O Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) poderá ajudar a destravar a comercialização de biometano, mas o mercado ainda enfrenta dificuldades para formar um preço de referência para o biocombustível. Segundo o gerente de análise de projetos para o setor de Gás, Petróleo e Navegação e Descarbonização do BNDES, Luiz Marcelo Martins Almeida, a diversidade das fontes de biogás, a localização dos projetos e os diferentes formatos de contratos são fatores que impactam atualmente o mercado. “O mercado hoje [está] totalmente sem um preço ainda de referência. Eu vejo contratos negociados em IPCA, contratos negociados em dólar, contratos com preços ainda totalmente diferentes”, afirmou. De acordo com o representante da instituição, a própria diversidade das fontes de biogás, como aterros sanitários e agroindústrias, dificulta a formação de uma referência de preços para o biometano, já que cada origem apresenta custos distintos de matéria-prima e está localizada em diferentes regiões do país.
Esse cenário é agravado pelo fato de o mercado ter se desenvolvido diretamente no ambiente de livre negociação, sem a realização de leilões, diferentemente do que ocorreu no setor elétrico. Para ele, a combinação desses fatores contribui para a ausência de um preço de referência para o mercado. O executivo afirmou que o BNDES chegou a discutir a possibilidade de utilizar como referência os preços do gás natural para consumidores de médio porte, que possuem tabelas em diferentes estados. A alternativa, porém, esbarra nas diferenças entre os contratos já firmados no mercado. Segundo ele, contratos de longo prazo celebrados anteriormente, por exemplo, podem ter sido estruturados com indexação pelo IPCA, sendo que uma mudança nas condições de mercado poderia levar esses consumidores a avaliar uma migração para o mercado livre no médio prazo. O representante também afirmou que uma possível referência futura poderá considerar o fato de o biometano substituir combustíveis fósseis e importações. Nesse cenário, o preço poderia eventualmente ter uma referência em dólar e em unidade de energia, como o BTU. Ele citou ainda a possibilidade de utilização de referências relacionadas ao preço da Petrobras, mas ressaltou que esses pontos ainda serão discutidos conforme o mercado avance.
Além da questão do preço, o executivo destacou a localização e a logística como desafios para o desenvolvimento do mercado. Nesse contexto, o CGOB poderá ampliar as possibilidades de comercialização do biometano ao permitir que a produção seja negociada virtualmente entre diferentes regiões. De acordo com Luiz Marcelo, atualmente o BNDES financia projetos considerando a compra da molécula física de biometano. Ele citou como exemplo situações em que um cliente pretende inserir biometano em um gasoduto e adquirir a molécula em outro ponto, onde ela já está misturada fisicamente a outros volumes de biometano. Segundo ele, o CGOB poderá permitir esse tipo de operação, superando uma das dificuldades relacionadas à comercialização do combustível. “Nos últimos quatro anos, o BNDES já financiou ou está em vias de financiar cerca de 24 projetos no setor de biometano. Isso representa aproximadamente R$ 3,5 bilhões em financiamentos e mais de 1,5 milhão de metros cúbicos por dia de produção prevista para 2027. Esses projetos são importantes e estamos estudando formas de destravar o mercado de clientes”, afirmou o gerente de projetos do BNDES.
Josiani Napolitano, presidente-executiva da Abiogás, defende a realização de um leilão de reserva de capacidade para a contratação de geração a partir de biogás. Para ela, a fonte reúne atributos necessários ao sistema elétrico, como flexibilidade e capacidade de despacho, podendo complementar a expansão de fontes renováveis, como eólica e solar. De acordo a executiva, os leilões de reserva de capacidade realizados até o momento têm contratado principalmente fontes fósseis, como gás natural e carvão. Nesse contexto, o biogás poderia atender à necessidade de geração nos horários de maior demanda, com a possibilidade de armazenamento do combustível e acionamento rápido das usinas. Ela ainda destacou que muitos projetos de biogás estão localizados próximos aos centros de carga e que a fonte pode contribuir para reduzir impactos associados aos cortes de geração renovável, conhecidos no setor como curtailment. Segundo ela, menos de 2% do potencial do biogás é atualmente utilizado no país, o que indica espaço para expansão do setor.
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Fonte: MegaWhat
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