A indústria global de GNL vai sentir impactos do atual conflito no Oriente Médio até a década de 2030, na visão de analistas da S&P Global. O ex-secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, que ocupou o cargo durante o primeiro mandato de Donald Trump, disse não acreditar numa saída a curto prazo para a guerra. O bloqueio do Estreito de Ormuz tirou do jogo cerca de 19% do suprimento global de GNL. E mesmo num cenário otimista de resolução rápida dos conflitos e liberação do tráfego, na região, nem toda essa capacidade estará novamente disponível de imediato. Os ataques iranianos à infraestrutura energética do Catar atingiram a cidade industrial de Ras Laffan e já destruíram o equivalente a 3% da capacidade global de liquefação. Recuperar essa capacidade não é algo que se espera que ocorra de uma hora para outra. Os componentes necessários para o reparo não são itens de prateleira. É preciso encomendá-los e aguardar sua fabricação e entrega. Para o diretor executivo da S&P Global Energy, Laurent Ruseckas, os ataques às instalações de GNL do Catar já configuram um ponto de inflexão para o setor, com implicações ainda desconhecidas. “Essa ideia de que o GNL do Catar poderia ser seguro — ou mais seguro do que as instalações petrolíferas da Arábia Saudita, do Kuwait ou de algum lugar nos Emirados Árabes Unidos — não creio que alguém possa contar com isso agora”, resumiu. O episódio lança dúvidas sobre a capacidade do Catar de entregar os novos projetos que estavam sendo construídos no país, como a expansão do Campo Norte Leste, prevista para este ano, e que deve, no mínimo, atrasar. Ruseckas destacou também que a própria atratividade do Catar como destino de novos projetos fica ameaçada. “Haverá mais FIDs [decisões finais de investimento] no Catar? Se eu fosse um comprador que tem 40% de seu suprimento do Golfo e 60% de outras fontes, e estivesse enfrentando uma demanda crescente, eu provavelmente buscaria gás de fontes fora do Golfo”. “O Catar voltará a fornecer em algum momento; essa opção está lá. Mas será que queremos apostar tudo nisso? Talvez queiramos buscar alternativas”, analisou.
EUA reafirmam liderança global em GNL
Maiores exportadores de GNL do mundo, os EUA saem da crise atual com a liderança reafirmada no mercado global. O país lidera a onda de novos investimentos no setor. Em 2025, os projetos que avançaram para a fase de FID totalizaram mais de 80 bilhões de m³/ano de capacidade, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE). É um movimento iniciado antes da guerra, mas que dá as bases para que o GNL dos EUA se posicione de forma privilegiada no atual contexto. Desde o primeiro dia de conferência, os secretários do governo Trump fizeram questão de reforçar a mensagem de que os EUA têm um papel a cumprir na segurança energética (nacional e global). E que a resposta estadunidense à guerra deve ser aumento de produção de óleo e gás no país. Logo na abertura da CERAWeek, o secretário de Energia, Chris Wright, defendeu que as petroleiras atuem de forma pragmática e ampliem a produção: “Os preços subiram para enviar um sinal a todos de que podem produzir mais”, disse. um gesto bastante simbólico, logo na sequência, o secretário do Interior, Doug Burgum, anunciou um acordo do governo dos EUA com a TotalEnergies para redirecionar investimentos de cerca de US$ 1 bilhão previstos inicialmente em eólica offshore (em licenças canceladas pelo governo Trump) para o setor de gás e energia. Os produtores estadunidenses já sentem os desdobramentos do conflito. O diretor de Assuntos Corporativos da Caturus, Brian Cain, conta que nas últimas semanas houve um “foco renovado e intensificado por parte dos compradores e financiadores” sobre o projeto de terminal de liquefação em desenvolvimento pela companhia, na Lousiana — o Commonwealth LNG, que terá capacidade para exportar 9,5 milhões de toneladas/ano a partir de 2030. “A indústria global de GNL costumava ser uma espécie de ‘banquinho de três pernas’, sustentada pelos Estados Unidos e pelos volumes provenientes da Austrália e do Catar. A Austrália, no entanto, em decorrência de questões regulatórias e custos trabalhistas, acabou, em certa medida, perdendo competitividade devido aos seus preços”. “No momento, pelo menos por enquanto, a situação se assemelha mais a um ‘banquinho de uma perna só’, com todo o foco voltado para os Estados Unidos”, comentou. O diretor Comercial da Venture Global LNG, Thomas Earl, acredita que tendência de crescimento de contratos de longo prazo deve ser reafirmada também, com acordos do tipo FOB (do inglês Free on Board, com entrega no terminal de liquefação) “particularmente mais atrativos”. O outro lado da moeda da atual crise é a perspectiva de aumento dos custos da cadeia de valor do GNL, apontou Vlad Bluzer, sócio do Glenfarne Group, que desenvolve uma série de projetos de GNL nos Estados Unidos. “O aumento nos custos de construção deve ter um impacto menor para nós [a Glenfarne já assinou os contratos com os principais fornecedores]. No entanto, consigo ver como isso pode representar uma preocupação potencial para alguns projetos que estão prestes a assinar contratos ou que se encontram em estágios mais iniciais de desenvolvimento”. “Minha grande preocupação reside no aumento do custo do GNL. Embora acreditemos que isso beneficie os produtores de GNL — e, obviamente, de fato ajuda até certo ponto — estamos também monitorando com muita atenção a destruição da demanda em nível global, pois essa é uma grande preocupação para todos nós”, comentou Bluzer
América Latina se coloca como alternativa
A expectativa é que as turbulências no Oriente Médio também alterem os fluxos de investimentos e que regiões como África e América Latina também possam se colocar como fontes de GNL fora de regiões de conflito deflagrado. Foi essa a posição que a Argentina reforçou nos paineis da CERAWeek, na figura do ministro da Economia, Daniel González. Ele vê o conflito no Oriente Médio como “algo positivo a longo prazo” para o país. “Quanto ao desfecho da guerra, penso que, a longo prazo, é algo positivo, pois ressalta a importância — para a segurança energética — de se dispor de recursos situados longe de centros de conflito”, disse. O CEO da Tecpetrol, Ricardo Markous, reforçou que a guerra pode acelerar a implementação dos terminais de liquefação da Argentina. Mas não só eles. Executivos das majors, como Shell e Chevron, também compartilharam essa visão. Além da Argentina, os olhos das petroleiras se voltam para a perspectiva de reabertura da Venezuela. O CEO da Shell, Wael Sawan, disse que a companhia tem condições de tomar decisões finais de investimento em projetos de gás ainda este ano, se o país caribenho continuar com a reforma de seus marcos fiscais e regulatórios – a ExxonMobil, aliás, enviou uma equipe à Venezuela, para também monitorar oportunidades no país. Sawan acrescentou que a capacidade de resposta da Shell a investimentos na Venezuela tende a ser mais rápida no gás do que no petróleo. E que a ideia é monetizar o gás venezuelano via GNL. A capacidade de resposta rápida ao crescimento da demanda, aliás, é um dos desafios postos sobre o mercado de gás natural. Não só para fazer frente ao desequilíbrio momentâneo da guerra no Oriente Médio. Antes mesmo do conflito, o boom dos projetos de data centers nos EUA já impunha a necessidade de projetos de cada vez mais rápida implementação. Isso traz uma “mentalidade totalmente diferente” para o planejamento da expansão da geração, disse o vice-secretário de Energia do Departamento de Energia dos EUA, James Danly. Ele reiterou que os EUA estão “empenhados em obter o máximo possível de energia despachável a partir da geração existente”, por meio da modernização do parque atual de termelétricas; em acelerar a expansão da capacidade de geração com base no gás e nuclear. A necessidade de escalabilidade dos projetos passa também pelo conceito de modularização das novas plantas de GNL. “No passado, víamos a modularização principalmente como uma forma de mitigar riscos relacionados a cronogramas, orçamentos e execução. Hoje, no entanto, encaramos a modularização como um meio de aumentar essa velocidade e a escalabilidade. Num momento de incerteza geopolítica, em que atuamos em áreas com a necessidade de aumentar a produção muito rapidamente, este é um caminho que podemos seguir”, comentou o CEO da Honeywell Process Technology, Ken West.
Abundância do GNL em xeque
Para Ruseckas, da S&P, o conflito no Oriente Médio abalou a reputação do GNL como um combustível seguro – vale lembrar a posição que a commodity assumiu como substituta do gás russo na Europa desde a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. A guerra, segundo ele, vai exigir uma revisão drástica sobre as projeções que apontavam para um cenário de abundância do GNL no mercado global. Pouco antes de a guerra no Oriente Médio eclodir, a S&P Global havia publicado uma projeção de mercado que indicava um horizonte de sobreoferta, em especial na virada da década – e alavancado, sobretudo, pela onda de novos projetos de GNL dos EUA. Diante das incertezas sobre o conflito atual, segundo ele, é como se, a cada semana, a curva projetada fosse adiada. O que quer dizer, de certo modo, que os fundamentos que sustentam o cenário de sobreoferta estão presentes. “Acredito que, estruturalmente, uma grande quantidade de oferta está chegando ao mercado. Isso é algo com que todos podemos concordar. Portanto, essa oferta retornará, descontada uma parte da capacidade catari, por um determinado tempo. E não sabemos exatamente qual será o volume dessa capacidade catari”. Mas e do lado da demanda, como as grandes economias vão responder? Existe uma preocupação real, de acordo com o diretor da S&P, com a destruição de demanda. Ruseckas cita que esta pode ser uma “segunda onda de trauma” para o mercado em menos de cinco anos – uma referência aos efeitos da guerra Rússia-Ucrânia. “É como um ataque aéreo em duas etapas. Todos tinham acabado de superar a confusão de 2022 e 2023 e começavam a se sentir confortáveis com o gás novamente. E agora surge este episódio”. “Preocupa o fato de que grande parte da oferta continua chegando, ao passo que a demanda pode não acompanhar esse mesmo ritmo”. Na Ásia, a principal região afetada pelo corte de fornecimento do Golfo, a Índia e o vizinho Paquistão – que importa praticamente todo o seu GNL do Catar – já começaram a implementar medidas de racionamento de gás. “Inevitavelmente, é preciso refletir sobre as políticas públicas. E acho que essa reflexão ainda não ocorreu. Acredito que todos esses países terão discussões e debates [sobre o papel do gás na matriz] e terão de refletir sobre o equilíbrio com as questões climáticas”, complementou Ruseckas.
Impacto nos fertilizantes
O CEO da Kuwait Petroleum Corporation (KPC), Nawaf Saud Al Sabah, disse que diversas regiões terão de lidar com a escassez de ureia nos próximos meses devido às dificuldades para exportação de gás com o fechamento do Estreito de Ormuz. “O estreito é absolutamente vital para os negócios globais”, ressaltou, em sua mensagem (remota) na CERAWeek. O diretor sênior de Gás, Power e Soluções Climáticas da S&P Global, Zhi Xin Chong, acrescenta que o racionamento de gás na Índia também deve ter repercussões sobre os fertilizantes. Cerca de 30% do volume de gás foi contingenciado para a indústria indiana de fertilizantes — que usa o gás como matéria-prima. Chong destaca que a Índia, hoje, conta com os estoques existentes e importações de ureia, mas a chegada da temporada de plantio, no verão do Hemisfério Norte, exigirá a busca do país por importações adicionais, pressionando ainda mais o mercado global. “Veremos uma concorrência muito mais acirrada entre a Europa e a Ásia, e os preços poderão apresentar uma volatilidade potencialmente maior.
China pode recorrer a mais gás russo
No tabuleiro de xadrez do mercado global, a China pode ampliar as relações com a Rússia, para importação de gás. O país asiático importa cerca de 21 milhões de toneladas do Catar e dos Emirados Árabes Unidos. Em volume, é o maior importador de GNL do Golfo, mas, por possuir uma produção própria de gás e acessar outros mercados, tem uma dependência menor do gás catarii, de 6%. Isso confere aos chineses mais espaço para manobrar e lidar com a escassez do gás do Golfo. Chong, da S&P, conta que a China pode vir a recorrer ao gás importado da Rússia ou da Ásia Central, bem como considerar a substituição de combustíveis, migrando para o carvão e as energias renováveis. O diretor da S&P acredita que a guerra pode trazer “ventos favoráveis” ao avanço do projeto Power Siberian 2 — gasoduto com capacidade adicional de 50 bilhões de metros cúbicos de gás para levar gás russo ao país asiático. “Outra medida que a China poderia considerar é a diversificação das rotas de suprimento de gás. Não apenas é interessante olhar para o Catar, Omã e os Emirados Árabes Unidos, mas também é preciso começar a considerar outros lugares fora do Oriente Médio — talvez o Canadá, talvez a Argentina, talvez a África”. “E, por fim, um aspecto que considero bastante singular na China é o fato de o país possuir capacidades tão robustas em energias renováveis e veículos elétricos. Isso poderia realmente impulsionar a transição, afastando a dependência do carvão e promovendo o uso de energias renováveis como alternativa ao gás natural”, complementou. A flexibilização do plano da União Europeia de zerar as importações de gás russo, por sua vez, tende a não ocorrer, porque se trata, agora, de um comando legal do bloco – cujo trâmite, para mudanças, exige um rito longo e complexo. O bloqueio do Estreito de Ormuz deixa, aliás, a lição de que os países precisam encontrar formas não só de diversificar suas fontes de gás, mas também pensar nas rotas de suprimento. “[A crise atual] mostra o quão frágil é a rota [de GNL] pelo Estreito Ormuz”, disse Osama Mobarez, secretário geral do Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental – organização internacional formada por Chipre, Egito, França, Grécia, Israel, Itália, Jordânia e Palestina. Os países do Mediterrâneo veem na atual guerra no Oriente Médio um reforço da tese de investimento no projeto do Corredor Vertical de Gás Corredor é uma iniciativa estratégica de infraestrutura de gasodutos que visa conectar os terminais de GNL da Grécia à Europa Central e Leste Europeu. O assunto interessa diretamente os EUA, que quer reforçar a sua posição como fornecedor de GNL para o mercado europeu. Autoridades do governo e empresariado da Ucrânia, aliás, estiveram presentes no evento e destacaram que o armazenamento — não só de gás, mas energia via baterias (BESS) e de equipamentos críticos — emerge como peça-chave para políticas de segurança energética no contexto de acirramentos das tensões geopolíticas.
Fonte: Eixos
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