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Preço do gás avança, e indústria deve arcar com reajustes fortes até o fim do ano

O “choque de energia barata” prometido pelo governo Jair Bolsonaro ainda não chegou ao mercado de gás natural. Levantamento feito pela Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) aponta para aumentos em pelo menos 15 estados neste fim de ano, o que anulará boa parte das quedas registradas a partir de março, quando a pandemia do coronavírus começou a avançar no país.

A indústria paulista que usa o combustível deve arcar com um reajuste de 8,11%. Em Minas Gerais, o aumento pode ser de 23,56%. Os reajustes devem gerar um aumento de custos para empresas, que poderá repassar isso para o preço final de seus produtos, onerando, na ponta, o consumidor.

A valorização do dólar e do preço do barril de petróleo no mercado internacional no último trimestre são os principais fatores por trás dos reajustes esperados.

Na quarta-feira (04), a Petrobras anunciou aumento médio de 33% no preço da molécula de gás, o que afeta em parte o valor final do gás canalizado e do GNV, para carros. Na maior parte das distribuidoras, reajustes são revistos a cada três meses.

No Rio, o aumento previsto para ocorrer em novembro foi suspenso por uma decisão do governo do estado. Segundo a Naturgy, a alta ocorreria unicamente devido ao aumento do preço do gás vendido pela Petrobras para a distribuidora.

Na Bahia, a concessionária reajustou os preços em 28,09% no início do mês, reflexo do aumento do preço da molécula de gás. A empresa diz que não há ajuste de margem da distribuidora.

Adrianno Lorenzon, gerente de Gás Natural da Abrace, diz esperar contas mais altas em razão do anúncio feito pela Petrobras. Além da indústria, consumidores residenciais e o comércio também deverão arcar com reajustes, mas em menor proporção.

O problema pode se estender para o próximo ano.

“Os avanços que estamos vendo agora já eram esperados por conta do dólar e petróleo. Em dezembro, a Petrobras e as distribuidoras começam a renegociar seus contratos para 2021 com base nas condições de mercado. Por isso, há uma expectativa de aumento no preços”, diz Lorenzon.

Inadimplência em alta

Para a Abegás, o reajuste anunciado pela estatal vai anular boa parte da queda acumulada no ano. Ainda assim, o diretor de Estratégia e Mercado da Abegás, Marcelo Mendonça, diz que o preço médio do gás em 2020 ficará 14% mais baixo do que o registrado no ano passado.

“Esse reajuste anulou a redução dos últimos seis meses. Hoje temos um cenário imprevisível, com a influência do dólar e as eleições nos EUA. Isso tira a expectativa de melhora”, disse Mendonça, destacando que 453 cidades no país contam com gás canalizado.

Algumas distribuidoras já estão pleiteando aumentos para 2021. A concessionária de Santa Catarina, por exemplo, quer um reajuste de 22% a partir de janeiro. Neste ano, a SC Gás reduziu as tarifas em 8,34%. Em São Paulo, a Arsesp, agência reguladora do estado, disse que, em razão do reajuste de preço aplicado pela Petrobras, avalia como será feito o repasse a fim de minimizar o impacto para os usuários.

A alta nos preços do gás ocorre no momento em que as próprias distribuidoras vêm sofrendo com o aumento do calote. A Naturgy, que teve reajuste suspenso, diz que a inadimplência está em 30%. “A não autorização do repasse trimestral do custo de compra do gás poderá gerar um déficit de caixa de R$ 200 milhões na CEG e CEG Rio, que já estão impactadas por cerca de 30% de inadimplência em razão da pandemia”, disse a empresa em comunicado.

A mesma preocupação está no radar da Comgás, que atua em São Paulo. Em seu relatório financeiro, a companhia disse que sua geração de caixa operacional, medida pelo Ebitda  sofreu queda de 17% no trimestre, para R$ 481 milhões. Parte disso reflete o avanço da inadimplência. A empresa não informa qual foi a taxa efetiva de aumento nos calotes, mas decidiu abrir uma campanha promocional para que seus clientes regularizarem suas contas. A ação garante até 50% de desconto para quem tem débitos abertos há mais de um ano.

Queda só no longo prazo

Segundo especialistas , o plano do governo para baratear o gás não terá efeito imediato. A redução deve levar de quatro a cinco anos até o consumidor começar a sentir o efeito no dia a dia.

O projeto de lei (PL) que altera a regulação do setor de gás, aprovado pela Câmara em setembro, precisa ainda passar pelo Senado.

Por isso, ponderam os especialistas, o caminho até a redução dos preços é longo, pois o setor ainda é controlado pela Petrobras em diversos segmentos. Para eles, é preciso atrair mais produtores de petróleo e gás, permitindo que as distribuidoras tenham mais opções para comprar o combustível.

Hoje, muitas distribuidoras têm a Petrobras como acionista, o que também dificulta a possibilidade de buscar novos fornecedores. Além disso, os especialistas ressaltam a necessidade de atrair investidores para construir dutos e estimular a indústria a usar gás natural.

”O país vive hoje um problema que é anterior à pandemia. Se a tarifa não cair, como serão atraídos novos investimentos. Os mercados internacionais já estão se recuperando, e esse aumento agora no país vai dificultar nossa reação”, disse Adrianno Lorenzon.

Marcelo Mendonça, da Abegás, o PL do gás vai permitir a entrada de novas empresas no setor, o que ampliará a concorrência. “Sem as novas regras que vão permitir a maior concorrência, o mercado vai ficar no mesmo patamar”, alertou Mendonça.

 

Fonte: O Globo

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