A escalada do conflito no Irã, com impacto sobre os fluxos globais de energia e os preços internacionais, reacendeu a pressão sobre a segurança energética europeia, que já vinha sendo revista desde o início da guerra na Ucrânia. A expansão do biometano se consolidou como uma das principais apostas da Europa para reduzir a dependência de gás importado e avançar na transição energética no continente.
Entre 2024 e 2025, 130 novas plantas entraram em operação, somando 1.678, segundo o Mapa Europeu de Biometano, elaborado pela European Biogas Association (EBA) e pela Gas Infrastructure Europe. Incluído o biogás, o continente já é o maior produtor desse tipo de combustível, com quase 50% do total mundial. “Já não é uma questão de mudança climática, é uma questão de segurança econômica e energética e de defesa do nosso modelo de vida”, diz Gonzalo Escribano, diretor do programa de energia e clima do Real Instituto Elcano, da Espanha. A Comissão Europeia estabeleceu como meta atingir 35 bilhões de metros cúbicos de biogás e biometano por ano até 2030 para reduzir a dependência de fornecedores externos e ampliar a produção interna de energia.
“O biometano está desempenhando um papel crescente na redução da dependência do gás importado, contribuindo tanto para a segurança energética quanto para a descarbonização”, diz Angela Sainz Arnau, porta-voz da EBA. A produção de biometano já responde pela parcela mais dinâmica do setor de gases renováveis na Europa. A capacidade instalada se aproxima de 7 bilhões de m3 por ano, com produção em torno de 5 bilhões de m3 – praticamente o dobro do registrado em 2021.
No conjunto, biogás e biometano somam cerca de 22 bilhões de m3, com predominância do biogás. Mas isso ainda equivale a apenas 6% a 7% do consumo de gás natural da União Europeia.
Para alcançar o objetivo de 2030, será necessário ampliar o ritmo de implantação de projetos e acelerar o ambiente regulatório segundo Sainz Arnau. “Mais do que alcançar a meta em si, é fundamental garantir um compromisso político claro e imediato para transformar o potencial existente em projetos concretos de escala industrial”, diz ela.
Gases renováveis como o biometano têm a vantagem de poderem ser injetados nas redes atuais de gás natural. De acordo com Piotr Kus, diretor-geral da Rede Europeia de Operadores de Redes de Transporte de Gás, a injeção desses gases aumentou 13,4% nos últimos dois anos, para 43,2 TWh. A
expansão da produção na Europa se concentra em poucos países, com modelos distintos. A Alemanha é o principal polo, com mais de 10 mil plantas de biogás e cerca de 185 unidades de biometano, sustentadas por políticas de incentivo e pela conversão de instalações já existentes para produção de gás injetável. Já França e Itália lideram a nova onda de crescimento. Os franceses concentram a maior parte das novas unidades conectadas à rede, apoiada por contratos regulados e metas de injeção.
A Itália estruturou o avanço a partir da demanda, com incentivos voltados ao uso no transporte. A Dinamarca aparece como um caso à parte. O país construiu sua estratégia com foco em eficiência produtiva e integração ao sistema energético. Produzido a partir da decomposição de resíduos orgânicos – como esterco, resíduos agrícolas e lixo e esgoto urbanos -, o biometano é purificado até atingir padrão equivalente ao do gás natural e pode ser injetado diretamente na rede, o que permite ampliar a oferta sem reconstrução completa da infraestrutura energética.
O processo tem, ainda, a vantagem de transformar passivos ambientais em energia e gerar subprodutos como fertilizantes orgânicos e CO2 biogênico. O biometano também tem sido visto como alternativa viável para setores de difícil eletrificação, como indústria pesada e transporte de longa distância – 78% da produção europeia é usada em veículos de carga pesada e 17%, no transporte marítimo. A guerra entrou na pauta, mas a mudança climática segue sendo o principal impulsionador da política europeia de renováveis. Entretanto, especialistas e organizações ambientais apontam limites estruturais à estratégia.
Além dos desafios de infraestrutura, o setor enfrenta questionamentos sobre seus limites de longo prazo. Para Luc Powell, analista sênior de políticas de qualidade do ar e agricultura do European Environmental Bureau, a forma como o biometano vem sendo estruturado pode gerar distorções no próprio modelo produtivo. “Há um risco real de que a União Europeia fique presa a um sistema que incentiva o crescimento insustentável da pecuária intensiva”, afirma. Segundo ele, a expansão da oferta de biometano baseada em dejetos pode acabar estimulando o aumento da produção pecuária em larga escala, o que colocaria em xeque parte dos ganhos ambientais associados ao combustível.
Fonte: Valor Econômico / Suplemento – Transição energética
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