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O papel das comercializadoras na abertura do mercado de gás

As comercializadoras independentes de gás natural ainda não conseguiram se firmar no mercado, mas aos poucos esse grupo de empresas começa a se movimentar para entrar no jogo. O ano de 2024 tem trazido algumas novidades nesse sentido. A primeira onda de abertura do mercado foi capitaneada pelos produtores de gás nacional, que decidiram criar seus próprios braços de comercialização e vender, eles mesmos, seus próprios volumes – sobretudo para as distribuidoras de gás canalizado e, salvo exceções, para algumas poucas indústrias no mercado livre. Equinor, Galp e Shell, no offshore, e 3R Petroleum, Origem Energia e PetroReconcavo, no onshore, concentraram a maior parte do suprimento de gás privado dos últimos dois anos. Mas há uma mudança em curso no mercado, hoje: Edge, Energisa, GasBridge, MGás, Tradener e Vibra Energia são alguns exemplos de comercializadoras que têm se movimentado atrás de oferta de gás (nacional e importado), num mercado ainda carente de liquidez, e que começam gradualmente a compor suas carteiras de suprimento. Algumas delas têm conseguido aproveitar janelas de oportunidades de aquisição de gás de terceiros e fechado seus primeiros contratos de venda – seja para consumidores finais no mercado livre, seja para as distribuidoras no cativo e até mesmo para os demais supridores num ainda incipiente mercado secundário.

Dentre os movimentos mais recentes estão a Vibra e a Energisa. As duas companhias têm se reposicionado estrategicamente, ante a transição energética, para ampliar a carteira de soluções e produtos aos seus consumidores. Entrar na comercialização de gás natural faz parte desse contexto. A Vibra, que tem a distribuição de combustíveis como principal negócio, está ensaiando os seus primeiros passos como trader de gás e está montando seu portfólio. Em junho, obteve autorização da Arsesp, a agência reguladora paulista, para começar a atuar em São Paulo, no maior centro de consumo do país. A empresa tem contrato de venda de molécula com a mineradora Samarco no mercado livre; e um acordo de compra de gás com a PetroChina – em 2023, a Vibra já havia celebrado um outro contrato de aquisição com a Shell Energy. São contratos MSA (do inglês Master Sale Agreement) – tipo de acordo que define as bases que permitem às partes serem mais ágeis em potenciais negociações futuras. Não significa que a Vibra esteja, necessariamente, comprando e vendendo gás, mas sim montando a sua carteira de fornecedores e clientes. A empresa, no entanto, contratou capacidade na malha de gasodutos da Transportadora Associada de Gás (TAG), para retirada de 40 mil m³/dia no Espírito Santo até o fim do ano, o que sugere que a empresa está ativa no mercado. A Vibra vem se reposicionando no mercado de gás: vendeu a CDGN, que atua com gás natural comprimido (GNC); e a ES Gás, distribuidora do Espírito Santo. A empresa quer se valer de sua rede B2B (consumidores finais), para explorar o serviço de comercialização não só de gás, mas também biometano, com a compra da ZEG Biogás. A Energisa fez um movimento diferente: entrou no mercado de gás em 2023 via distribuição, com a compra justamente da ES Gás e dobrou a aposta no segmento com a aquisição da Infra Gás – que lhe proporcionará entrar no capital de mais cinco concessionárias estaduais do Nordeste.

A comercialização de gás é o passo seguinte. Está à cargo da (re)energisa, divisão do grupo que atua no mercado livre de energia e geração distribuída solar, por exemplo. A companhia aposta, assim, na base de clientes que possui no setor elétrico. A atividade guarda sinergia também com a atuação na distribuição de gás. Com a operação da ES Gás, o grupo Energisa ganhou experiência com compra de molécula no mercado. A concessionária capixaba vem diversificando sua base de supridores para além da Petrobras e tem, hoje, contratos também com a Galp e 3R Petroleum. A Energisa obteve no início do ano autorização da Arsesp para comercializar gás em São Paulo e vem prospectando clientes no mercado livre. Em junho, por exemplo, a empresa participou de um encontro de aproximação com a indústria paulista de cerâmica. A exemplo da Vibra, o grupo também busca montar uma carteira de suprimento de gás natural e biometano.

Na falta de liquidez no mercado brasileiro, as comercializadoras independentes têm buscado opções de compra de gás na Bolívia. A Tradener foi uma das pioneiras, nesse sentido, ao fechar um contrato de importação de gás interruptível com a YPFB. A empresa, contudo, tem tido dificuldades para desenvolver o negócio, salvo algumas poucas operações pontuais no mercado de curto prazo. A Delta também tem tentado colocar de pé o seu braço de comercialização de gás, com gás boliviano. O destaque na importação de gás boliviano este ano, porém, tem sido a MGás (joint venture entre Macaw Energies e Mercurio Partners). A comercializadora tem contrato de suprimento com a Logás, empresa de distribuição de GNC, também da Macaw; e vem revendendo gás boliviano para outros supridores no Brasil.A MGás é um fornecedor recorrente de gás de curto prazo para a Galp e, pontualmente, para a Edge. A comercializadora da Compass, aliás, é outra que tem apostado no gás boliviano para complementar o seu portfólio de gás. A empresa estreou este ano no mercado livre (tem contratos para venda de molécula para ao menos três indústrias do setor cerâmico) e tem montado sua carteira de suprimento com gás boliviano (revendido pela MTGás, a distribuidora do Mato Grosso); e com gás do pré-sal da Shell, por exemplo. A Gas Bridge também chegou a tentar desenvolver seu negócio com gás boliviano, sem sucesso, e vem mudando a sua posição no mercado. A comercializadora mudou de dono, com a saída da Lorinvest e a entrada da Pluspetrol – produtora argentina. Mas enquanto a importação de gás de Vaca Muerta ainda não vira realidade, a empresa tem se movimentado no mercado interno, explorando janelas de oportunidade de aquisição de gás de terceiros, como a PetroReconcavo. E acordos de venda de curto prazo com a Vale no mercado livre.

Fonte: Epbr

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