O mês de maio promete ser agitado para o futuro das térmicas a gás natural vencedoras do 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). A expectativa no mercado é que, pelo histórico do setor, nem todas as 90 térmicas a gás negociadas no leilão conseguirão se viabilizar, de fato. E o pós-leilão entra numa fase decisiva que poderá reconfigurar o certame: a Aneel se debruça sobre a habilitação das novas térmicas e espera concluir o trabalho até dia 22; a homologação ds resultados do leilão (a primeira leva, com as usinas contratadas para operar ainda este ano) está prevista para dia 21; o restante dos produtos será homologado até 11/6. Enquanto isso, o TCU já sinalizou que pretende apertar o cerco aos “geradores de papel” e espera julgar o mérito dos questionamentos ao leilão antes do dia 21. Os meses seguintes ao leilão costumam ser também um momento de reacomodação dos projetos. Alguns agentes buscarão parceiros para ajudar a tirar os projetos do papel. E aí surgem as oportunidades de aquisições e parcerias para desenvolvimento de alguns dos novos empreendimentos. Uma vez contratadas as térmicas, chegou o momento, também, da corrida para fechar as soluções de suprimento de gás para abastecimento às usinas – cujos contratos podem, inclusive, ser antecipados pelo governo este ano, intensificando a busca por molécula. O LRCAP exerce um papel transformacional sobre a dinâmica do mercado de gás, com impactos relevantes sobre o perfil de demanda, investimentos em infraestrutura, criação de novas soluções e até sobre as tarifas dos gasodutos.
Momento de reacomodação
Passado o leilão, existe uma expectativa no mercado em torno de um rearranjo dos projetos: aquisições e transferência de titularidade de usinas, parcerias, mudanças de localização dos projetos e, em alguns casos, até mesmo a desistência de alguns deles. Diretor de Marketing, Comercialização e Novos Negócios da Eneva, Marcelo Cruz Lopes, destaca que o histórico de agentes que não honram seus compromissos, no setor elétrico, é uma realidade: 20% dos projetos que ganharam leilões de energia desde a reestruturação do marco do setor elétrico, segundo ele, nunca saíram do papel.“Então, se a gente acreditar que você pode prever o futuro baseado no passado, é previsível que alguma coisa dessa natureza aconteça”. O gerente de Marketing de Gás e Energia da Petrobras, Leonardo Ferreira, sinalizou, aliás, que a estatal está aberta a negociar parcerias para entrar em projetos de térmicas que venceram o LRCAP – a companhia se concentrou, no leilão, em recontratar seu parque térmico existente. “A gente avalia parcerias. Adquirir 100% [de um ativo] entendo que não, mas eu acho que se a gente colocar na mesa boas parcerias, sim, a gente está aberto para discutir e negociar”, afirmou. Os agentes já se mexem. A Âmbar Energia, do grupo J&F, por exemplo, fechou recentemente um contrato para arrendamento do Terminal Gás Sul (TGS), o terminal de regaseificação de Santa Catarina, da New Fortress Energy (NFE).
LRCAP exigirá investimentos em gasodutos
Já escrevemos por aqui como o LRCAP deve viabilizar pelo menos dois novos terminais de importação de gás natural liquefeito (GNL) da Eneva: um no Ceará e outro no Sudeste (RJ e ES são as opções em estudo). Mas o leilão também traz necessidade de investimentos na malha de gasodutos de transporte. Numa leitura preliminar: a Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG) avalia que precisará construir cinco novos pontos de saída no Gasbol, para abastecimento das novas térmicas contratadas no LRCAP; a Transportadora Associada de Gás (TAG) estima outros seis novos pontos de entrega na malha de gasodutos do Nordeste. Em entrevista ao estúdio eixos, o diretor Comercial e Regulatório da TAG, Ovídio Quintana, afirmou também que as novas térmicas reforçam a tese de investimentos no Projeto Veredas – que reúne um conjunto de intervenções na malha de gasodutos do Nordeste, para contornar gargalos. Vai depender, é claro, do saldo final do leilão, já que os agentes ainda podem remanejar a localização das novas usinas. Quintana também alertou para a necessidade de celeridade na aprovação dos novos investimentos e no licenciamento deles, já que algumas das novas usinas entram em operação em 2028 – e a infra de transporte precisa estar pronta seis meses antes, para viabilizar o comissionamento das térmicas.
O impacto nas tarifas dos gasodutos
Existe também um impacto sobre as tarifas de transporte. Escrevemos aqui como o LRCAP recontratou praticamente todas as térmicas a gás que estavam descontratadas ou com contratos por vencer nos próximos anos. E cumpriu, nesse ponto, o objetivo de evitar uma fuga de demanda das usinas do sistema de transporte. Um pesadelo que pairava sobre o mercado e que poderia se refletir num pico de tarifas para todos os usuários da malha. O diretor da ANP, Pietro Mendes, celebrou o resultado do leilão: a recontratação das térmicas existentes e as novas termelétricas devem representar a contratação de uma capacidade de 49 milhões de m³/dia na malha de gasodutos, segundo a ANP. “Isso é fundamental para a manutenção do sistema de transporte, lembrando que o sistema de transporte foi desenhado muito para atender ao setor elétrico. Esperamos que o leilão sobreviva a todos esses questionamentos, porque é tanto importante para o setor elétrico quanto também importante para o sistema de transporte de gás”, disse Mendes. Quintana, da TAG, porém, faz ponderações sobre o impacto do LRCAP sobre o denominador das tarifas. A sistemática final do LRCAP, segundo ele, muda a forma como as termelétricas vão remunerar o sistema de transporte de gás – e pode ter efeitos colaterais sobre os demais usuários. O executivo cita que, com o desconto de 15% nas tarifas de contratos de longo prazo e a obrigação das térmicas de contratarem apenas a saída do sistema (e de reservarem o equivalente 70% de suas demandas em base firme na malha de gasodutos), as térmicas passarão a contribuir com 18% da remuneração do sistema, em base firme — ante o histórico de 40% a 50%. “Isso tem um impacto alocativo. Não muda o direito de receita do transportador, mas na hora de fazer a conta, essa ponderação acaba influenciando na questão alocativa entre o térmico e o não térmico”, comentou. Ou seja, na divisão do bolo dos custos do sistema, os usuários do mercado não-termelétrico passarão a assumir (relativamente) uma fatia maior do que a historicamente assumiam.
Vai ter gás para todas as térmicas?
Do ponto de vista da disponibilidade de molécula, em si, a diretora de Estudos em Petróleo e Gás da EPE, Heloísa Borges, acredita que este não será um problema. “O problema do Brasil, há muito tempo, deixou de ser a pauta de recursos”, disse. A análise preliminar do resultado do LRCAP, segundo Borges, mostra uma diversificação relevante das fontes de suprimento das térmicas – o que inclui GNL, gás nacional, soluções isoladas, soluções conectadas. Mas o perfil de demanda por gás flexível das térmicas do LRCAP traz mudanças importantes na dinâmica do mercado de gás. Para a diretora de Comercialização da Origem Energia, Flávia Barros, as térmicas a gás tendem a trazer, cada vez mais, volatilidade ao mercado – o que exigirá uma revisão nas políticas de riscos dos comercializadores de gás spot. “A primeira coisa que [a crise das comercializadoras do setor elétrico] ensina é que as políticas de risco e os modelos de exposição operacional das comercializadoras de gás precisam ser muito bem estudados, porque a flexibilidade que o setor elétrico precisa e a volatilidade que ele vai causar no mercado de gás serão empurradas para os portfólios das empresas”.
O copo mais cheio
O momento cria oportunidades para quem oferecer soluções mais flexíveis. E isso abre espaço para novos produtos, como a possibilidade de contratação horária de capacidade nos gasodutos e o serviço de estocagem de gás – que a Origem espera começar a operar este ano. A executiva também cita a tendência de criação de produtos mais sofisticados como derivativos e hedges, associados à própria estocagem. É um leque enorme de produtos, mas eu acho que as negociações em tela, a curva futura [de preços], eu acho que são as primeiras coisas que podem surgir desse mercado pós-LRCAP”, afirmou ao estúdio eixos. Assista na íntegra O head de Crescimento e Estratégia da Edge, Diogo Simões, por sua vez, acredita que maio será um mês crucial nas negociações entre as térmicas e os supridores de molécula. E a comercializadora vê no LRCAP uma oportunidade de ampliar a monetização do gás do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP). “Agora as decisões mais importantes vão ser tomadas… A gente vê o momento em que esses fluxos estão se fechando. Existem desafios de colocar todas essas térmicas de pé, existem desafios de a gente acomodar todos os fluxos de gás e a flexibilidade que o sistema vai precisar”, comentou. Segundo ele, a demanda por gás flexível exigirá dos supridores a montagem de portfólios diversificados. “A gente está dando um salto muito grande nessa volumetria [de demanda] e na capacidade que a gente vai ter que deixar disponível. Então, nesse entrelaço de portfólios, a dinâmica do spot, mas também a dinâmica de parcerias estratégicas, vão ser muito importantes”, completou.
Uma guerra no meio do caminho
Os danos à infraestrutura de liquefação no Catar devem atrasar o impacto da esperada onda de expansão global do GNL em pelo menos dois anos, já alertou a Agência Internacional de Energia (IEA). Como lidar, então, com a demanda nova por GNL, bem no meio da guerra do Oriente Médio? Grandes consumidores de GNL, Eneva e Petrobras não veem mudanças de grande impacto sobre seus negócios – ainda que o aumento nos preços internacionais da commodity seja uma realidade. “Na prática, acho que vai ter um novo equilíbrio de preço, um pouco mais alto do que o que a gente tinha, mas uma visão que muda muito pouco em relação ao que estava sendo previsto do ponto de vista de estratégia de suprimento e de impacto no mercado de gás aqui no Brasil”, avalia Marcelo Lopes, da Eneva. Leonardo Ferreira também não crê em riscos de ruptura no suprimento ao portfólio da Petrobras, embora espere um preço um pouco mais acentuado. “Em 2022 [na guerra da Ucrânia], a gente passou por momentos muito mais críticos e também não tivemos problemas de abastecimento”. Ele conta, no entanto, que o aumento da demanda de gás pelas térmicas, com o LRCAP deste ano, reforça a estratégia da empresa de buscar contratos de longo prazo no mercado global. Ferreira lembra que, historicamente, a Petrobras começou a operar no GNL com uma posição quase 100% exposta ao mercado spot, mas que ao longo dos anos passou a recorrer a contratos de longo prazo. “A gente continua com essa estratégia, de ter um portfólio cada vez mais balanceado em relação à contratação no spot e contratos já previamente estabelecidos. Esse é o caminho. E agora, com essa nova âncora do LRCAP, os volumes que foram negociados, próprios e de terceiros, aumenta essa necessidade de ter contratos já previamente estabelecidos”.
Fonte: Eixos / Gasweek
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