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Consumo de gás na Europa cai para nível mais baixo em 10 anos

O consumo de gás na Europa em 2023 caiu para o seu nível mais baixo em 10 anos, à medida que os países do continente vêm melhorando a eficiência energética e implantando mais fontes renováveis. Nos dois últimos anos, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a demanda de gás diminuiu 19% em todo o continente.

Essa é uma das conclusões do relatório “European LNG Tracker”, da IEFFA (Instituto de Economia Energética e Análise Financeira), que revelou que a queda na procura de gás foi impulsionada principalmente pela Alemanha, Itália e Reino Unido.

Segundo a autora do estudo, a colombiana Ana Maria Jaller-Makarewicz, “além das fontes de energias renováveis que entraram em vigor, houve um aumento de eficiência nas casas, nos serviços e nas indústrias”.

“Fui à Espanha em setembro de 2022 e ainda estava quente. Mas o ar-condicionado não estava tão alto, pois o governo havia decidido que os aparelhos não deveriam ficar tão frios. Então, apenas essa redução de um grau, que seja, tanto nos ares-condicionados quanto no aquecimento, no inverno, ajudou a reduzir a demanda”, disse Jaller-Makarewicz à Folha.

Publicado em fevereiro, o estudo mostra que o consumo de gás no continente em 2021 era de 558 bmc (bilhões de metros cúbicos). Caiu para 488 bmc em 2022 e, agora, os últimos dados indicam consumo de 452 bmc no ano passado, uma queda de 19%. Se considerada apenas a União Europeia, o consumo diminuiu 20%, para 330 bcm.

Anteriormente, a IEEFA havia previsto que as importações de GNL (gás natural liquefeito) aumentariam em 2023, uma vez que os países tentariam comprar de outros lugares para reduzir a dependência do gás russo. Mas isso não ocorreu.

O GNL é a versão em estado líquido do gás natural, um combustível fóssil encontrado na natureza dentro de rochas porosas, resultado da degradação de matéria orgânica. É um dos responsáveis pela emissão de dióxido de carbono na atmosfera, principal causa do efeito estufa.

No entanto, diz a pesquisadora, o pânico causado pela possível falta de energia —após a interrupção da importação de parte do gás russo— fez com que os países implantassem medidas para importações de outros países.

“Volumes adicionais de GNL serão geridos através de uma rede europeia de infraestruturas com 37 terminais de importação operacionais, dos quais oito entraram em funcionamento e quatro foram expandidos em 2022 e 2023. Treze novos projetos estão em construção e há planos para expandir mais quatro terminais existentes”, apontou o relatório.

Mas isso não é mais necessário, alerta Jaller-Makarewicz. “Esses terminais, essas construções, deveriam ser interrompidas? Sim. Deveriam ser reavaliadas, no mínimo. Quais são estritamente necessárias e quais talvez não sejam necessárias de jeito nenhum”, disse.

Já o estudo “On Thin Ice” (em gelo fino), do Zero Carbon Analytcs, grupo de pesquisa especializado em alterações climáticas e transição energética, chegou à mesma conclusão da pesquisa da IEEFA: a União Europeia não precisa do desenvolvimento de novos campos ou de terminais para petróleo e gás.

“Dado que a UE tem procurado eliminar gradualmente os combustíveis fósseis russos, alguns argumentaram que isso significa que seriam necessárias novas fontes de petróleo e gás. Nossa análise mostra que este não é o caso: se as metas climáticas forem cumpridas a longo prazo, os contratos existentes e os projetos de fornecimento de gás atualmente em andamento na UE, na Noruega e na Argélia deverão exceder a demanda até 2035”, afirmou à Folha Murray Worthy, o primeiro dos nove autores da pesquisa.

Até 2030, a demanda por gás na UE (União Europeia) deverá cair 32% e a de petróleo, 30%, devido ao compromisso climático da IEA (Agência Internacional de Energia). Já o petróleo, 30% até aquele ano. O estudo foi publicado em fevereiro. Questionado a respeito de o Brasil continuar em busca de petróleo em seu território, Worthy foi direto: “a ciência é clara: qualquer nova extração empurrará o mundo para alterações climáticas cada vez mais perigosas, que terão consequências graves para países como o Brasil”.

“Se, em vez disso, os países conseguissem reduzir a utilização de combustíveis fósseis e limitar o aquecimento global, então estas reservas de petróleo vão se tornar inúteis, deixando o Brasil com projetos que nunca gerarão dinheiro suficiente para cobrir os investimentos iniciais”, finalizou.

Fonte: Folha de S.Paulo

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