Em artigo publicado no Valor, os economistas Carlos Alberto Lopes e Luís Eduardo Dutra afirmam que,
Anunciado algumas vezes, está em curso o choque de oferta no mercado de gás natural. Até 2031, a produção nacional dobrará e haverá menor pressão sobre o preço. O valor atual inviabiliza seu uso como matéria-prima. Por isso, os fertilizantes nitrogenados, usados na agricultura, e o metanol, um petroquímico básico para produzir biodiesel e resinas para madeiras, foram integralmente importados em 2024; uma situação que perdura. A oportunidade para substituir as importações e reverter o declínio da indústria é única. A responsável pelo choque será a Petrobras. No momento, recupera posições estratégicas. Entre grandes petroleiras, até há pouco, só ela não operava ativos petroquímicos. Também diferente das demais, há quatro anos, não tem mais nada no transporte e distribuição de gás natural. A dependência em relação aos fertilizantes nitrogenados e seu custo não passaram desapercebidos. É a ocasião para ganhar escopo, retornar à petroquímica, ao mesmo tempo em que dá destino mais proveitoso e diverso ao gás do pré-sal.
No exterior, a guerra da Ucrânia, as tarifas de Trump e o fechamento de Ormuz anunciam incertezas futuras quanto ao gás natural, fertilizantes e outros petroquímicos. A complexidade da produção e da geopolítica global merece atenção. Vale revisar certas cadeias produtivas e a formação de seus preços, para entender a lógica das petroleiras e não só delas. Brevemente e de trás para frente, a ureia granulada é um fertilizante nitrogenado derivado da ureia que provém da amônia que, por sua vez, é produzida pela transformação do metano contido no gás natural. Ele responde por 60% do custo da amônia. Além do preço do gás, os investimentos somam valores incomuns, até quando tomados isoladamente. A montante, contando com gás associado (a extração é paga pelo petróleo), será preciso US$ 1,5 bilhão para separá-lo e escoá-lo. A UPGN para tratá-lo está orçada em US$ 0,5 bilhão. As unidades para fabricar amônia, ureia e granulá-la, em conjunto, custariam entre US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões nos EUA. Na África, um projeto na Etiópia, está em torno de US$ 4,5 bilhões. São fábricas de porte global com projetos elaborados por poucas empresas: Thyssen, Saipem e HoneywellUOP. Somando tudo, do poço ao fertilizante, a despesa fica entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões. Outrossim, no melhor cenário, o início das operações demandará entre 4 e 5 anos. As somas são descomunais e, por isso, sem fornecimento e preço garantidos por vinte anos, projetos do tipo nunca sairão do papel. Estimar o preço do gás no longo prazo é um desafio tendo em vista a volatilidade e inexistência de um mercado mundial. Fora as crises, os preços europeus são quatro vezes maiores que nos EUA e cinco a seis vezes na Ásia. No Brasil, a regra de aproximação é apreciá-lo a partir de um décimo do valor do petróleo em energia equivalente. Historicamente, o preço do gás foi atrelado ao óleo, para competir com seus derivados. Isso reduz a desvantagem concorrencial, mas, não mitiga a volatilidade.
Nos últimos trinta anos, ocorreu uma transformação profunda dos mercados com o gradual descolamento do gás em relação ao petróleo. Três fatores se combinaram: a penetração na geração elétrica, o transporte de GNL por metaneiros e o gás não convencional nos EUA. Em 2024, apenas 18,5% dos negócios foram indexados ao óleo, segundo a União Internacional do Gás (IGU). Praticamente metade, ou 49% dos negócios, teve como referência preços de mercados do próprio gás (HH, TTF e JKM). Os novos contratos e as vendas de GNL a preço spot demonstram a notável liquidez e envergadura deste comércio. Fora a indexação ao petróleo e os índices próprios ao gás, boa parte do volume restante, um quarto, foi negociado a preços regulados, em geral, baseados no custo de serviço e nos impactos sociais de seu uso. Por fim e é o que interessa, talvez 5%, ou até menos deste volume foi vendido seguindo uma fórmula denominada net back price. O preço do gás é combinado entre comprador e vendedor de forma a dividirem risco e margem ao final da cadeia produtiva. No lugar de indexado ao barril, ou aos mercados regionais do gás, ou ainda regulado, ou fixo, seu valor será função do preço da amônia, ureia, ou do metanol. Como mais de 60% do custo depende do gás, o produtor desiste de Menu Opinião Luís estabelecer seu valor a priori, em troca de participar da adição deste em sua transformação. Trata-se da mesma lógica que empurra as petroleiras a verticalizar as atividades petroquímicas, ou das empresas químicas na direção oposta, de incorporarem à produção de gás. A fórmula do preço net back é uma alternativa à verticalização. A modelagem é feita sob medida para o uso do gás como matéria-prima. Para petroleira, uma vantagem adicional à participação no valor a jusante repousa na diversificação com um consumo-âncora: volumoso, regular e localizado. Ele permite alavancar a procura por gás. Para grande petroquímica, ela controla mais da metade do seu custo. Considerando a volatilidade do preço, tem-se também alguma previsibilidade orçamentária. Além de tudo, assegura-se o retorno das inversões nas diferentes unidades produtivas, o que facilita a complexa engenharia financeira e faz o negócio viável.
No Brasil, um tal mecanismo contratual seria uma revolução nos costumes. Por aqui, os preços sempre foram indexados ao óleo e, recentemente, alguns à paridade de importação do GNL, quando não aos preços nos EUA, o Henry Hub. Sem um mercado mundial a servir de referência, qualquer indexação do tipo está distante da realidade brasileira. Pior, trata-se de um gargalo estrutural na formação do preço que impede de gerar mais valor. A iminência de um choque de oferta, com a duplicação do volume de gás doméstico, faz antever uma mudança estrutural. Seguindo uma lógica puramente comercial, a implementação de um preço net back está alinhada à realidade da petroquímica. No Brasil, a quebra do paradigma, com a adoção de um modelo contratual baseado no net back, será uma inovação maior, pois, permite superar os entraves que, historicamente, impediram investimentos greenfield em plantas de metanol, amônia e ureia. O aproveitamento do gás natural, a autonomia nos fertilizantes e a produção de metanol podem reverter o declínio da indústria química. Não faltam modelos de negócios, mecanismos de preço e contratos bilaterais para construir parcerias duradouras entre detentoras de reservas e firmas petroquímicas. Os métodos para fixar o preço, indexados ao óleo, ou referenciados ao próprio gás em mercados no exterior não correspondem à situação brasileira e não viabilizam alianças entre as empresas. Ao contrário, adotando um preço do gás calculado de trás para frente, elas fariam uma revolução em termos da correta apreciação do seu valor como matéria-prima.
Fonte: Valor Econômico – Carlos Alberto Lopes e Luís Eduardo Dutra
Related Posts
Mais concorrência para ampliar o acesso ao gás de cozinha
Em artigo publicado no portal da agência eixos, a cofundadora da PayGas, Natalia Giampetri, afirma que, Atualmente, milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza energética. Dados da EPE e da ANP...
Tecnologias avançadas fortalecem a segurança das redes de distribuição de gás natural
Por trás do gesto simples de ligar o fogão e fazer um café existe um nível avançado de tecnologia. Desde que chegou ao país em 1997, a Naturgy tem incorporado inovações que fortalecem a segurança de suas...

