Em artigo publicado no canal Bússola (Exame), o presidente do Conselho de Administração da Abegás, Rafael Lamastra Jr., afirma que
Os próximos dias são cruciais para o futuro energético e tecnológico do nosso País. O Senado Federal começa a colocar em votação o Projeto de Lei nº 278/2026, que o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), criando um conjunto de incentivos fiscais estratégicos para atrair e acelerar investimentos em infraestrutura digital no Brasil.
Uma janela de oportunidade única para o Brasil, para atrair grandes investimentos em data centers está se fechando rapidamente.
Conforme assinala o manifesto assinado por uma coalizão de ao menos onze Frentes Parlamentares e por 34 entidades representativas do setor produtivo, divulgado no final da semana passada, enquanto outros países avançam na criação de ambientes regulatórios competitivos, o Brasil corre o risco de ficar para trás na corrida global por investimentos em infraestrutura digital.
A ausência de um marco regulatório robusto, capaz de oferecer segurança jurídica, previsibilidade e competitividade aos empreendimentos, compromete nossa inserção na economia digital global.
Redata e a oportunidade do Brasil na infraestrutura digital
O Brasil reúne atributos raros para participar dessa corrida: escala continental, mercado relevante, estabilidade institucional, posição geopolítica privilegiada, matriz elétrica predominantemente renovável e um sistema interligado que poucos países possuem. Temos, portanto, boa parte das potencialidades. O desafio agora é transformar isso em investimento.
Para consolidar o Brasil como um polo tecnológico, é fundamental que o Senado aperfeiçoe o texto do projeto. O objetivo deve ser assegurar que os data centers tenham acesso a uma matriz elétrica confiável, diversificada e de baixa emissão.
Nesse sentido, é urgente o apoio à Emenda 22 ao PL 278/2026, que propõe a inclusão de fontes firmes de geração de energia, como o gás natural, a energia nuclear e o biometano, entre as opções elegíveis para o abastecimento de data centers no escopo do Redata.
Trata-se de uma decisão que vai muito além da discussão sobre incentivos tributários, mas sim de uma oportunidade de construir uma verdadeira política de Estado capaz de posicionar o Brasil na corrida pela infraestrutura da nova economia digital, que tem na inteligência artificial seu principal vetor de transformação. Nesse novo cenário, os data centers passam a ser infraestrutura crítica para o desenvolvimento econômico.
As estimativas apontadas pelas entidades que defendem o projeto apontam para algo entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em novos investimentos no Brasil nos próximos quatro anos.
São recursos capazes de movimentar construção civil, equipamentos, telecomunicações, energia e serviços especializados, além de gerar empregos qualificados, inovação e desenvolvimento de fornecedores nacionais.
Hoje, sem esse marco regulatório, instalar um data center no Brasil custa 26% mais do que nos Estados Unidos e 35% mais do que no Chile, uma desvantagem que o Redata tem justamente a obrigação de corrigir.
Data centers exigem energia contínua e resiliente
Como a nova base da economia digital, os datacenters exigem um fornecimento de energia contínuo, resiliente e sem falhas, operando 24 horas por dia.
A flexibilidade permitida para essas operações é extremamente rígida: o limite de interrupção é de apenas 0,013%, o que equivale a menos de cinco minutos em um ano inteiro.
Fontes intermitentes, embora limpas, não conseguem garantir essa estabilidade sozinhas. O uso de fontes firmes e confiáveis de modo complementar às renováveis é, portanto, essencial para garantir a segurança energética de empreendimentos que não podem parar.
O gás natural, de forma integrada ao biometano, apresenta vantagens econômicas e ambientais inquestionáveis, atuando como o parceiro ideal na transição energética, oferecendo energia firme com baixas emissões.
Quando associado ao biometano, combustível renovável e fungível que aproveita a mesma infraestrutura de gasodutos, o potencial de descarbonização é maximizado.
Por contar com abundância dessas fontes energéticas e uma malha de distribuição em expansão, o Brasil reúne condições únicas para se consolidar como um dos principais destinos globais de infraestrutura digital.
Fontes firmes e renováveis na política energética)
Solar e eólica terão papel decisivo nesse processo. Mas fontes intermitentes precisam conviver com fontes capazes de oferecer potência firme e segurança de fornecimento. Não se trata de escolher entre renováveis e fontes firmes. Trata-se de combiná-las, e essa é uma diferença conceitual que muda todo o desenho da política pública.
A política energética associada à implantação dos novos data centers deve ser orientada por resultados, e não por restrições tecnológicas ou até ideológicas. O objetivo deve ser claro: baixa emissão, confiabilidade, segurança de suprimento e competitividade. Cumpridos esses requisitos, o País deve permitir que investidores e operadores encontrem a combinação energética mais eficiente para cada empreendimento e para cada região.
A consolidação de uma infraestrutura digital robusta no Brasil passa, necessariamente, pela inteligência de alinhar a física operacional dos empreendimentos a três condições imprescindíveis: segurança jurídica, competitividade econômica e segurança energética.
As condições finais do Redata, e as decisões a serem adotas pelo Senado, precisam estar alicerçadas nesse tripé, para viabilizar a atratividade necessária para a instalação desses novos empreendimentos, transformando nosso imenso potencial energético em investimentos reais, inovação e desenvolvimento tecnológico e econômico para toda a sociedade.
Inteligência artificial, soberania e infraestrutura digital
Há ainda uma dimensão de soberania nessa discussão. Hospedar no Brasil a parcela crescente da infraestrutura necessária à inteligência artificial, ao armazenamento e ao processamento de dados significa ampliar nossa capacidade tecnológica, desenvolver conhecimento, criar novas cadeias produtivas e reduzir dependências externas.
O manifesto destaca justamente que a instalação dessa infraestrutura em território nacional fortalece também a soberania e a segurança digital do país.
Por todas essas razões, o Senado Federal tem em mãos a oportunidade histórica de moldar o futuro digital do Brasil.
Ao aprovar o Redata com a inclusão de fontes firmes como o gás natural e o biometano, os parlamentares garantirão a segurança energética necessária para que a inteligência artificial e a infraestrutura digital floresçam em solo brasileiro, conectando definitivamente o País ao futuro.
O Brasil não precisa escolher entre desenvolvimento digital e transição energética. Pode – e deve – transformar os dois em uma mesma estratégia e vantagem competitiva, transformando diversidade energética em segurança; segurança em competitividade; e competitividade em investimento.
O planeta está sendo redesenhado pela inteligência artificial. Ficar de fora desse movimento é comprometer gerações futuras.
Sem energia firme, não existe inteligência artificial. E fugir dessa realidade é deixar escapar pelas mãos provavelmente a maior oportunidade que o país terá neste século.
Fonte: Exame.com canal Bússola – Rafael Lamastra Jr
Related Posts
Biometano: três anos que transformaram uma tese em realidade
Em artigo publicado no portal da agência Eixos, a fundadora da Isfer Energia e Regulação, Renata Isfer, afirma que, Há três anos, quase toda conversa sobre biometano no Brasil terminava na mesma pergunta:...
O espelho retrovisor e o impasse do gás: quando a busca pela modicidade tarifária destrói a infraestrutura futura
Em artigo publicado no portal da agência eixos, o pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Delanney Di Maio, pergunta Se o Estado brasileiro pode exigir investimentos bilionários em ativos...

