Reportagem do Valor mostra que a ANP estuda medidas que podem mudar ou permitir novos modelos de negócio com o gás de cozinha, como a recarga parcial de botijões, o chamado “refil de GLP”, e a possibilidade de que uma empresa possa encher recipientes de outras marcas. As duas práticas hoje são vedadas. O gás liquefeito de petróleo (GLP) vendido em botijões de 13 quilos está presente em cerca de 90% dos lares brasileiros. As mudanças em estudo, porém, levantam temores no mercado. Empresas do setor avaliam que as medidas podem trazer insegurança para investimentos na cadeia logística, aumento de preços e possível infiltração do crime organizado. Na sexta (29), a diretoria da ANP decidiria sobre a realização de uma consulta pública para colocar uma minuta de resolução sob análise da sociedade. A agência quer discutir temas como a viabilidade da recarga parcial dos botijões; o enchimento de recipientes de outras marcas; o rastreamento dos botijões, hoje inexistente; o envase em instalações mais próximas ao consumidor; e a liberação do uso do GLP para atividades como aquecimento de piscinas, caldeiras e uso em motores.
Mas, na ocasião, o diretor-relator do caso, Daniel Maia, pediu vista do processo, que deve voltar à pauta da ANP em 12 de junho. Na reunião, os diretores abriram espaço para a realização de projetos-piloto de enchimento de botijões dentro das novas exigências regulatórias, o que não estava na proposta inicial. O “refil de GLP” não está na minuta proposta, mas esteve em discussão anteriormente e pode voltar a ser debatido durante a consulta pública. O “refil de GLP” é um modelo diferente do atualmente praticado. Hoje, um consumidor de GLP compra um botijão e quando o gás acaba, liga para a revenda, que troca o recipiente vazio por um cheio. O botijão vazio segue para a base de uma distribuidora, fora de centros urbanos, que o analisa e, em caso de danos, o descarta. Se liberado, o botijão é recarregado em máquinas específicas e retorna ao mercado. As distribuidoras também trocam entre si os recipientes que pertencem às outras marcas. Segundo o Sindigás, o segmento arrecada R$ 11 bilhões em ICMS por ano e opera uma estrutura logística com mais de 130 milhões de botijões em circulação. São 189 bases de recarga de 19 distribuidoras autorizadas. Pela proposta em debate na ANP, a recarga ocorreria em bases remotas e o consumidor pode pedir uma quantidade de GLP de até 13 quilos ou um valor em reais, semelhante a postos de combustíveis.
O Sindigás encomendou estudos sobre os efeitos das mudanças regulatórias. Em um deles, feito pela Ecoa Consultoria, a conclusão é que o envase parcial e a venda de botijões sem atrelar às marcas pode resultar numa perda de arrecadação de quase R$ 800 milhões em impostos. Em outro, realizado pela USP, o risco é de infiltração do crime organizado no segmento. Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP e especialista em segurança pública, disse que o estudo foi realizado com base no que está implantado no México, no Equador e no Paraguai. Observou-se a perda de qualidade e a redução da vida útil dos botijões e a entrada do crime organizado, especialmente no México, nos negócios com GLP. Carneiro vê risco alto do quadro se repetir no Brasil devido às limitações orçamentárias e de pessoal que a ANP enfrenta, o controle de territórios e a capacidade do crime organizado de financiar as unidades de enchimento de botijões. “Como controlar essas medidas, que são liberalizantes, com a ameaça da presença do crime organizado?”, Menu Empresas Luís questionou Carneiro. “Vai permitir a chegada do ‘Peçanha Gás’”, acrescentou, em alusão a um personagem de humor do canal de internet “Porta dos Fundos” que é policial envolvido com a milícia. A ANP ressalta que as medidas propostas são mais exigentes, com o controle pelos números de série dos botijões e acesso às notas fiscais. “A criminalidade requer trabalho policial e a nova proposta não agrava o quadro”, disse o superintendente de distribuição e logística da ANP, Diogo Valério, na reunião da diretoria.
Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás, afirmou que a identificação da marca gravada em alto-relevo em mercados recircularizáveis é o único meio de garantir rastreabilidade e segurança do consumidor. Além disso, a lei 15.348, que estabeleceu o Gás do Povo como política pública, é claro ao exigir envase de GLP em cilindros que cumpram com as normas técnicas vigentes. “Entendemos que existe uma hierarquia normativa que não pode ser contornada.” O Ministério de Minas e Energia (MME) sinalizou, na mesma linha, ser contra as duas medidas em estudo pela ANP. A pasta disse em ofício à agência que as diretrizes para implantação do Auxílio Gás do Povo fixadas em lei vedam o enchimento de botijões de empresas concorrentes e o “refil do gás”. Na visão do MME, tais temas não deveriam constar da agenda regulatória da ANP porque não estão alinhadas com essas diretrizes. A ANP disse que a minuta da resolução proposta atende à legislação do setor. A Abragás, associação que representa as revendas de GLP, destacou que a evolução tecnológica do setor permite soluções mais eficientes do que as existentes desde quando o atual modelo brasileiro foi estruturado, há quase 90 anos. “Segurança e concorrência não são conceitos incompatíveis”, disse a Abragás, em nota. O debate já chama a atenção de novas empresas. A PayGas, startup que atua no setor de GLP, estuda implantar no Brasil o negócio a granel, em modelo semelhante ao adotado no Canadá, Estados Unidos e África do Sul, onde opera há sete anos. Caso a ANP aprove o tema, a PayGas estuda investir R$ 10 milhões em um projeto-piloto de construção de cinco centrais de abastecimento no Rio, disse Natalia Giampieri, cofundadora da empresa. A executiva vê espaço para que as atuais distribuidoras possam adotar esse modelo e citou estudos segundo os quais o custo do GLP pode cair R$ 20 com menos custo de logística de enchimento. “A média de logística é de quatro botijões por cliente. Com isso, o investimento inicial para aquisição de um cliente é de US$ 100, em média. É muito dinheiro e nem todo novo ‘player’ pode entrar no mercado”, disse Giampieri.
Fonte: Valor Econômico
Related Posts
Mais concorrência para ampliar o acesso ao gás de cozinha
Em artigo publicado no portal da agência eixos, a cofundadora da PayGas, Natalia Giampetri, afirma que, Atualmente, milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza energética. Dados da EPE e da ANP...
Reforma do GLP: Abragás defende que revendas de grande porte possam envasar botijões
O presidente da Associação Brasileira de Entidades de Classe das Revendas de Gás LP (Abragás), José Luiz Rocha, defende que revendas de gás de cozinha de grande porte sejam autorizadas pela ANP, a atuar...

