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Petróleo tem maior alta em mais de uma década

Os preços do petróleo dispararam na sessão de segunda-feira (16), na maior valorização diária do West Texas Intermediate (WTI), desde janeiro de 2009, após drones terem atacado a maior instalação de processamento de petróleo do mundo na Arábia Saudita . O fato deve provocar uma redução de cerca de 6% na produção global da commodity e de 5,7 milhões de barris por dia — mais da metade da produção diária de 9,8 milhões do reino saudita.

Com isso, os contratos futuros para novembro do Brent, referência global da commodity, fecharam o dia em alta de 14,61%, a US$ 69,02 o barril, na ICE, em Londres. Os preços da referência americana (WTI) subiram 14,67% e terminaram a sessão negociados a US$ 62,90 o barril na Bolsa de Mercadorias de Nova York (Nymex).

No sábado (15), dez drones atacaram a maior instalação de processamento de petróleo do mundo em Abqaiq e o segundo maior campo de petróleo do reinado, em Khurais. O grupo rebelde Houthi, do Iêmen, assumiu a responsabilidade pelos ataques do sábado e, hoje, fez novas ameaças ao reino, alertando empresas estrangeiras a permanecerem distantes de poços de extração de petróleo na região.

No entanto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a Arábia Saudita acusaram o Irã de envolvimento com o ataque realizado neste fim de semana , elevando as tensões sobre a possibilidade de um conflito militar na principal região produtora de petróleo do mundo.

Apesar da piora no cenário geopolítico, especialistas acreditam que a alta nos preços do petróleo deve ser temporária e que os efeitos no mercado financeiro devam ser limitados. Mesmo com a forte alta nos preços da commodity, nesta segunda, os contratos mais ativos do petróleo não chegaram sequer a igualar as máximas deste ano.

Após um forte movimento de vendas após o fim do ano de 2018, época em que o Federal Reserve (Fed, o BC dos Estados Unidos) anunciou uma mudança na direção de sua política monetária para uma postura mais restritiva, os contratos do petróleo iniciaram uma consistente recuperação no início de 2019. A sequência durou até meados de abril, quando o Brent atingiu o patamar de US$ 74,57, seu pico no ano, na esteira de uma recuperação global dos ativos de risco.

O acirramento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, em maio, colocou pressão sobre a cotação da commodity. A percepção de que a disputa tarifária entre as potências impactaria negativamente o crescimento global e a demanda por petróleo contribuiu para uma queda superior a 20% do Brent, colocando os contratos em “bear market”, ferramenta de análise técnica que indica tendência de queda nos preços de um ativo.

Impacto temporário

Segundo a Capital Economics, a reação ao episódio do fim de semana foi contida. “A reação na maioria dos mercados financeiros foi realmente muito limitada. No geral, suspeitamos que isso permaneça, pois a produção saudita se recuperará rapidamente e os estoques globais de petróleo estão sendo reduzidos”.

A consultoria britânica chamou a atenção também para a diferença entre a reação de hoje e a de saltos anteriores no preço do petróleo em relação ao rendimento (yield) dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, que hoje caem para 1,836%, de 1,899% da sessão anterior. Esse movimento contrasta com a alta dos yields verificada nos últimos 10 casos de disparada diária do preço da commodity desde 1990. Normalmente, uma disparada do petróleo eleva as expectativas de inflação e, consequentemente, de alta de juros pelo Fed. Juros mais elevados são, por sua vez, geralmente acompanhados por alta dos yields.

“Isso reflete amplamente o fato de que as expectativas implícitas no mercado para a inflação aumentaram só um pouco, talvez porque os mercados esperam que os preços mais altos do petróleo tenham vida curta e que o impacto na inflação seja bastante pequeno”, diz o relatório da Capital. “Enquanto isso, as expectativas para cortes nas taxas de juros dos EUA diminuíram pouco”, acrescenta.

Já o economista-chefe do banco suíço Julius Baer, Norbert Rücker, delineou dois cenários principais. Na possibilidade mais benigna, o impacto à produção inclui interrupções de precaução, com o dano afetando mais o refino do que a produção.

“Isso sugeriria uma recuperação parcial em alguns dias e uma recuperação completa em semanas”, disse o economista, o que faria com que algumas suspensões dos cortes de produção de países como Kuwait, Rússia e Emirados Árabes sejam suficientes para manter o prêmio de risco “entre US$ 5 e US$ 10” por barril.

No cenário mais pessimista, a interrupção duraria até alguns meses, com danos mais significativos ao campo de extração de Khurais. Nesse caso os países da Opep e aliados provavelmente não seriam suficientes para compensar a queda. “O mercado de petróleo precisaria enviar um sinal por meio de preços mais elevados para que as companhias americanas de petróleo de xisto comecem a perfurar o mais rápido possível”, disse Rücker. A projeção aí seria de um salto em direção aos US$ 75 por barril ou além.

“Em ambos os casos, o impacto parece ser temporário, com as elevadas incertezas geopolíticas e os impactos econômicos negativos pressionando os preços do petróleo conforme seguimos a 2020. Com as incertezas em alta e o impacto temporário, mantemos a nossa postura neutra em relação ao petróleo por enquanto”, conclui Rücker.

Já a seguradora francesa Coface aponta que a alta nos preços do petróleo pode representar um risco maior de uma recessão global. “Com tensões crescentes sobre o crescimento econômico mundial, uma elevação nos preços do petróleo pode desencadear uma queda maciça na demanda global”, aponta.

Em nota enviada a clientes, a instituição afirma que, no período pós-guerra, dez das onze recessões nos EUA (na década de 1960) foram associadas a episódios de aumento dramático de preços de petróleo. “A notícia menos negativa é que estudos acadêmicos recentes apontam para um enfraquecimento na correlação entre preços de petróleo e crescimento econômico”, apontou o documento.

 

Fonte: Valor Online

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