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O gás natural e o mundo pós-pandemia

A indústria do gás natural tem sido uma das protagonistas nas discussões, reflexões e adivinhações sobre o mundo pós-pandemia. As razões para isso começam bem antes deste momento cisne negro que vive o mundo.

O grande problema do gás natural era sua logística. No passado, a única forma de transportá-lo era através de gasodutos, e isso tornava uma série de reservas economicamente inviáveis – por exemplo, as reservas na África e, mesmo, aumentar a produção em países como o Catar. Isso foi resolvido com a tecnologia de liquefação do gás. A partir daí, o gás passou a ser liquefeito, colocado dentro de um navio e entregue no país consumidor, onde será regaseificado ou consumido na forma líquida. Consequência: ocorreu um grande aumento da oferta de gás e o início de uma queda nos preços. Em 2000, surge uma outra grande novidade: a produção de shale gas no mercado americano, que acabou transformando os EUA no maior produtor e exportador de gás do mundo. Com isso, a oferta de gás cresce mais ainda e provoca uma queda maior no preço. Este aumento da oferta provocado por novas tecnologias faz do gás, definitivamente, a energia da transição em escala mundial. Com a pandemia, este conceito de energia de transição ganha corpo e o gás passa a ter protagonismo no mundo pós-pandemia.

E o Brasil? Aqui, ainda que com atraso, estamos tentando transformar o gás natural num protagonista da nossa matriz energética. O momento é muito bom, há grande oferta no mercado internacional, podemos dobrar a produção nacional em dez anos e a Petrobrás está deixando de ser a empresa monopolista. Falta o País transmitir ao investidor estabilidade regulatória e segurança jurídica. E isso deveria começar com a chamada Lei do Gás, que foi recentemente aprovada na Câmara e, agora, está no Senado.

Dois pontos importantes são tratados no texto da lei sem a devida atenção e conhecimento do mercado de gás. O primeiro é que o gás natural brasileiro é quase totalmente do tipo associado, ou seja, produzido inevitavelmente junto com o óleo. Uma vez que a queima do gás é proibida pela legislação, o produtor tem como alternativas sua reinjeção ou seu aproveitamento comercial. O custo da produção de gás offshore é sempre muito alto, pois, além de exigir equipamentos caros e pesados – o que encarece o investimento na unidade produtora –, nossos campos estão muito distantes do litoral, tornando a logística de transporte também muito cara. Para os produtores, a melhor opção do ponto de vista econômico seria a reinjeção como método de elevação artificial, aumentando a produção do óleo do campo. Mas existe um limite a partir do qual o gás produzido junto com o óleo terá de ser tratado e enviado à terra a qualquer custo. Ou seja, este gás é um produto marginal, só é produzido para viabilizar a extração do óleo. E, como qualquer produto marginal, seu preço é dado pelo mercado, e não formado por custo mais margem.

Outra característica do gás natural é que, diferentemente do óleo, não é tradable na sua forma original. Precisa ser liquefeito para poder ser exportado, e, assim, nosso gás não tem competitividade no mercado internacional.

O segundo ponto é que, em países onde a infraestrutura é ainda incipiente, como o Brasil, a questão de conceitos como o do livre acesso e da abertura das indústrias de rede à concorrência perde muito em relevância, no curto e no médio prazos. Isso porque, nestes contextos, a discussão prioritária deveria se concentrar na criação das precondições necessárias para a construção das redes (dutos, no caso da indústria do gás), em que o fator preponderante passa a ser a mitigação dos riscos envolvidos na montagem dos novos projetos. Entretanto, essa questão da expansão da infraestrutura não é tratada de forma adequada no texto da Lei do Gás.

Portanto, parece que o fato de não enfrentarmos com as devidas soluções a questão de sermos um produtor de gás natural associado e de não termos uma infraestrutura que permita um crescimento da oferta do gás em escala deixará o Brasil distante do que está acontecendo no mundo. Ou seja, por aqui, corremos o risco de o gás não ser protagonista nem tampouco a energia da transição. A conferir.

Fonte: O Estado de S.Paulo / artigo Adriano Pires

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