Segundo o chefe de Assessoria Estratégica da Olacde (Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia, antiga Olade), Guido Maiulini , o gás de Vaca Muerta pode chegar ao mercado brasileiro em 2029, em contratos firmes de 8 a 10 milhões de metros cúbicos por dia, aproveitando a infraestrutura que já existe na Bolívia. “O primeiro passo em todo processo de integração é usar plenamente a infraestrutura que já existe, a custo de capital zero”. A condição, ressalva Maiulini, é que a obra de transporte na Argentina saia no prazo e que os três países avancem em ajustes regulatórios e tarifários. Nesse cenário, o gás argentino seria muito competitivo, na faixa de US$ 6 a US$ 6,5 por milhão de BTU. Em um horizonte de três anos, o país já poderia chegar ao Brasil com cerca de 6 milhões de m³/dia, estima.
O gatilho: a obra da TGN
O executivo apontou como gatilho o lançamento, há cerca de duas semanas, de uma iniciativa privada da Transportadora de Gas del Norte (TGN) para construir o primeiro trecho de um gasoduto que levará o gás do sistema de Neuquén, em Vaca Muerta, ao sistema Norte. A obra, lembrou, estava entre as etapas indicadas no relatório sobre rotas de gasodutos de integração que a Olacde apresentou em maio, em São Paulo. Segundo ele, ela habilita qualquer caminho até o Brasil: Bolívia, Uruguaiana, Paraguai ou Uruguai. A Bloomberg Línea informou que a TGN prevê investir US$ 2,2 bilhões no gasoduto Manuel Belgrano e em obras complementares para ampliar o transporte do gás de Vaca Muerta.
A rota boliviana e o desafio tarifário
A vantagem da rota via Bolívia, segundo Maiulini, é não depender de infraestrutura nova de grande porte: os dutos já estão construídos, e o gás argentino repõe progressivamente a queda da produção boliviana para abastecer o mercado brasileiro. Para chegar ao preço projetado, ele condiciona o cenário à otimização regulatória no Brasil e na Bolívia e às mudanças que a Argentina já vem fazendo. No Brasil, o ponto central é a convergência tarifária, para que o gás importado não parta em desvantagem. Qualquer redução nas tarifas de transporte, afirma, beneficiaria todo o mercado de gás e a demanda.
Reguladores trabalham em agenda técnica
No curto prazo, a Olacde mantém desde o ano passado, a pedido dos países, reuniões trilaterais entre reguladores de gás da região. A pauta é técnica: qualidade do gás, metrologia, produtos comerciais, nominações e despacho. O objetivo, diz Maiulini, não é harmonizar regras, mas garantir interoperabilidade. A meta é ampliar o comércio intrarregional nas janelas de primavera e outono, quando a Argentina tem abundância de gás. “Os tempos dos Estados e da diplomacia nem sempre são os tempos do mercado”, afirma Maiulini. Segundo ele, os três mercados caminham para a convergência. O Brasil abre o mercado de gás e busca mais concorrência. A Argentina, afirma, encerra o Plano Gas em 1º de janeiro de 2029, o que acaba com o preço mínimo de exportação. A Bolívia discute um novo modelo para quebrar o monopólio da YPFB e permitir que qualquer agente contrate transporte firme por meio de open season.
Novos investimentos exigem regras multilaterais
O primeiro passo da integração, diz Maiulini, é ocupar plenamente a infraestrutura existente. Novos projetos, com capital elevado e amortização de décadas, exigem outro patamar: regras multilaterais que deem segurança aos investidores. A Olacde apoia o grupo de trabalho do Mercosul que trata de energia e, em novembro, a reunião ministerial em Montevidéu deve concluir o desenvolvimento de um projeto e dar continuidade a estudos técnicos de convergência regulatória. O executivo lembrou que o Cone Sul tem um histórico de processos de integração energética e gasífera frustrados. Brasil e Argentina já emitiram um relatório bilateral, com participação das chancelarias e dos ministérios de energia, indicando que a integração gasífera deve ser discutida no âmbito do Mercosul para criar um mercado regional. Essa discussão, diz, ainda não começou, deve começar em breve e pode levar tempo. Os problemas latino-americanos são os mesmos em todos esses países. Maiulini se disse convencido de que há oportunidade para oferecer as garantias e construir os acordos, abrindo um novo ciclo de investimento baseado em energia mais econômica, em um contexto de fortalecimento da autonomia energética da região. A Olacde também estuda integração por gasodutos e complementaridades em fertilizantes e em gás natural veicular. No fim de outubro, Buenos Aires recebe um evento regional sobre GNV, para analisar como ampliar o uso do gás no transporte e reduzir a dependência de diesel importado.
Fonte: Eixos
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