O segmento de cogeração a gás natural possui cerca de 3.200 MW disponíveis para entrar em operação num curto espaço de tempo por meio de ofertas adicionais no âmbito da Portaria Normativa 17/2021, que viabilizou a remuneração de energia excedente desta fonte, no momento em que o país precisa adicionar 5,5 GW até novembro, de acordo com o presidente-executivo da Cogen), Newton Duarte.
A Portaria 17 permite ofertas adicionais de termelétricas com custo variável unitário (CVU), como usinas à biomassa, bem como centrais de cogeração. Duarte ressalta que essa medida abre espaço para novos parceiros, além das usinas de açúcar e etanol e de resíduos de madeira, com destaque para a biomassa de cascas de laranja, de arroz e de grão de café.
Na visão do executivo, esta modalidade de cogeração, geralmente relegada a um plano secundário ou apenas empregada em emergências, poderá desempenhar papel estratégico na superação do atual déficit energético. A entidade havia proposto a medida ao governo, obtendo, assim, uma resposta rápida, aponta.
“Temos 3.200 MW de cogeração a gás natural, a maioria (cerca de 1.200 MW) está no Rio, por conta de petroquímica (70% do total), mas também na siderurgia, papel e celulose, alimentos e bebidas ou cerâmicas, que também usam muito gás”, explica Duarte, acrescentando que desse montante, pelo menos 1 GW estaria disponível de imediato.
Ele conta que um de seus associados pretende produzir 700 MW em projetos de cogeração a gás natural e alguns poucos a diesel.
Na ocasião, Duarte apresentou um quadro para o Executivo federal que mostra, mês a mês, a quantidade de oferta adicional de energia disponível pelos cogeradores: de 1.800 GWh, até dezembro, e de 3.500 GWh em 2022. “São números coletados de 21 grupos de usinas, totalizando 100 usinas de açúcar e etanol, o que dá 200 MW médios este ano e 400 MW médios em 2022”, emenda.
Para ele, a situação alarmante de chegar no fim do período úmido com perspectiva de armazenamento abaixo de 12% é uma chance para o governo incentivar a diversificação de fornecedores, numa tentativa de abrir mais um mercado concentrado pela Petrobras, que considera o gás natural não mais do que um subproduto.
“Toda hora uma paulada”
Sobre a carestia do gás natural, Duarte comenta que o preço vem aumentando de forma constante nos últimos dois anos. “Toda hora tem 30%, 40% de aumento, parece o minério de ferro no mercado mundial, toda hora leva uma paulada”, critica.
Justamente por seu valor proibitivo, explica o executivo, a maior parte dos 93 empreendimentos de cogeração existentes no país só funciona em hora de pico. Como exemplo desse “disparate de mercado”, Duarte conta que o metro cúbico do gás natural vendido por uma distribuidora do Rio de Janeiro custa R$ 2,80, enquanto no mercado internacional sai por R$ 0,73. “Não há nenhum segredo nisso, só ausência de competição”.
Duarte estima que o nível dos reservatórios do país deverá cair, para abaixo de 12%, no final do ano, pois o volume de água se reduz a uma taxa de 0,1 a 0,15 ponto percentual por dia, sem qualquer perspectiva de reversão no curto prazo.
Entre os riscos de falha no sistema, o executivo explica que “poderá haver dificuldades na frequência em algumas regiões do país, em que o sistema ficaria menos resiliente”. Nesse sentido, ele lembra que o Nordeste está ‘praticamente atendido’ pelas eólicas, que conseguiram produzir, de 10 mil a 12 mil MW, mas faz uma ressalva. “O problema é que o vento vem forte e, de repente, cai. De manhã, acaba o vento no Nordeste, volta à tarde, e à noite venta muito”.
Newton Duarte diz não entender o “abandono” a que foi relegado do setor hidrelétrico, que hoje não conta com empreendimento algum de peso em construção, como no passado recente. A única exceção, acrescenta, é para o projeto da usina de São Roque, no Rio Uruguai, prestes a terminar. Fora a relevância estratégica de pequenas centrais hidrelétricas (PCH), o dirigente cobra a necessidade de reunir força política a fim de retomar o investimento em projetos hidrelétricos de grande porte.
De outra parte, o executivo entende ser muito improvável que o governo consiga convencer indústrias a desligar em sua atividade (das 15:00 horas às 21:00 horas), e transferindo para o período da madrugada, ou ainda, convencer o consumidor a desligar alguns pontos de consumo, na hora de pico. A sorte da retomada da economia deverá ser o misto de conscientização com queda brusca do gás natural ofertado ao sistema, via acirramento da concorrência.
Fonte: Energia Hoje
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