas ouvidos pelo Valor. Antes do início da guerra, no dia 27 de fevereiro, o GNL estava cotado a € 32,38 por MWh. Na segunda (09), o valor era de € 55,86 por MWh, alta de 73% no mercado europeu Title Transfer Facility (TTF), uma das principais referências do setor.
Após um bombardeio na fábrica de Ras Laffan, no Catar, em 2 de março, a Qatar Energy suspendeu a produção de GNL. Um dos problemas da paralisação está no fato de que não há rotas alternativas viáveis para o transporte de grandes volumes, o que leva à alta da commodity. A Agência Internacional de Energia (AIE) avalia que uma interrupção mais prolongada de fornecimento pode agravar a escassez no mercado. Vitor Santos, professor de economia da Lisbon School of Economics & Management (ISEG), disse que com o fechamento de Ormuz vários países produtores ficam com a capacidade de exportação limitada. Importadores, por sua vez, passam a enfrentar dificuldades de abastecimento. “O encerramento do Estreito de Ormuz prejudica os produtores do Golfo Pérsico e os principais consumidores asiáticos de petróleo e gás natural, que apresentam uma elevada dependência das importações de combustíveis fósseis”, disse Santos. Análise do Oxford Institute for Energy Studies (OIES), de junho de 2025, já avaliava que um eventual choque global de preços de GNL pelo fechamento de Ormuz seria semelhante ao que ocorreu em 2022, após a invasão russa na Ucrânia, quando os preços de curto prazo se aproximaram a US$ 30 por milhão de BTU. “Outro choque de preços, similar ao de 2022, poderia trazer consequências diretas a orçamentos de governos na Europa e na Ásia”, dizia o estudo. No Brasil, o GNL passou a ser utilizado nos anos 2000 diante da dificuldade de aumento da oferta de gás natural para a geração térmica. Na ocasião, a Petrobras instalou três terminais de regaseificação, um no Rio, um no Ceará e outro na Bahia. Hoje o país conta com seis terminais de GNL em operação. Reflexos de preços e suprimento devem ser restritos no mercado local, dizem especialistas. Rodrigo Borges, diretor-geral da Aurora Energy Research no Brasil, disse que quando o GNL dispara no mercado externo o custo marginal das térmicas sobe, com tendência a pressionar o preço da energia no Brasil, sobretudo nos momentos em que o sistema precisa acioná-las.
Diogo Lisbona, pesquisador do FGV Ceri, explicou que os preços da energia e do gás natural podem refletir a curto prazo os efeitos da guerra. Isso porque grandes consumidores e algumas térmicas possuem contratos com reajustes trimestrais que consideram a média ponderada do Brent. Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra, afirmou que o petróleo tem um mercado mais amplo e permite mitigar efeitos do fechamento de Ormuz, com crescimento da produção em outras regiões do mundo. Mas, diferente do óleo, o GNL não tem a mesma possibilidade. Moreira ressaltou que Europa e Ásia são grandes consumidores do GNL do Catar e salientou que o bloqueio do Estreito de Ormuz é mais relevante para o GNL do que para o petróleo. “O Brasil, como importador, não necessariamente deve sofrer com interrupção de suprimento, uma vez que a gente importa dos Estados Unidos e do Reino Unido. A questão é de preço, que deve subir bastante”, disse Moreira. Adriano Pires, sócio do CBIE avalia que eventuais reflexos serão pontuais, fruto de possíveis redirecionamentos de navios para atender demandas específicas. Pires ressaltou que no Brasil o gás natural é comercializado por meio de contratos de longo prazo. A preocupação pode incidir sobre o leilão de reserva de capacidade, previsto para ocorrer no dia 18 de março Para a PSR Consultoria, o impacto da crise no mercado brasileiro vai depender de quantas térmicas estão com custo de combustível associado a preços internacionais e do comportamento de tais indicadores. “Se a crise persistir, a pressão sobre estes índices é forte e com ela vem custos variáveis das térmicas maiores e impactos nos preços de energia”, avalia a PSR. Um ponto de alerta é a disponibilidade de gás para térmicas em função da guerra e quanto do insumo do Oriente Médio seria substituído pelo americano: a PSR diz que os EUA ofertam ao mercado um volume de 60 milhões de toneladas por ano de nova capacidade entre 2026 e 2027. “Embora esse volume não substitua o Catar, é um montante robusto que ajuda a amortecer a demanda em uma crise prolongada”.
Fonte: Valor Econômico
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