O governo Trump está demonstrando, de maneira escancarada, que as grandes nações soberanas buscam tirar vantagem de seus trunfos em matéria de energia, produção agrícola, infraestrutura, conhecimento e minerais estratégicos voltados para as transformações da economia. Depois de tentar tomar a Groelândia, de olho nos metais estratégicos do vasto território de gelo, os Estados Unidos estão usando sua mediação no cessar fogo entre a Rússia e a Ucrânia para extrair concessões na extração de terras raras ucranianas. A conquista dos metais do futuro se antecipa à transição energética, de resto descartada pelo governo Trump, que se retirou do Acordo de Paris, o que o desobriga a cumprir as metas de redução das emissões de CO2 (efeito estufa). Mas o pragmatismo americano fala mais alto. Vejam a última proposta do secretário de Estado, Marco Rúbio, de aproveitar os excedentes de energia que o Paraguai dispõe da hidroelétrica binacional de Itaipu para as empresas americanas ligadas à Inteligência Artificial se instalarem no Paraguai. Pelo tratado binacional do aproveitamento da energia do rio Paraná, em Itaipu, cabem 50% da energia ao Paraguai e metade ao Brasil, que bancou a obra e sempre desfrutou da preferência sobre os excedentes. O Paraguai não usa mais que 18%. Os excedentes costumam ser vendidos também à Argentina. Pois os EUA querem transformar o Paraguai num novo Porto Rico americano, um território onde teriam ingerência direta. Com grandes empresas que usam IA, além de poupar sua por própria energia, usando a fonte barata do Paraguai – país da América do Sul com a menor carga tributária e juros reduzidos (muitos pecuaristas e industriais brasileiros se transferiram para lá, legitimamente) – os EUA poderiam, indiretamente, controlar o tráfego de drogas e de armas que alimentam o narcotráfico e o terrorismo na região da tríplice fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina. Mais que isso, é o troco americano às investidas da China no Brasil, Bolívia e Peru. Há um século e meio Brasil, Argentina e o Uruguai, com apoio da Inglaterra, subjugaram a derrotaram o Paraguai de Solano Lopes. Além do morticínio dos jovens e homens paraguaios, o país viu seu outrora vasto território se absorvido por Argentina e Brasil e perdeu o acesso ao mar pelo Rio da Prata. Os ressentimentos paraguaios com brasileiros e portenhos retardaram em pelo menos uma década os duplos aproveitamentos hidroelétricos de Itaipu e Yaciretá-Apipé, a jusante. A Bolívia também perdeu acesso ao Pacífico em guerras com o Chile e o Peru. E os ressentimentos ainda ecoam até hoje. A Bolívia, dona de grandes reservas de gás, custou a negociar com o Brasil e a Argentina. Mas a integração do Mercosul ajudou a aparar as arestas e a estreitar as relações. No momento, em complemento às parcerias em energia, o Brasil ajuda a Argentina a explorar o gás de Vaca Muerta, que abastecerá o sul do país. Mas o traçado do projeto da ferrovia bioceânica, para atravessar o Brasil (portos do Açu-RJ e Fiol-BA) até o porto de Chancay, bancado pela China, que procura encurtar em até 40 dias o prazo máximo atual de travessia do Atlântico até o Pacífico, teve de se desviar até o Acre para chegar ao território peruano e dá atravessar os Andes por túneis gigantescos para evitar atritos entre Peru e Bolívia na gestão da ferrovia.
Vejamos agora o caso do ainda baixo aproveitamento do gás natural do Brasil. O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) divulga o primeiro número de seu Boletim de Gás Natural, com análise dos dados globais e nacionais sobre produção, consumo, comercialização e infraestrutura, com base em informações consolidadas dos últimos três anos. A oferta de GNL vinha ocupando o espaço deixado por usinas a carvão e por centrais nucleares desativadas, mas o quadro se complicou com a guerra Rússia-Ucrânia, que tirou a Rússia do mercado de gás do Ocidente. Os Estados Unidos, que eram o maior produtor em 2023 (1.035 bilhões de m3) e o maior consumidor (886,47 bilhões de m3) passou a fornecer parte das necessidades da Europa, com gás natural liquefeito e a produção russa caiu para 586,38 bilhões de m3), contra consumo de 453,37 bilhões. O 3º produtor de excedente é o Irã, mas são ainda grandes ofertantes o Catar, o Canadá, o México, a Arábia Saudita e a Noruega. O maior importador é a China, seguido do Japão e o Reino Unido. O Brasil poderia aproveitar bem mais que os produzir bem mais que os 153,17 bilhões de m3/dia de gás natural no ano passado, um crescimento de 8,1% sobre 2023. É que do total produzido em 2024, segundo o Ineep, 54,3% foi reinjetado nos campos de exploração (pela Petrobras e demais petroleiras), 32,5% foi ofertado ao mercado, 10,4% foi consumido internamente nas plataformas de produção e 2,8% foi queimado. Assim, 67,5% do gás extraído não chegou ao mercado de consumo. O resultado é que o Brasil está em 12º lugar entre os países com as tarifas de gás natural mais caro do planeta. (R$ 5.662 por metro cúbico), à frente da Alemanha e atrás da Áustria e da França. Todos os 15 países com custos elevados para o gás natural listado pelo Ineep, com exceção do Brasil, não são produtores de GN. A lista é encabeçada por Singapura, seguida de Suíça e Hong Kong. O Brasil é o país autossuficiente em petróleo (e gás) com as maiores tarifas do mundo.
Está na hora de reverter a situação e cortar os gargalos internos. Segundo o Ineep, em diversas regiões, as deficiências na infraestrutura de transporte e distribuição de gás natural configuram um gargalo estrutural, como a ampliação da oferta para novos territórios. A abertura do mercado de gás e os desinvestimentos da Petrobras de ativos do transporte e distribuição não entregaram os resultados esperados em termos de competitividade em preço e na expansão da oferta. Apesar da contribuição do gás do pré-sal para reduzir a dependência da Bolívia, o acesso ao insumo permanece restrito e com custo elevado. O desafio central está na formulação de um marco regulatório que permita tarifas mais competitivas, promova a interiorização do gás ao oeste do território e eleve a eficiência operacional das concessionárias estaduais, articulando investimentos em infraestrutura de escoamento e transporte com novos modais.
Fonte: JB Online/ coluna O Outro Lado do Moeda
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